Como deixei de ser corrupta

por Karin Hueck

Eu tinha vinte e poucos anos quando deixei de ser corrupta. Desisti da vida suja que levava, cansei de conviver com o medo de ser pega, e voltei à legalidade. Não queria mais entrar em meios escusos para ganhar dinheiro, pedir favores a fornecedores duvidosos, nem dizer que sou algo que não sou. Aos vinte e poucos anos de idade, parei de falsificar carteirinha de estudante.

Todo mundo ao meu redor carregava no bolso algum tipo de falsidade ideológica: a matrícula para uma pós-graduação em gestão de negócios, a carteirinha da faculdade da qual ele havia se formado há seis anos, a inscrição para uma graduação em ciências contábeis em uma instituição que talvez o MEC já tivesse descredenciado. Eu era apenas mais uma criminosa.

O problema, eu repetia com toda convicção, é o preço dos ingressos. E de fato é. No Brasil, um show internacional não sai por menos de algumas centenas de reais reais. Um cineminha de fim de semana custa R$ 25, R$ 33 se for em 3D, R$ 46 se for na sala VIP do Shopping Cidade Jardim, em São Paulo, com direito a uma taça de vinho Chateau-Thieuley-bla-bla-bla. O Lollapalooza 2014 vai custar R$ 540 para todos os dias por aqui, mas apenas (?) 396 no Chile – entre tantos outros exemplos que os aficionados em shows, eu entre eles, adoramos repetir. Realmente, é revoltante. Por que nós temos de pagar tanto? Mas será que a melhor solução é falsificar carteirinhas e entrar no esquema, em vez de lutar por preços justos?

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Infelizmente, eu não sou a única corrupta da minha lista de Facebook: quase todo mundo cometeu alguma pequena infração para “tornar sua vida mais fácil”. A lista das pequenas infrações que são grandes não para. Lúcio* circula pelo acostamento quando o trânsito da Imigrantes para. Os pais da minha amiga Marta* compraram sua carteira de motorista quando ela foi reprovada. Meu amigo Marcos* se livrou da polícia depois de um acidente embriagado pagando um generoso café pro delegado. Minha amiga Ana* acabou de cair na malha fina do Imposto de Renda – ela devia dois anos ao Leão.  Meu amigo Paulo Maluf** responde na justiça por lavagem de dinheiro e desvio de fundos públicos.

(*Nomes fictícios.
**Nome real)

É exagero comparar essas transgressões com a corrupção do políticos? Talvez (afinal, tá difícil ser pior do que o Maluf). Mas não muito. Outro dia foi divulgada a notícia de que sonegação de impostos no Brasil passa dos R$ 400 bilhões – um valor 20 vezes maior do que tudo que foi gasto com o Bolsa Família no mesmo ano. Para que a soma seja tão grande, é preciso também que muita gente grande esteja sonegando: donos de empresas, proprietários de hotéis, empreendimentos milionários. São cidadãos também, e não os políticos que tanto gostamos de xingar, cometendo grandes infrações. De acordo com os responsáveis pela pesquisa, o dinheiro que deixou de entrar foi parar em paraísos fiscais. Mesmo que você não seja fã do assistencialismo: é melhor usar esse dinheiro para projetos sociais ou mandar tudo pra Suíça?

O problema é que, se alguma dessas transgressões for perdoável, todas as transgressões são perdoáveis. A lei é para todos. Por isso, precisamos tomar uma decisão sobre a sociedade que queremos: ou assumimos que somos corruptos e que essa “característica” faz parte do que queremos para o país (particularmente, não gosto muito dessa opção) ou deixamos de praticar pequenos atos de corrupção no nosso dia-a-dia (hm, melhor). Acho que todo mundo vai preferir a segunda opção. Quando pedimos penas rigorosas e uma justiça mais atuante devemos lembrar que queremos isso para todos nós. Não só para “eles”, não só para “o outro.”

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E o que isso tem a ver com felicidade, vocês vão dizer? Tudo, de acordo com a ONU. Em seu relatório global de felicidade, o World Happiness Report 2013, ela destrincha os principais fatores que regulam a felicidade das nações. E, entre coisas como “liberdade para tomar suas próprias decisões” e “apoio social” está a “percepção de corrupção”. Ou seja, poder confiar nas instituições e nos indivíduos deixa as pessoas mais felizes. (O índice de corrupção do Brasil foi bem alto, embora nossa felicidade seja invejável: somos a 24a. nação mais alegre do mundo. Pausa para a dancinha da alegria o/ <o/ o>)

Mas isto não é um texto acusatório-mimimi-a-saída-para-o-Brasil-é-Guarulhos. Todo mundo comete infrações, grandes ou pequenas, vez ou outra. Outro dia, distraída no meio da madrugada, peguei o metrô aqui em Berlim sem pagar – sim, porque aqui o acesso aos vagões é sem catraca. O governo confia na sua honestidade e que você vai comprar seu tíquete, sem sentir a necessidade de cobrá-lo por isso. As máquinas de bilhetes ficam dentro da estação e você que trate de validá-los e cadastrá-los a cada viagem. Às vezes, algum fiscal aparece à paisana para conferir – mas é bem às vezes mesmo. Pois neste dia aconteceu: no único dia em que andei sem bilhete, fui pega dentro do metrô por um desses fiscais e multada. Cento e quarenta reais para me fazer lembrar que o crime não compensa. Ser honesto é uma prática constante.

Esse lapso é bem diferente da corrupção sistemática das carteirinhas falsas. O esquema é tão pronto que as próprias casas de show, cinemas e teatros admitem que colocam o preço lá em cima para compensar a quantidade de carteirinhas que pulula por aí. Eles calculam que 80% dos ingressos comprados são de estudante, e dizem que poderiam baixar o preço se não fosse assim (aí vai da sua boa-vontade acreditar). A tristeza é constatar que a lógica que eles alegam é a contrária à do governo alemão: as empresas confiam que o consumidor vai ser corrupto – e aproveitam para lucrar em cima disso. Por isso, para deixar de ser presumidamente corrupta, e não sê-lo mesmo, não tenho mais carteirinha de estudante. Se não tenho dinheiro para ir ao show, simplesmente não vou ao show. E não sofro com isso. (E as empresas de entretenimento, que antes ficavam com o dinheiro da metade do meu ingresso, agora ficam sem dinheiro algum. Touché.)

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As imagens deste post são do artista James Steinberg.

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