A felicidade do trabalho manual (Ou por que sua avó estava certa em mandar você lavar uma pia cheia de louça)

por Fred Di Giacomo

Muita gente escreve sobre os prazeres de andar de bicicleta. Assim como escrevem sobre os prazeres de correr. Eu, mesmo, redescobri esse pequeno prazer recentemente. Esportes, confesso, não são meu forte, mas andar de bicicleta alia a praticidade de um meio de locomoção limpo com os benefícios de uma atividade física, numa curva de aprendizagem sem muito sofrimento inicial. Não é sobre isso que quero falar hoje.

(Breve parênteses: minha bicicleta quebrou esta semana. A corrente, velha e enferrujada, escapou e se enrolou em dezenas de nós de metal difíceis de desafazer. A sensação que eu tive ao não conseguir consertar minha bike foi de irritação e impotência. Voltei a ser um adolescente nerd, melhor com livros do que com a vida prática.)

Pouca gente fala sobre o prazer da manutenção de bicicletas. Do trabalho manual. É disso que quero falar hoje.

Sempre que viajo percebo como a relação com o trabalho manual é diferente se você compara países como Alemanha e os Estados Unidos com o Brasil. Aqui, em Berlim, ninguém tem empregada doméstica e muita gente não tem faxineira. Sim, estou falando da classe média. Todas as pessoas exercem muito mais atividades domésticas e manuais. No Brasil, ainda é um horror aceitar que as empregadas domésticas devam receber de acordo com a CLT, como “empregados normais”. Aqui, em Berlim, quase tudo segue a lógica do “faça você mesmo”. Você monta seus móveis, limpa sua casa e faz seu próprio exame de infecção urinária no hospital. A mão de obra é cara e eficiente. Um bar descoladinho tem apenas uma pessoa trabalhando por turno. Ela não vai atender os clientes em cada mesa. Os clientes caminham até o balcão. Ninguém se revolta com isso. O funcionário ganha tão bem como um designer e tem uma vida decente.
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Aqui em Berlim os moradores de rua te olham nos olhos. No Brasil, eles são invisíveis.

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Ilustrações: Laura Salaberry

Meu pequeno historiador interno não quer me deixar omitir que trabalho manual no Brasil não é considerado “coisa de cidadão” desde o começo da nossa história. Como na Grécia antiga, onde os escravos trabalhavam e os cidadãos “pensavam e produziam arte”. Duvida? Olha o que dizia o governador Antônio Pais de Sandes ao Rei português, em 1693, sobre os paulistas: “São briosos, valentes, (…) e adversíssimos a todo ato servil, pois até aquele cuja muita pobreza lhe não permite ter quem o sirva, se sujeita antes a andar muitos anos pelo sertão em busca de quem o sirva, do que a servir a outrem um só dia“. Sim, você leu de forma correta, o paulista do século XVII preferia passar anos caçando índios para serem seus escravos a ter que botar suas mãos numa enxada. Ninguém vinha para o Brasil para ser “colono” na época da nossa “colonização”. Os brancos europeus abriam mão de sua pátria para serem não menos que senhores. Para serem pequenos reis. Claro que a coisa mudou um pouco quando imigrantes europeus vieram trabalhar no Brasil com a abolição da escravatura e a industrialização. Não por acaso, nessa época também passamos a ter uma classe média maior entre os senhores e os servos.

O fato do trabalho braçal ser coisa inferior foi um grande atraso para o Brasil. Divide o país entre duas castas e gera uma dificuldade de que nos enxerguemos todos como cidadãos. Faz com que até hoje seja confortável para uma parte das pessoas que a “outra” nunca ascenda socialmente e possa lhe servir de servo ganhando mal e se ocupando de trabalhos menos dignos. Faz com que a gente divida o Brasil sempre entre “nós” e “eles”. Entre a pista e a área VIP. Entre a escola particular e a escola pública. A turma da abadá e da pipoca. Enfim, vocês entenderam. E faz com que as classes médias e altas abandonem qualquer possibilidade de encontrar a felicidade em trabalhos manuais.

Todos perdemos.
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Muitos já escreveram isso e de uma forma melhor: o trabalho moderno chegou à formas tão complexas de especialização que o trabalhador não consegue entender o “sentido” da sua ocupação. Não estou falando de operários que apertam parafusos apenas. Estou falando, também, do “analista de redes sociais junior”, cuja função é apenas fazer relatórios com dados de audiência das páginas de Facebook de 33 marcas de desodorante para cachorros. Para que (e para quem) ele trabalha? Qual  é sua função no mundo? Qual o significado de sua jornada de mais de oito horas diárias no trabalho? Se você considerar que nosso “analista de redes sociais junior” trabalha 12 horas por dia para “bater as metas” e não tem tempo para um cervejinha, um hobby ou uma atividade física, entenderemos porque ele é um provável candidato a:

a)Largar tudo e se mandar do trabalho.
b)Começar a tomar rivotril
c) Entrar em depressão.

O que é mais fácil definir: o que faz um bombeiro ou o que faz um “consultor de tecnologia web do MEC para o site da TV Escola”? Um agricultor planta pra ver um vegetal crescer, ser colhido e vendido. Quase sempre para alimentar alguém. Um professor ensina, um médico cura. Freud dizia que uma das formas de ser feliz era criando. Existem diversas outras, mas vamos focar nessa. Arte e ciência eram ocupações que podiam tornar, quem possuísse tais aptidões, mais feliz. Mas pera aí, e quem não se interessa por tocar cavaquinho ou pintar quadros de fruteiras? Bom, uma das formas de ocupação feliz poderia ser um trabalho no qual essa pessoa enxergasse seu valor para o mundo. Por isso o trabalho manual escolhido por opção (e não por imposição do seu “senhor”) e bem-remunerado pode ser uma fonte de prazer e de satisfação direta.

Não pretendo aqui ser leviano e ignorar que a complexidade de nossa sociedade moderna, não exija trabalhos mais complexos. Estou interessado na infelicidade que esse tipo de função tem gerado nas pessoas que não conseguem enxergar um sentido em seus empregos e, consequentemente, em suas existências.
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No best-seller “Zen e a arte da manutenção de motocicletas”, o filósofo Rober M. Pirsig começa sua reflexão pensando no prazer que tem ao cuidar de sua moto. Pirsig trabalhava nessa época escrevendo manuais de instrução. Ele diz que o trabalho manual foi muitas vezes rejeitado pelos românticos como algo desprezível em comparação às grandes artes, mas questiona se não é esse trabalho, também, uma forma de arte? E ainda “Para melhorar o mundo, devemos começar pelo nosso coração, nossa cabeça e nossas mãos, e depois partir para o exterior. Os outros poderão imaginar maneiras de expandir o destino da humanidade. Eu só quero falar sobre o conserto de motocicletas.”. “O trabalho produz brio”, acrescenta mais adiante. O paulistano Rodrigo Villas é designer e trabalhava na revista Aventuras na História. Depois de uma crise cheia de questionamentos sobre seu antigo emprego, ele resolveu largar tudo e abrir um estúdio onde reforma e customiza bicicletas – o Studio Vila Bike.  Apesar de admitir que a escolha gera alguns preconceitos, Villas acredita que  “o trabalho novo é tão amplo e nobre e criativo quanto o antigo”.

O livro de Robert M. Pirsig é profundamente influenciado pelo pequeno “A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen”, do alemão Eugen Herrigel, que introduziu esse pensamento milenar no mundo ocidental. Nesse livro curto, Herrigel estuda um pouco a forma de relacionar um trabalho manual com o desenvolvimento espiritual (“… a obra interior que ele deve realizar é muito mais importante que as obras exteriores”). Quando recebe os ensinamentos de um mestre japonês Herrigel é estimulado a focar no atividade que está exercendo, no presente e não viver a angústia do amanhã.

O prazer de vivenciar e valorizar o “hoje” que as formas de arte e criação nos dão (como bem explicou Daniela Pucci, que largou seu cargo na melhor universidade do mundo para dançar e resume: “O tango tem esse poder de me ancorar no presente”), também pode ser encontrado no trabalho manual. E a valorização deste trabalho é também uma forma de reduzir o ódio e a desigualdade que dividem nosso país. Devemos buscar um país em que o pedreiro e o engenheiro ganhem decentemente e onde as pessoas possam escolher se querem ou não se transformar em pedreiros ou engenheiros. Um país com opções.

Uma pequena mudança de mentalidade que pode trazer mais alegria ao indivíduo e à sociedade. cookie-trabalho-manual-felicidade-laura-salaberry ***
PS: “Mas esse cara só se contradiz: no primeiro post diz que o que gera felicidade é largar o emprego e viajar e, no terceiro, que o legal mesmo é trabalhar. Ridículo. Cadê minha receita pronta de alegria?” Antes que alguém levante essa argumento simplista, gostaria de lembrar que nós, do Glück Project, acreditamos que existam diversos meios de alcançar a felicidade e pretendemos esmiuçar alguns deles. O que nos parece mais importante é que as pessoas procurem se autoconhecer e invistam, sem medo, em seus sonhos. Descobrir se o seu sonho é ser artesão, ou trabalhar numa grande empresa ou dar a volta ao mundo é fundamental. Seguir com ele de uma forma sustentável, mesmo que sem satisfazer as pressões e expectativas do mundo exterior, é o grande desafio.

Todas ilustrações dessa matéria foram feitas pela designer e ilustradora Laura Salaberry

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1) Vale a pena largar tudo pra ser feliz?
2)Vale a pena largar tudo para tentar mudar o país?

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