A história da menina que saiu da favela, entrou na universidade e veio morar em Berlim

Suely Torres avisa que não quer se fazer de coitadinha e pede esse cuidado na edição do seu perfil. A professora de português não é coitadinha. Ela é uma guerreira do cotidiano  com uma história de luta e inspiração que começa na infância, vivida com a mãe adotiva numa favela em Recife; passa pela empolgação de entrar na escola aos treze anos de idade; segue pela aprovação na Universidade Federal de Pernambuco e culmina na decisão de mudar para Berlim com a cara, a coragem e uma rifa de walkman.

Conheça a inspiradora história de Suely na entrevista abaixo.

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Vamos começar falando de viagem: Que dicas você daria para quem pensa em buscar a felicidade fora do Brasil?
Suely Torres: As pessoas sempre me perguntam isso, se vale a pena morar fora. É engraçado, as pessoas querem viver a experiência do outro. Ninguém nunca pode emprestar a experiência. O negócio é viver. Apareceu uma chance? Vai! Acho que não existe uma fórmula de felicidade. Eu tô escrevendo meu livro sobre isso, sobre minha vida. A vida é feita de experiências. É sempre bom arriscar, você só sabe quando experiencia e sai do mundo das ideias. Mesmo quando a experiência não é boa, ela acrescenta. Eu sempre digo “sim”. “Caminante, no hay camino, se hace camino al andar.” Acho que vale a pena, apesar de às vezes pensar que seria melhor ter ficado no Brasil. Vejo meus amigos que ficaram e não vivenciaram tudo isso, eles parecem puros, virgens. Às vezes queria ser como eles…

Quais são os pontos fortes de Berlim na sua opinião?
Suely: Berlim: cidade acolhedora para pessoas abertas, criativas, empreendedoras, flexíveis. Sempre oferecendo oportunidades e sempre em movimento. Se você busca certeza, segurança, algo fixo; Berlim não promete e não oferece. Esta cidade é para quem quer sempre se recriar. Um dos meus trabalhos aqui é organizar tours alternativas mostrando um lado diferente da cidade, contando a história dos bairros, coisas que não saem no jornal.

Agora vamos voltar um pouco no tempo: você tem uma história incrível de superação de dificuldades. Podemos falar sobre sua infância no Recife?
Suely: Minha infância foi como a de muitos na época e de alguns ainda hoje; cheia de altos e baixos, de incertezas, de problemas econômicos. Mas eu não estava consciente disso, então era feliz, sim. Fui adotada por uma senhora de 60 anos, muito pobre, que precisava de uma filha para cuidar dela mais tarde. Era uma mulher forte, corajosa, a vida e a dureza a tornaram uma guerreira incansável e poderosa. Sua fortaleza me marcou muito. Cresci com pouca comida e às vezes nenhuma. A casa caía todos os invernos; não havia televisão, geladeira ou fogão, nem energia elétrica ou água encanada. Brinquei muito na rua com meus amigos – esses mesmos me ensinaram a ler e a escrever, brincado de escola. Adorava brincar com os insetos e animais domésticos: as galinhas, patos, cachorro, gato, cágado. As saúvas eram minhas prediletas, elas eram meus cavalos, minhas cobaias. Adorava pintar as unhas das galinhas, tingir os pintinhos, jogar pipa com as galinhas, ir pro mangue e pegar brinquedos velhos e pedaços de bonecas até formar uma inteira. A maré me trazia muitas coisas. Foi uma infância criativa, feliz, cheia de aventuras, não questionava tanto, não sei por que … Foi na adolescência que eu comecei a perceber as diferenças na vida e a ter vergonha de tudo.
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Você começou a estudar aos 13 anos, né? Como foi isso?
Suely: Sim, queria sempre ir a escola, usar o iniforme, levar livros na mão, ter merenda, amigos, mas minha mãe não acreditava muito que isso viesse a mudar a minha vida ou destino, ela achava que ler e escrever era o suficiente, que pobre não tinha muita chance na vida. Até que um dia pedi para a minha vizinha que tinha 7 filhos e me ajudava muito. Ela concordou e me levou para escola onde estavam alguns filhos dela – uma escola católica a meia-hora a pé da minha casa. Eu não acreditava! Lá fizeram um teste comigo e entrei direto na quarta série primária. Minha vizinha se responsabilizou por mim e eu não sabia onde me meter de tanta alegria. Recebi uns (tênis) Congas, meias, saia, blusa branca e os livros. Tinha direito a merenda escolar e uma carteirinha com foto. Não fui fácil na escola; era muito “perguntadeira”, curiosa, danada, mas as notas eram as melhores.

E como você reencontrou sua família biológica?
Suely: Bem, depois da morte da minha mãe, eu fiquei sozinha. Minha vizinha, dona Têca, me acolheu. Não havia restado nada: nem dinheiro, nem casa, nem terreno. Minha mãe não possuía nada material, só três filhos homens e eu. Depois do enterro, cada um foi para sua casa e eu fiquei no cemitério sem saber o que seria de mim. Como sempre tive muita sorte: minha vizinha me ofereceu fazer parte da sua família. Uns meses depois, recebi uma carta do Rio de Janeiro da minha avó biológica me convidando para ir viver com ela no Rio. Pensei: não tenho nada a perder, por que não? Viajei dois dias de ônibus. Não tinha a menor ideia de como seriam as pessoas que estavam me esperando. Chegando na rodoviária, pensei que qualquer um daquelas pessoas poderia ser a minha mãe ou minha avó. Não importava, eu me considero uma pessoa que sempre diz “sim” pra qualquer chance que aparece e por isso acredito que sou uma pessoa sortuda e feliz, pois em todas as vezes que disse “sim”, aconteceram transformações e mudanças sempre positivas, mesmo que às vezes doloridas. Ali estavam eles: minha avó e um tio. Quando os vi lembrei que aquela senhora não me era estranha. Ela era a avó dos filhos de um dos meus irmãos adotivos.

Minha avó era uma pessoa conservadora, morava em Copacabana, na Santa Clara, e um apartamento de dois quartos. Eu nunca havia visto um apê e móveis assim. Eu era uma Macabéa de verdade. Na época, eu já tinha um estilo hippie e minha avó queria que cortasse o cabelo, me vestisse bem e tivesse bons modos. Dois dias depois apareceu minha mãe biológica querendo impor que eu a chamasse de mãe. Não aceitei. Falei que seria uma falta de respeito e amor por minha mãe de verdade que era aquela de Recife. Ela desmaiou, fez um escândalo, um teatro. Expliquei que poderia considerar todos como amigos e que família se faz através de uma convivência. Assim fiquei um ano, aí terminei um curso profissionalizante de contabilidade e resolvi voltar para o Recife.

E passou no vestibular, né?
Suely: Isso mesmo! Voltei para casa da dona Têca e consegui trabalhar numa loja no centro de Recife. Depois encontrei um apê no centro e fiquei estudando para o vestibular. Só poderia passar numa universidade federal, jamais numa particular. E assim foi: entrei em Letras, Português/Inglês, na UFPE. Quase morri quando vi meu nome numa grande lista do jornal – até hoje tenho este recorte. Estava muito feliz! Eu ia estudar numa universidade grátis onde a elite estudava. Como era feliz e sortuda, sempre acreditei em mim e nos amigos que me ajudavam! Até hoje é assim a minha vida: sempre aparece alguém, uma chance, uma luz e tudo funciona. Bem, aí apareceu uma barreira: era um curso diurno, eu não poderia trabalhar. Como e onde viver? Como sobreviver? Fui viver na Casa de Estudante e de noite eu trabalhava em barzinhos. Fui aluna do Ariano Suassuna (autor do livro “O auto da compadecida”), professor que me deu uma base realmente privilegiada.

E como surgiu a ideia de mudar para Berlim?
Suely: Bem, em Recife o ritmo da universidade foi bem exaustivo; tinha que trabalhar de noite em bares e de dia estar em forma para estudar. Conheci um professor que estava sendo transferido para o Rio. Ele havia conversado muito comigo, preocupado porque eu dormia na sua aula. Ele me falou que a UFRJ oferecia bolsas e que talvez fosse melhor para mim ter uma bolsa e me concentrar nos estudos. Não hesitei; arrumei a mala e fui para o Rio. Cheguei lá e fui direto para o alojamento. Pendurei um cartaz dizendo que não tinha quarto e precisaria ficar com alguém até resolver minha situação. Na semana seguinte, já tinha um lugar para estudar português/espanhol e um mês depois um quarto no alojamento e uma bolsa na editora da universidade, fazendo correção de textos. Estudei letras e vivi no campus do Fundão, onde conheci o Paulo Lins (autor de “Cidade de Deus”) e outros amigos que moram em Berlim hoje. Mas a universidade fazia greve a cada dois meses, existiam mil problemas, as bolsas não eram pagas, o bandejão não funcionava, etc. As pessoas brigavam por causa da quentinha que recebíamos, pois eram poucas para o número de moradores da casa de estudante. Resolvi que precisava sair dali. No Rio de Janeiro, os professores mostravam slides de suas viagens pela Europa, doutorados, mestrados, passeios, etc… Eu pensava “daqui eu vou pra Europa”, já tinha isso na cabeça, não sabia como, mas iria! Falei com um grande amigo sobre meus planos e disse pra ele que tinha uma ideia de rifar meu walkman, ele riu muito, mas falou para a gente tentar. Fizemos a tal rifa e começamos a vendê-la no alojamento, todos a compraram para me ajudar. Fizeram uma festa também e cobraram entradas. Conseguimos 1000 dólares. Com este dinheiro fui a uma agência e perguntei até onde na Europa eu chegaria. Havia uma passagem por 900 dólares até Amsterdam. Perfeito, comprei! E aí começaram as outras aventuras…

Todas ilustrações desse post foram produzidas exclusivamente pela designer Renata Miwa

Todas ilustrações desse post foram produzidas exclusivamente pela designer Renata Miwa

Você já falava alemão?
Não, só um pouco de inglês, mas sem fluência. Cheguei aqui, fiquei irregular e fui para o metrô. Fiz música, depois teatro de bonecos. Ganhei dinheiro no metrô, paguei o curso de alemão e meu aluguel. Fui babysiter também. Estudei nove meses alemão,fiz a prova da Universidade Livre de Berlim e entrei para o Romanistik/Lateinamerikanistik Magister.

Em Berlim você se apaixonou e teve uma filha, né ?
Em Berlim me apaixonei primeiro por um chileno. Vivemos juntos, foi lindo um grande amor, mas era muito jovem, impulsiva e com as dificuldades todas o relacionamento se desestruturou. Tive outros namorados, entre eles os o pai da minha filha Malou. Foi tudo muito rápido: nos conhecemos e alguns meses depois queríamos a Malou e já aconteceu, outra grande sorte, tive uma filha linda que amo muito..

Como está sua vida hoje?
Eu faço mil coisas: assistência a artistas brasileiros em Berlim, aulas de português para estrangeiros, guia turístico com tours alternativos, tradução, produção, relocation etc. Trabalhei com o Karim Aïnouz (cineasta) e o Alex Flemming (artista plástico), quando eles chegaram aqui em Berlim. Agora procuro me concentrar em terminar minha tese e em escrever o livro com a minha história. Isso é tudo, além do meu amor por Malou. O que deixarei para ela é a minha história que ela não conheceu muito.

Suely Torres em Berlim. Foto: Acervo Pessoal

Suely Torres em Berlim. Foto: Acervo Pessoal

Todas ilustrações desse post foram produzidas com exclusividade pela designer Renata Miwa

 

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