Aceitar é preciso

por Fred Di Giacomo

“Conhece-se a si mesmo sem se exibir
ama-se a si mesmo sem se dignificar”,
Lauzi, “Tao Te Ching”

Quando se é uma criança curiosa, aprender coisas novas é uma das grandes diversões da vida. “Por que o céu é azul?” “Como as crianças nascem?” “O que acontece quando a gente fica velho?” Eu ainda era bem pequeno quando descobri que todo mundo que eu conhecia iria morrer um dia: meus pais, meus avós, meus coleguinhas e – pasmem – eu mesmo! Iríamos todos desaparecer da face da Terra em (sendo otimista) uns 90 anos. Passei bons dias sem dormir pensando em uma solução para este probleminha. Considerei seriamente a possibilidade de estudar para ser um cientista que pudesse prolongar a vida humana e, quem sabe, encontrar a “cura para a mortalidade”. Obviamente, nunca consegui ser bem sucedido nessa meta. Eu só pude viver mais tranquilo em relação à morte quando desisti de lutar contra ela e a aceitei. Aceitei sua inevitabilidade e passei a valorizar ainda mais a vida, sabendo que um dia não estaria mais por essas bandas.

Acredito que grande parte da busca pela felicidade concentra-se em pequenas ações e mudanças que podemos fazer em relação a nós mesmos. Admitir que somos falhos e não tentar empurrar todas as dores do mundo para a conta dos “outros”, por exemplo. Acredito, também, que muitas mudanças não dependem só do nosso esforço pessoal. Nem todo mundo nasce com as mesmas condições e vantagens; a vida não dá as mesmas cartas para todos. Procurar formas de distribuir essas cartas melhor, entender o “jogo” do outro e ser solidário são bons passos para que mais pessoas possam encontrar a felicidade. No entanto, existe um terceiro nível de complexidade que engloba as coisas contra as quais não podemos lutar. Nem como indivíduos, nem como sociedade. Um Tsunami ou a descoberta de uma doença incurável, por exemplo. Ou, como eu contei no começo do texto, o fato de que você está envelhecendo e vai morrer um dia. Não há nada a fazer contra a possibilidade da morte a não ser aceitar. Aceitar: uma palavra importante da qual pouco falamos aqui no Glück.
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Mas espere, antes de continuarmos, pare alguns minutos e assista a palestra do psicólogo e professor de Harvard Dan Gilbert sobre a felicidade. Ela vai ser importante para a segunda parte deste texto:

“Nem sempre se pode ser Deus”.
Bom, para quem ficou com preguiça de assistir ao Dan Gilbert, faremos um resumo da sua fala: após realizar inúmeros testes, Dan percebeu que o ser humano costuma procurar e valorizar o que nós podemos chamar de “felicidade autêntica”, que seria a felicidade de ter ou alcançar aquilo que desejamos. No entanto, Dan descobriu, também, que nosso cérebro tem a incrível capacidade de produzir “felicidade sintética” quando temos que nos conformar com algo. Uma espécie de sistema imunológico da mente. Por exemplo, ficamos muito felizes quando conseguimos realizar o sonho de viajar para Disney (opção A), mas ficamos felizes, também, quando não conseguimos ir para a Disney e nosso cérebro se adapta a opção B: o Hopi Hari. Dan vai além: segundo sua pesquisa, após um ano, tanto quem ganhou na loteria, quanto quem sofreu um acidente grave volta a ter os níveis de felicidade que tinha antes desses fatos ocorrerem. Estranho, né? Os “grandes acontecimentos” não garantem felicidade pela vida inteira. Eles garantem, sim, picos de felicidade ou tristeza, mas depois de um ano a vida volta ao normal. Outro estudo (que você pode ver no excelente documentário “Happy”) prova que pessoas felizes tendem a ser aquelas que superam mais fácil catástrofes e problemas pessoais.

Dan e o documentário “Happy” só confirmam um dos ensinamentos do milenar livro chinês “Tao Te Ching”: “pra ser feliz, às vezes, você precisa aceitar as coisas que acontecem na vida.” Mais que isso, você precisa aceitar que é pequeno, imperfeito, normal (nesse ponto, o texto que todo mundo adora sobre a Geração Y faz sentido) e não tem superpoderes (nem nunca vai ter, mesmo que você tome um banho de raios Gama ou seja picado por uma aranha radioativa). Como cantavam os Titãs: “Nem sempre se pode ser Deus”. O “Tao Te Ching” também ensina que você deve agir não atrás de fama ou de contentamento para o seu ego, mas das coisas que realmente fazem bem para você.

Não, o mundo não gira em torno de você para o bem e para o mal. E isso é bom! E libertador! Você não é o grande protagonista da história do universo, não mais do que todos os outros seres vivos são. Conhecendo seus limites, você está livre para correr atrás de sua felicidade e fazer tudo que é possível para construir uma vida e um universo melhor. Mas vejam: isso não é um ode ao conformismo. Não estamos dizendo aqui coisas como “quem nasce pobre deve se conformar porque Deus quis assim”. O que estamos dizendo, simplesmente, é que somos humanos. Somos limitados. Não adianta reclamar porque você não nasceu bonito como um galã da novela ou por que Chocotone só vende no Natal. Faça o que é possível e aceite o imutável.

Então, vamos relembrar:

1) Esforçar-se para ser uma pessoa melhor e se autoconhecer é importante para ser feliz.
2) Esforçar-se para tornar o mundo melhor é importante para que todos possam ser felizes.
3) Aceitar que, mesmo com todo esse esforço, às vezes a vida não é como gostaríamos é o difícil complemento para uma existência feliz.

Agora chega de falar de morte, bora ouvir uma musiquinha do Marcelo Janeci:

Ilustração de Thomas James

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