Afeganistão: lugar de gente feliz?

por Karin Hueck

Mauricio Horta é jornalista e inquieto. Fez duas viagens de quase um ano ao redor do mundo. Na primeira, trabalhou em uma fábrica de computadores no Japão e estudou mandarim na China, para depois seguir para o Paquistão, o Irã e a Turquia. Na segunda, começou na Califórnia, mas voltou à Ásia: chegou ao pé do Monte Everest, morou três meses de favor na casa de um casal gay na Índia, mergulhou nos corais da Indonésia, conferiu o sudeste asiático – Camboja, Laos, Vietnã – e terminou no Oriente, dando uma volta pela Síria, pela Jordânia e pelo Egito. Ainda assim, não tinha ido ao país que o fascinava há tempos: o Afeganistão. Em outubro, se reuniu com um amigo e uma amiga e finalmente foi conhecer um dos pedaços de terra com a pior fama do mundo. Sua família o apoiou. Seu avô, confeiteiro, disse que era importante provar todas as comidas do mundo uma vez na vida. Sua avó, com princípio de Alzheimer, não conseguiu pronunciar o país de nome complicado, mas desejou que se divertisse no “Fegutón, né?” Horta partiu e constatou que o Afeganistão é um país devastado e com uma população traumatizada – mas é um lugar de gente como a gente, cheia de tristezas e de, sim, alegrias. “Viajar nos faz encontrar o que há de mais universal em nós. Também nos faz descobrir como agimos em situações adversas. Mas isso não significa que sei o que de fato sou. Significa que expandi quem eu posso ser. Isso é mais que autoconhecimento. É enriquecer como humano”, diz. O Afeganistão enriqueceu Mauricio Horta. Entenda nesta entrevista.

Mauricio, Paula e Thomaz podem ser vistos na foto à frente dos budas destruídos pelo Talibã.

Como é o povo afegão?
Difícil questão. É um povo extremamente diverso por motivos históricos e geográficos. Mas, em maior ou menor intensidade, algumas características são comuns às mais de 20 etnias do país. O Islã é o que une as diversas etnias e é pregado de forma rigorosa pelos mulás (líderes religiosos muçulmanos). Enquanto no Ocidente a culpa é o principal regulador moral, o das culturas afegãs é a vergonha. O afegão busca de tudo para defender sua honra – seja comportar-se publicamente conforme as normas sociais, seja reparar de forma drástica qualquer mancha em sua honra, mesmo que para isso seja necessário derramar sangue. Se no Ocidente o indivíduo é a célula da sociedade, no Afeganistão a célula é a família, e a preservação dessa família é a face mais forte da honra afegã. E há as mais de três décadas de guerra. O afegão é uma pessoa que perdeu de forma violenta pelo menos algum parente próximo. Mais de um décimo de sua população ainda mora nos países vizinhos, grande parte em campos de refugiados. Anos de guerra civil também pioraram o valor que se dá à vida e à morte. Em resumo, o povo afegão é diverso, religioso, conservador e endurecido pelas guerras. Os laços familiares e a hospitalidade são mais do que um conforto afetivo. São suas maiores estratégias de sobrevivência.

Como é o dia-a-dia por lá?
O Afeganistão é um país em suspensão. Os últimos grandes investimentos em infraestrutura foram feitos pelos soviéticos – e hoje estão destruídos pelo tempo e pelas guerras. Tudo isso se sente na corrupção de policiais e soldados, na onipresença de armas de brinquedo nas mãos de meninos, nas pernas amputadas e nas viúvas mendicantes, no vazio das ruas quando a noite chega, no cheiro acre de suor e gordura de cabra impregnado em toda parte. Nas pedras brancas espalhadas pela montanha para indicar a presença de munições não explodidas, nas mansões de narcotraficantes responsáveis por quase a totalidade da produção de heroína do planeta. Mas viajar pelo Afeganistão também é comer o delicioso pão afegão e beber chá verde em todas as refeições, servidas sempre no chão, sobre carpetes feitos por famílias inteiras. É comer espetinhos de cabra ou frango feitos de animais recém-abatidos, comer deliciosas amêndoas, torrones perfumados com cardamomo, pistaches e uvas secas. É tropeçar em pedaços de cerâmica do tempo de Alexandre, o Grande, e dividir um melão do tamanho de um micro-ondas com o guardião das ruínas de umas das mais antigas mesquitas da Ásia Central. É encontrar um ancião que vende haxixe para rapazes que se escondem em cavernas para tocar flauta. E mais do que isso. É conhecer o ponto em que quase todas as grandes civilizações eurasianas cruzaram e deixaram resquícios de suas culturas e de seus genes. Os traços mongóis dos Hazara, cuja terra abriga inúmeras construções budistas, das quais as mais conhecidas são os Budas destruídos pelo Taliban. Os olhos claros e traços afilados dos Tajiques. A cultura de honra, lealdade tribal e hospitalidade dos Pashtuns, na fronteira paquistanesa. O encontro de tantas civilizações nunca foi pacífico, mas é infinitamente fascinante.

Quem foi a pessoa mais interessante que você conheceu durante a sua passagem?
Como a preservação da privacidade é extremamente cara aos afegãos, eu não posso dar detalhes da vida dessa pessoa nem da forma como ela encara o mundo. Mas posso dizer que a história de vida do nosso guia resume a luta pela sobrevivência dos afegãos. Aos seis meses perdeu o pai, que lutou na guerra afegão-soviética. Quando adolescente, perdeu o tio na guerra civil. Refugiou-se no Paquistão, onde trabalhou na tecelagem de carpetes. Voltou e partiu para Bamyan, onde gerenciava uma hospedaria que recebia trabalhadores da ONU. Ajudou a estabelecer a organização que trouxe o esqui ao Afeganistão. Casou-se com uma prima, que se havia refugiado no Irã e teve uma filha, que ele ama e não trocaria por um menino. Tudo isso é detalhe, pois a maior riqueza dele é a percepção realista de seu país.

Como você foi recebido?
Fomos recebidos sempre com um sorriso amplo, a mão pousada sobre o peito esquerdo e a fala “que a paz esteja com você”, para depois dizerem: “veja, você parece da minoria uzbeque! só falta o chapeuzinho branco”, “ela parece badakhshani com esses olhos grandes”. A hospitalidade é um valor em si mesmo no Afeganistão. Receber um forasteiro é uma obrigação moral – tanto é assim que, na década de 70, muitos hippies abusadores foram ao país sem precisar gastar com moradia nem comida. Hoje, os tempos são outros. Embora haja muitos estrangeiros no Afeganistão – só em Cabul há pelo menos 30 mil –, em geral eles vivem escondidos em suas SUVs blindadas, escritórios de segurança máxima e restaurantes secretos. Ainda assim, o afegão urbano médio fica muito entusiasmado com o encontro com um estrangeiro.

Você já deu umas duas voltas ao mundo. Acha que viajar é uma forma eficiente de diminuir o ódio entre os povos?
Viajar por um longo período pode ser muitas coisas. Viajar pode ser uma fuga de si – um constante conhecer lugar, conhecer gente e depois fazer as malas para se livrar de laços emocionais. Pode ser uma busca de autoconhecimento – encontrar aquilo que realmente tem um significado para você. Pode ser uma curiosidade intelectual. Mas, independentemente do caráter da viagem de longo período, ela vai trazer uma clareza muito maior para aquilo que tendemos a entender como universal e específico. Viajar nos faz entender que absolutamente nenhuma cultura pode almejar a universalidade. E ao mesmo tempo nos faz entender que absolutamente todas as emoções e sensações humanas são universais. Ou seja, que embora os valores variem tanto de uma cultura para outra, nossas dores, nossas paixões, nossos medos, nossas raivas, nossas invejas, nossos ciúmes são sentidos da mesma forma. Isso nos faz capazes de estabelecer empatia com pessoas de culturas talvez até antagonistas às nossas. Acho que aí está a solução para o ódio. Pena que isso ocorra de forma individual, numa escala ínfima. Mais eficaz do que a viagem é a leitura.

Há mulheres na rua? Qual é o papel delas? Andam desacompanhadas?
Há bastantes mulheres nas ruas, mas não trabalhando em público. Em geral, se elas estão nas ruas, estão fazendo compras, passeando com a família ou com amigas, ou pedindo esmolas (caso muito comum entre mulheres divorciadas). Apenas 12% das mulheres são alfabetizadas – um terço da taxa dos homens. Mesmo em restaurantes, mulheres e famílias ficam isoladas em salas privadas protegidas por cortinas para que não comam na presença de homens sem grau de parentesco. Também vimos muitas mulheres vestindo a burqa – o que tem um significado duplo. Se por um lado mostra que muitas mulheres afegãs não podem ser vistas no espaço público, mostra também que, usando a burqa, elas conseguem sair de casa e entrar nesse espaço público. Sob a burqa podemos ter uma mulher vestindo roupas que, de outra forma, seriam ousadas demais para as sensibilidades locais. Podemos ter uma mulher divorciada ou viúva pedindo dinheiro sem precisar mostrar sua identidade. Podemos ter uma trabalhadora do sexo. Podemos ter mulheres passeando com as amigas (ou com um amigo) sem expor sua identidade e, assim, evitando o comentário de conhecidos. Seu uso é extremamente controverso, mas é necessário ser entendido dentro da cultura local.

Como foi viajar com uma amiga pelo Afeganistão? Que medidas vocês tomaram?
Foi essencial viajar com a Paula para compreender melhor a situação da mulher no país. Na viagem, tomamos uma única medida: buscar nos adaptar ao máximo à cultura local. Só que para mulheres ocidentais essa adaptação é muito maior do que para homens. Deixamos implícito que nós éramos um casal, para não precisarmos explicar que ela era uma mulher viajando sem a companhia de familiares, o que causaria bastante estranhamento (na vida real, Mauricio e Paula não são um casal). De uma forma geral, homens desconhecidos não se dirigiam diretamente a Paula, assim como nós não deveríamos nos dirigir diretamente a mulheres a não ser que nós as chamássemos de “irmã”. Eu e o Thomaz não devíamos fotografar mulheres, enquanto para a Paula essa restrição era menor. O mais surpreendente é que em muito pouco tempo aprendemos a viver de forma segregada.

Há décadas o Afeganistão vive momentos de instabilidade política terríveis: foram oprimidos por soviéticos, talibãs e americanos, para só lembrar de alguns. Depois de disso tudo, os afegãos passam a impressão de um povo feliz?
Como qualquer povo, os afegãos sentem felicidade assim como tristeza. Mesmo em um ambiente tão inóspito, crianças usam o que têm à sua volta para brincar. Para elas, um veículo blindado soviético abandonado não é uma lembrança da guerra, mas um trepa-trepa com o qual elas se divertem. É verdade que muitas pessoas cresceram órfãs de pai, viram seus irmãos morrerem e precisaram se refugiar em países vizinhos. Isso tudo é extremamente doloroso e traumático, e provavelmente precisaremos de mais uma geração para que essa página de infelicidade seja virada de vez. Mas os afegãos continuam buscando a felicidade sobretudo na construção de suas famílias e na criação de seus filhos. As maiores construções das cidades grandes não são shoppings, mas salões de festa para casamento. Afegãos são obcecados pelo casamento e buscam sua felicidade dentro dele (infelizmente, esse casamento também pode ser fonte de infelicidade sem volta). É muito estranho como a felicidade não tem uma relação direta com a afluência material – caso contrário, o Ocidente estaria diante da erradicação da depressão. Mas não é o que acontece. A felicidade tem mais a ver com as relações que estabelecemos com pessoas. Neste momento em que pais de família e filhos não estão mais sendo dizimados em massa pela guerra, acho que há um espaço maior para a felicidade aflorar nessas famílias, e, logo, no país.