Como eu perdi (e depois reconquistei) a alegria de ver filmes

Postado em 29 de julho de 2014

por Otavio Cohen

Eu e meu pai demoramos a nos conhecer. Quando eu era pequeno, ele trabalhava em outra cidade e só vinha para casa uma vez a cada dois meses, trazendo caramelos e bonecos dos Cavaleiros do Zodíaco. Mas ele precisava ligar antes e perguntar se eu gostava mais do Hyoga ou do Shiryu (era muito difícil achar bonecos do Seiya naquela época). Eu tinha sete anos quando voltamos a morar na mesma casa, mas a distância entre nós ainda era maior que a parede que separava meu quarto do dele. Eu não sabia muito sobre o meu pai e não tinha muita coragem de perguntar. Mas eu podia descobrir sozinho.

Entre os poucos pertences que meu pai acumulou nos anos em que viveu longe de nós, o mais precioso era uma pasta preta de arquivos. Dentro dela, tinha um lista datilografada na máquina de escrever com centenas e centenas de nomes de filmes que ele já tinha assistido. Ao lado de cada um, asteriscos – um para os filmes péssimos, cinco para os ótimos. Eu trocava poucas palavras com o meu pai quando ele ia me buscar na escola ou na aula de piano, mas aquela lista de filmes me dava uma boa ideia de quem ele era. Meu pai se tornou o meu padrão, o meu IMDB. Se Chinatown merecia cinco estrelas, a qualidade do filme só podia ser incontestável.

Todo sábado, visitávamos uma das duas locadoras da cidade e ele alugava cinco filmes de uma vez. Eu me sentava ao seu lado na cama e observava como ele ficava com o controle do videocassete na mão. Eu não tinha idade para entender todos os filmes que ele assistia. De vez em quando, eu fazia perguntas infantis e ele me explicava com paciência o plano do herói e a vingança do vilão. Ao lado do meu pai, assisti a clássicos do cinema que eu nem sabia que eram clássicos. Entre as lições de videocassete, aprendi que Ellen Ripley é mais corajosa que qualquer homem, que não se brinca com Arnold Schwarzenegger, que não há inimigo mais ardiloso que Khan.

Um dia, meu pai apareceu com um projetor Super 8. Reuniu as crianças da rua, apontou a máquina para o muro do predinho onde morávamos e a mágica aconteceu. Não tínhamos muitos rolos de Super 8 em casa. Mas nenhum de nós se importou em assistir pela centésima vez aquele episódio de Pica-Pau ou o Peter Pan da Disney, que não tinha legendas em português e já começava na batalha final entre os Garotos Perdidos e o Capitão Gancho. Ninguém ligava quando a máquina dava pau e a voz da Penélope Charmosa ficava grave e lenta.

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Lá em casa tinha vários videocassetes em casa e uma prateleira com dezenas de fitas. A metade eram gravações caseiras, aniversários, recitais, passeios de família. A outra eram filmes que ele gravava porque achava que a gente ia querer ver de novo. Quase sempre ele acertava. Numa das fitas ele gravou Jumanji e Toy Story. Não me lembro de ter visto outros filmes tantas vezes quanto vi esses dois. Nunca pensei naquilo como pirataria.

Quando minha infância foi dando sinais de acabar, declarei independência junto ao videocassete. Meu rompimento com a pasta preta de filmes do meu pai foi natural, sem brigas, sem ressentimentos. Eu só queria ter minha própria lista. Na locadora, escolhia os filmes que queria ver numa prateleira bem longe da que meu pai normalmente visitava. Depois que esgotei o acervo de desenhos da loja, me dediquei às comédias adolescentes, assisti a todos filmes com cachorros falantes e contribuí para o sucesso dos filmes de serial killer dos anos 1990.

Cheguei à faculdade querendo ser cineasta. Estudei Deleuze e Aumont, assiti Ozu e Eisenstein, até aprendi um pouquinho de italiano com Fellini e Antonioni. Minha lista de referências se encheu de nomes que meu pai não teve chance de conhecer. Eu ia a festivais de cinema independente e, depois de três horas, saía das salas com cara de conteúdo. Aprendi a torcer o nariz para o espetáculo e não assistia a um blockbuster sem peso na consciência. Comecei a escrever críticas que apontavam mais defeitos que qualidades, certo de que era praquilo que servia a profissão que eu tinha escolhido. Disputava mentalmente com outros críticos para ver quem encontrava mais furos no roteiro e atuações canastronas.

O cinema que meu pai tinha me ensinado a amar agora era chato. A experiência tinha ficado sem graça, como quando um mágico revela seu segredo. E os espectadores com quem eu convivia estavam mais cínicos. Estão até hoje, aliás. Qual foi a última vez que você escondeu sua opinião sobre um filme só por que aquele seu amigo intelectual te reprenderia se ouvisse? Qual foi a última vez que você saiu do cinema emocionado e se frustrou ao ouvir os comentários negativos de gente que você nem conhece? Ficou difícil gostar de um filme sem restrições depois que o 9 virou o novo 10. Estamos sempre reservando a cotação máxima para o filme perfeito, que nunca mais que chega. Quem gosta de cinema se viu dentro de um plot twist perturbador: a expectativa virou inimiga mortal da experiência.

Eu e meu pai nem sempre gostamos dos mesmos filmes. Ele prefere histórias tradicionais de heróis que aprendem lições ao longo de sua jornada. Eu gosto de narrativas alineares e admiro diretores que experimentam novas linguagens. Mas não sou mais cinéfilo por causa disso. Já escrevi um ensaio sobre a filosofia no neorrealismo, mas nunca consegui fazer mágica com um Super 8 velho e nem consegui transformar minhas experiências numa lista quilométrica dentro de uma pasta preta. A lição de cinema mais importante que eu aprendi foi ao lado do meu pai. Felicidade é torcer pela tenente Ripley no espaço, onde ninguém te ouve gritar, cair com estilo junto com Buzz Lightyear e lutar contra o Capitão Gancho – mesmo sem entender nada que ele fala.

Otavio Cohen quer ser escritor, roteirista e treinador de cães. Enquanto isso, é jornalista mesmo e trabalha no site da Superinteressante.

Todas ilustrações são da talentosa Renata Miwa. Você pode conferir mais trabalhos dela aqui.


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