Ao mestre com espinhos

Postado em 19 de maio de 2014

por Fred Di Giacomo

“Quando seu pai sai de noite pra trabalhar, eu fico com medo”.

Meu pai não é policial, carcereiro ou bombeiro. Mas todos os dias trabalha em um lugar trancado por cadeados, com grades nas janelas e marcado por violência. Esse lugar é uma escola estadual e meu pai é professor de história. Minha mãe tem medo porque meu pai já foi ameaçado, xingado e agredido. Ele é mais um dos milhares de professores que acreditaram que seu trabalho com educação poderia mudar o país de uma forma pacífica – criando uma sociedade mais justa, instruída e tolerante.

Foto: Claudia Martini

Escola pública no Brasil Foto: Claudia Martini

 No Rio de Janeiro, quatro estudantes de menos de dez anos atearam fogo em uma sala de aula e escreveram no chão o nome da professora com cinzas. No mesmo estado, um professor de matemática foi espancado pela família de um aluno de 17 anos, depois de tê-lo mandado sair da sala de aula. Seriam esses casos exceções?  Conversei com alguns professores de escola pública de 3 cidades diferentes para saber o que eles podiam me relatar sobre a violência contra os educadores na escola. O primeiro, M. –  um professor de geografia de Salto – começou relutante “Bom, agora não estou lembrando de nada muito bizarro. Só lembro de um garoto que se masturbou e passou o sêmen no cabelo de uma menina e um aluno que escalava dois andares para traficar drogas”. Bom, se isso não era bizarro o suficiente,  o professor foi lembrando aos poucos de outras triste histórias. “Sim, já vi alguns casos de colegas professores que chegaram a ser agredidos de forma física. Eu mesmo, no ano passado, quase fui agredido duas vezes. Agora se fosse falar de agressão verbal, poderia dizer, sem exageros, que quase todos os dias os professores da rede pública sofrem com essa prática.”

Quando alguém pergunta qual é a solução para o Brasil, populares e especialistas – de direita ou esquerda – costumam encher a boca para responder: “EDUCAÇÃO”. Aposto que você aí, que está lendo esse texto, concorda com isso. Mas por que  nos calamos, então, diante de uma situação onde professores mal pagos são agredidos, humilhados e ameaçados todos os dias? Sim, uma educação pública de qualidade seria peça fundamental para problemas como o apagão técnico, a falta de qualificação e competitividade brasileira e a necessidade de se criar uma sociedade mais justa e consciente. Uma educação de qualidade permitiria que todos tivessem as mesmas condições para disputar vaga numa boa universidade, promovendo uma grande ascensão social através da qualificação. Os filho(a)s de  empregadas domésticas e boias-frias teriam tantas chances de se tornarem médicos e engenheiros quanto os filhos de médicos e engenheiros. Quebrando nosso pequeno apartheid social, estaríamos tanto mais próximos da livre iniciativa querida pela direita, quanto de uma sociedade menos desigual sonhada pela esquerda. Então, se todos concordam nesse ponto, o que deu errado com nossas escolas?

“Este ano, uma colega, professora, foi agredida com um soco nas costas.  Era professora substituta. Pergunta se ela voltou para a escola? Minha irmã,  também professora, pediu para um aluno sair da sala de aula – pois tinha faltado com respeito a ela – e quando saía da escola, na rua, o adolescente a ameaçou com uma garrafa quebrada.  Um colega a defendeu e saiu com a mão ferida. Dá pra imaginar?” indigna-se T. professora de português há 30 anos, em São Paulo. Os casos de T. e M. não são exceções. Acredita-se que 80% das agressões sofridas por professores não são transformadas em queixas ou boletins de ocorrência. A violência nas escolas se tornou rotina, algo com o que o professor tem que acostumar, afinal, “escolheu ser sofredor”. “A concorrência para os cursos de licenciatura em universidades públicas chega a ser ridícula: 3; 2; 1,5 candidato por vaga, enquanto os cursos de medicina dão mais de 220 candidatos por uma vaga. Agora me diga, todos esses candidatos do vestibular de medicina procuram o curso apenas por vocação? Ou os altos salários de médicos não motivam uma grande concorrência atraindo, assim, os melhores profissionais? A educação de ensino fundamental e médio só ira absorver os melhores profissionais, quando houver uma melhor política salarial para professor.”, desabafa M. Numa pesquisa da UNESCO sobre violência nas escolas, os alunos se apresentam como principais autores dessa violência e, ao mesmo tempo, como as principais vítimas, seguidos pelos professores, diretores e funcionários. Professores e funcionários raramente são autores. A pesquisa da Unesco ainda diz que dos alunos que têm arma de fogo, 70% já levaram seus revólveres para a escola. Outra pesquisa da Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo) aponta que 87% dos professores entrevistados disseram já ter tomado ciência de algum tipo de violência em escola e os casos mais comuns são agressão verbal (96%), atos de vandalismo (88,5%), agressão física (82%) e furtos (76,4%).
Foto: Claudia Martini

Escola pública no Brasil Foto: Claudia Martini

Esses dados não me assustam, afinal, são estatísticas que  fazem parte da história da minha família. Cresci com meus pais discutindo educação, debatendo métodos de ensino e se frustrando com uma violência escolar que explodiu nos anos 90. Em 1996, minha mãe pediu demissão do colégio estadual onde lecionava, após ser ameçada por um aluno furioso que teve que ser contido por colegas. O rapaz não aceitava a nota que tinha tirado. Me assusta isso. Será que estamos criando nossos filhos para lidarem com a frustração? Quando pais vão às escolas (públicas ou privadas) defender violentamente seus filhos, eles têm consciência da lição que estão passando?  A vida é feita de frustrações e nossas crianças mimadas precisam aprender a lidar com isso. A escola pública virou um grande depósito, onde os pais esquecem os filhos em troca de uma alfabetização tosca, merenda e – em alguns casos – a garantia do benefício do “Bolsa-Família”. Isso é o suficiente? Meu pai – que desistiu da faculdade de direito para apostar no sonho de dar aulas – começou seu trabalho no Jardim Ângela, um dos bairros mais violentos da cidade na época, famoso por ser citado em letras dos Racionais Mc’s. Desde então, suas histórias  de violência e tensão lembram a de colegas cujos pais trabalharam como agentes penitenciários.

E o que deu errado com nossas escolas públicas? Primeiramente, ouve uma “boa intenção sem boa execução”. No tempo “áureo” da educação pública, tínhamos uma educação voltada para a classe média, onde grande parte da população não frequentava as escolas e vivia como semi-analfabeta. A intenção de colocar todas as crianças na escola, extinguir o analfabetismo e diminuir a reprovação de alunos acabou sendo levada com mais foco em quantidade que qualidade. Rapidamente, a classe-média tirou seus filhos da escola pública e – como muita coisa no Brasil – o que é “coisa de pobre não interessa a ninguém”, muito menos aos políticos. A carreira do professor estadual foi sucateada e os baixos salários – comparáveis à ocupações que não exigem diploma superior – deixaram de ser atraentes além de derrubarem a auto-estima da categoria e seu respeito perante os alunos. Hoje, um professor estadual, em São Paulo, tem um salário inicial de pouco mais de R$2000. O professor deixou de ser um exemplo, para ser um “sofredor” Mas, principalmente, o professor perdeu qualquer possibilidade de defesa contra o aluno que o desrespeite ou que não queira aprender. A repetição de ano foi extinta e a expulssão das escolas “proibida”. “No caso de alunos menores de idade, a legislação garante o direito de frequentar uma  escola, ou seja, a escola só consegue expulsão, caso haja uma vaga em outra escola. “Já vi casos de alunos expulsos que permaneceram  no mesmo colégio, imagina como fica o comportamento de um aluno que apesar de ter sofrido todas as advertências possíveis e ter sido expulso, ainda permanece na mesma escola.” diz o professor de geografia M.

Outro problema grave é a situação de miséria e violência em que vivem esses alunos. Alguns deles são obrigados pelos pais a frenquentarem a escola apenas para garantir benefícios sociais . Ou, então, são menores infratores que tem que assistir as aulas como parte do processo de reintegração à sociedade. Muitos são vítimas de violência física, sexual e psicológica em casa. “A própria estrutura física das escolas já é uma violência, salas de aula de mais ou menos 50 metros quadrados, acomodam no mínimo 35, 40 alunos. Os prédios da maioria das escolas parecem verdadeiras prisões.  Muitas trancam  os corredores por questão de segurança. Já pensou num incêndio ou um pânico qualquer?”, diz T.

Foto: Claudia Martini

Foto: Claudia Martini

A educação e a leitura podem ajudar o Brasil a criar uma cultura menos violenta e diminuir a desigualdade social do país, mas para isso, precisamos tratar nossos mestres com carinho. Não adianta compartilharmos frases bonitas sobre educação no Facebook e criticarmos greves de docentes. Não adianta o governo aprovar alunos que não sabem escrever para cumprir metas, nem investir milhões em livros novos e tablets modernas, enquanto esquece das pessoas. Quando falo que meus pais são professores para amigos e colegas profissionais, canso de ouvir como resposta um “Coitados…”. Enquanto nossos professores forem “coitados” mal pagos e com medo de não voltar para casa, não espere que a educação salve o país.

Todas as fotos foram tiradas por Cláudia Martini em escolas públicas de cinco Estados brasileiros. Ela foi convidada pelo Ministério Público Federal a registrar unidades com os piores índices de desempenho escolar do país.

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