Como o futebol deixa as pessoas mais felizes

Postado em 16 de junho de 2014

Por Karin Hueck

O alemão não é um povo que demonstra felicidade com facilidade. Uma vez, logo quando cheguei aqui, encontrei a carteira de um rapaz num bar, logo depois que ele havia ido embora. Peguei-a e saí correndo atrás dele para devolvê-la. Toda esbaforida entreguei a carteira para ele, que me olhou sério, acenou bem leve com a cabeça e disse: “obrigado”. Saí da experiência com raiva – como assim não ganhei nenhum sorriso? O mesmo acontece em toda parte: os caixas no supermercado, os garços no café, os vizinhos que encontramos nas escadas de casa – se algum deles esboçar um sorriso, considere-se sortudo. Risos por aqui são coisas valiosas, como pequenos presentes que só devem ser distribuídos em ocasiões especiais. Para nós brasileiros, que somos verdadeiros papais noeis do sorriso (e todo dia é natal!), é difícil entender essa diferença. Adoramos mostrar bem os dentes para qualquer um que aparecer na rua. Alemães, não – deixam seus dentes bem guardados.

Assim, qual não foi a minha surpresa quando comecei a reparar uma pequena imensa mudança pelas ruas nos últimos dias. Primeiro foi uma menina que pedalava sua bicicleta à beira de um rio aqui perto de casa. Os cantos de sua boca estavam levemente erguidos e, assim, encarava todo mundo com quem cruzou. Demorei pra entender o que acontecia: ela estava rindo à toa! Depois, foi um grupo de amigos que fez o mesmo, gargalhando bem alto ao meu redor. Em seguida, um casal que sorria um para o outro sentado num banco. Algo estava diferente. Podia ser o clima, já que o verão resolveu chegar de vez e nada deixa os habitantes do hemisfério norte mais felizes do que alguns raios solares. Mas acho que tinha algo a mais por aí.

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A verdade é que a alegria generalizada não para de aumentar desde o dia 12, quando a Copa começou. Fomos ver a estreia num bar, junto com muitos brasileiros e alguns alemães. A cada grito de gol que dávamos, os alemães viravam as cabeças sorrindo, genuinamente felizes em nos ver. O comentarista na TV também parecia feliz. As pessoas que nos viram de amarelo no metrô abriram um sorriso também. A Copa estaria deixando os alemães felizes?

Tenho muitas objeções à Copa, à FIFA, à construcão de estádios e, honestamente, ao futebol como um todo (uma diversão que matou 30 pessoas no ano passado por causa do ódio entre torcidas não faz sentido nenhum). E parece que não vai haver legado útil para o país nessa Copa, assim como não houve nas outras. De acordo com especialistas, o único saldo positivo para quem sedia um Mundial aparece no nível de felicidade de sua população, que aumenta. Ter uma Copa em seu país eleva mais a felicidade de uma pessoa do que ter um curso superior – o equivalente a receber um grande aumento de salário. Ou seja, é para rir à toa mesmo. Dá para ver que os brasileiros andam bem felizes com a Copa já pelas redes sociais. As críticas se transformaram em bares cheios, bebês pintados de verde e amarelo e, se entendi direito, até mesmo aqueles que entoaram o famigerado coro contra a Dilma na abertura pareciam felizes da vida em estar no estádio. Afinal, Copa do Mundo é legal demais, certo?

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O que eu não esperava é essa felicidade alcançar o outro lado do Atlântico. E se refletir até no número de sorrisos que recebo de estranhos. Os alemães estão mais felizes com a Copa, os italianos por aqui também – pelo menos é o que indicaram os fogos de artifícios estourados durante o jogo. Talvez justamente por que o brasileiro sorria tanto e tenha a gargalhada tão fácil, a Copa no Brasil tenha conseguido o feito de elevar a Felicidade Interna Bruta do planeta inteiro. E isso não é pouca coisa. Vai Brasil.

As imagens incríveis deste post são do fotógrafo Caio Vilela, que viajou o mundo – e todos os estados brasileiros – para registrar o esporte mais popular do planeta.

 

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