Cliquei em todos os posts que meus amigos do Facebook compartilharam em um dia – e aprendi algumas coisas sobre felicidade

por Karin Hueck

Na semana passada, quando este blog estreou, tivemos um retorno que não apareceria nem nos nossos sonhos mais loucos: em dois dias, recebemos milhares de respostas, comentários, incentivos. Foram tantos elogios, tão sinceros tão sentidos, que fiquei com a bola toda. Poxa, estamos fazendo um negócio que mexe com as pessoas, hein? Mas apareceu também aquela pulga atrás da minha orelha: o que será que essa gente toda imagina que seja a nossa vida? O que, depois de ler um texto como esse, as pessoas realmente levam para casa? Foi difícil não me lembrar daquele post altamente compartilhado que circulou há algumas semanas, falando da insatisfação da geração Y, e como o Facebook colabora para deixar as pessoas ainda mais frustradas. Lembrei também das milhares de pesquisas, que vivem concluindo que as redes sociais nos deixam mais tristes, invejosos, e – socorro! – gordos. Ruminei mais um pouco – e resolvi investigar se todas essas conclusões podiam influenciar a minha vida também.

lucy

Quem se lembra da Lucy?

Intrépida, ignorei as pesquisas. Resolvi correr o risco da depressão iminente e passar umas horas só olhando para o meu Feice. Prometi a mim mesma clicar em tudo – e ler e ouvir e assistir – o que cada um dos meus amigos postou nas últimas 24 horas. (Excluindo os comentários sobre o Glück, claro, que obviamente me deixam feliz e que deixariam a minha pesquisa enviezada.) Escolhi a opção “posts mais recentes” lá no alto da timeline e comecei.

(Em tempo: tenho 633 amigos. Em tempo II: nunca bloqueei ninguém da timeline. Em tempo III: demorou 3,5 horas.)

Começando, já me deparo com as primeiras postagens intrigantes: opa, a piraíba ao molho de ervas vai custar R$ 59,90 no festival de frutos do mar do Ceagesp, olha só, um personagem d’Os Simpsons vai morrer; hum, um amigo curte ska guatelmateco; que bonito o patchwork da mãe do meu amigo; uma menina passou mal depois de comer no China in Box, e que horror, um dos meus amigos falou na timeline que sente vontade de atropelar motoboys.

(Pausa para respirar depois dessa última. Resolvo parabenizar os três aniversariantes do dia apenas para reparar que não falo há meses com um deles e que com o outro provavelmente nunca mais falarei.)

Logo percebi que nada de bom sairia dessa coleção de posts e, como ando gostando de elaborar estatísticas, decidi fazer uma contabilidade das coisas que li, de acordo com os temas mais frequentes. Contei 128 atualizações – as que o Facebook achou de bom tom entregar para a minha leitura, naquele algoritmo maluco que decide o que cada um de nós recebe de seus amigos. Eis aqui a divisão, quase sem nenhuma surpresa.

mulher-contabilidade

Mulher-estatística

18%: algum tipo de auto-promoção profissional (o livro que fulana está lançando, o novo post do blog de cicrano, o evento que beltrano está organizando)
16%: os famigerados comentários sobre a vida geral (“o trânsito está uma merda” -> 4 vezes, foto do bolo que alguém assou, opinião sobre o filme que acabou de assistir)
14%: notícias sérias
9%: momentos auto-ajuda (um trecho de livro, uma citação da Clarice Lispector, um clipe de música acompanhado com um coraçãozinho)
9%: memes e virais
7%: fotos de viagens
7%: arte
6%: noticiário desimportante
5%: serviços (“alguém conhece um nutricionista?” “alguém está vindo dos EUA?” “adotem este cãozinho”)
4%: conquistas pessoais
2%: putaria fotos eróticas
2%: animais fofos (orgulho dos meus amigos)
1%: ofertas de emprego (olhei esse com atenção)

Olhando para esses números, concluo: há muita inutilidade no Facebook. Considerando que os “comentários da vida geral” e os “momentos auto-ajuda” não interessam muito a ninguém – nem mesmo às respectivas mães – já percebemos que um quarto de tudo que é postado vai direto para o limbo. O mesmo vale para as fotos de animais, a ~arte erótica~, os memes e virais. Dá também para entender por que os pesquisadores chegam à conclusão de que o Feice nos deixa mais tristes e frustrados: olhe só quanta gente viajando e fazendo projetos incríveis por aí. Jura que esse cara tá de férias de novo? E nossa, ela já está lançando outro livro? E eu aqui, no Facebook.

ferias

Todo mundo no sol menos eu.

Ainda assim, quando terminei minha jornada, não me senti pior do que antes. Pelo contrário. O segredo está na parte “notícias sérias” da contabilidade, terceiro lugar nas atualizações. Talvez seja porque sou jornalista, mas meus amigos são grande fonte de informação – e das mais interessantes. Como esse vídeo do Rubem Alves dizendo que um bom professor é aquele que ensina o espanto aos alunos. Ou essa entrevista com uma evangélica que escreveu um livro sobre os abusos dos pastores. Ou – serei eternamente grata por isso – a notícia de que os números das linhas dos ônibus paulistanos tem, sim, uma lógica! Me peguei rindo e comentando em voz alta o que estava lendo.

Mas o que realmente me deixou feliz foi a categoria “conquistas pessoais”, uns míseros 4% lá no final. Sei que o Facebook pode causar inveja, mas francamente, como não ficar feliz com o nascimento do filho de um amigo? Ou com o emprego novo da minha amiga? Ou com o fato de outra ter conseguido comprar um apartamento? (Ok, admito: estou pouco me lixando para você que fez questão de contar que correu 15 km). Se, como dizem outros estudos já mais consagrados, a felicidade do seus amigos é contagiante e pode deixar você mais feliz, o Facebook é, sim, grande fonte de alegria. Eu fiz o teste.

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So happy together.

 

As ilustrações, com exceção da Lucy, são da artista Aleksandra Niepsuj.

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