Como ser feliz no trabalho

por Karin Hueck

Outro dia andei lendo sobre a vida de Franz Kafka, o autor da Metamorfose, a pessoa que me incutiu o medo de um dia acordar transformada em um inseto monstruoso. Já sabia que ele não havia publicado boa parte de suas grandes obras em vida e que nunca foi reconhecido como escritor. Chegou ao leito de morte com uma grande crise artística e pediu que seu amigo Max Brod queimasse todos os originais que ele havia deixado. (Felizmente para a história da literatura mundial, Brod não cumpriu a promessa.) Mas o que eu não sabia sobre Kafka era sua relação conturbada com o trabalho. Durante anos, ele teve um emprego terrivelmente burocrático em uma empresa de seguros. Passava os dias assinando papeis, passando requisições, carimbando autorizações e analisando os casos de seus assegurados. Odiava o que fazia. Vivia dizendo que o trabalho ocupava tempo demais e o afastava de sua verdadeira paixão, a escrita. Reclamava de ter que ficar dentro de um escritório das 8h às 18h, num mimimi com o qual eu muito me identifiquei. A grande ironia é que Kafka acabou usando as experiências que ganhou no emprego em sua literatura. O Processo e O Castelo falam de homens desesperados sugados pela burocracia – assim como ele. Ou seja, se Kafka não tivesse tido um emprego cretino, não teria também escrito suas obras mais importantes.

Logo, comecei a pensar em empregos cretinos. A verdade é que ando passando muito tempo da minha vida pensando em trabalho. Queria descobrir o que gostaria de fazer para o resto da minha vida. Pensei em como ganhar dinheiro fazendo o que realmente gosto. Em como ser feliz num emprego. Em encontrar um tio rico distante que pudesse me incluir na herança. E não cheguei a conclusão nenhuma. A única coisa que fiz foi começar a ler compulsivamente textos que discorressem sobre a felicidade no trabalho e que, bem, talvez tivessem alguma resposta. Eles sempre têm. Milhares delas. Muitas que nem funcionam. Mas algumas são reveladoras. Resolvi fazer um apanhadão do que aprendi de melhor nessas leituras todas, e que tem me ajudado a repensar a maneira como quero trabalhar daqui para frente.

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O primeiro livro que reli foi o do filósofo suíço Alain de Botton, Os Prazeres e Desprazeres do Trabalho. Uma das coisas que ele escreve é sobre a atual crise de sentido no trabalho, algo que adoramos falar aqui no Glück. Logo reparei o que isso queria dizer no mundo ao meu redor. Percebi que as carreiras modernas oferecem muito pouco propósito para nós. Antigamente, as pessoas tinham ocupações que eram diretamente ligadas com o produto final: um padeiro fazia pão, um cabeleireiro cortava cabelo, um soldado lutava. Você chegava em casa ao final de um longo dia de trabalho sabendo exatamente o que havia produzido nas últimas horas: trinta broas, cinco cortes Chanel, dois inimigos mortos. O problema surgiu quando os empregos começaram a não ter relação nenhuma com o produto final. O que faz um analista de produção pleno? E um gerente de suprimentos junior? E um CEO, um CFO, um VP, um FDP e tantas outras siglas? Mas a situação fica ainda pior quando pensamos no trabalho em si. As pessoas que ocupam esses cargos cifrados passam o dia na frente do computador ou em reuniões que decidem alguma estratégia de marketing longíqua da realidade, que pode virar alguma coisa ou não – nas mãos de outros. São especialistas em algum produto específico, como a venda de detergente para a classe C, ou fazem alguma tarefa hiperespecializada, como analisar dados num excel. Ou seja, quando chegam em casa no fim do dia, não conseguem enxergar o que fizeram: não assaram pães, não cortaram franjas, não conquistaram territórios inimigos. Não há relação entre o emprego e a sensação de utilidade. Não conseguem, assim, tirar muito sentido do que estão fazendo.

Assim, parece que a falta de sentido é generalizada. Para ser feliz no trabalho, precisamos botar propósito nas nossas ocupações. Felizmente para nós, o ser humano é especialmente bom em encontrar sentido em coisas que aparentemente não têm nenhum. Por isso há pessoas que praticam o cosplay, por isso há quem gaste milhares de dólares em uma bolsa de couro de jacaré, e por isso que outros largam empregos confortáveis e resolvem viajar por aí atrás de algo que nem mesmo elas sabem o que é. 01 membro nesta última.

(Aqui eu gostaria de abrir um parênteses. Eu tinha um emprego que fazia sentido: era editora de uma revista mensal de grande circulação. Cansei de receber cartas de leitores agradecendo pelas informações que botei nas páginas, como a mãe de uma criança transgênere que leu uma reportagem minha sobre o assunto e descobriu que o filho não era um caso isolado. Ou o senhor que me escreveu feliz da vida dizendo que havia se livrado de todas as moscas de casa, graças a minha preciosa matéria “Como matar insetos feito um ninja”. Viu só? Possibilitar uma casa sem moscas = um sentido na vida.)

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Pois foi em busca de ainda mais sentido no meu trabalho, que li este texto do Jonathan Harris sobre sua própria carreira. A beleza do texto é ver como a cada punhado de anos ele inventou o que queria fazer da vida. Uma hora era arte, outra era programação, na outra era escrever. E, para cada fase da vida, criou um projeto para chamar de seu e perder (ganhar?) horas em cima dele. A graça está na inversão da lógica: ele não fazia nenhuma dessas coisas com o objetivo final de ganhar dinheiro ou fama, fazia porque sentia um prazer imenso em fazê-las. Taí um bom sentido para fazer qualquer trabalho: gostar MUITO dele. E, como ele fazia seus projetos tão bem, acabou ganhando dinheiro e fama por consequência. É mais ou menos o que diz o escritor John Green, do A Culpa é das Estrelas: “Não faça as coisas porque você quer ganhar dinheiro – você nunca vai ganhar dinheiro o suficiente. E não faça coisas porque você quer ficar famoso – porque você nunca vai se sentir famoso o suficiente”. Ou, citando Confúcio (será?) e dezenas de imagens de auto-ajuda do Facebook por aí: “Escolha um emprego que você ama, e você não terá que trabalhar um único dia na sua vida”.

A dica preciosa, para mim, é quando ele diz que “se você quer se tornar um especialista ou reconhecido em alguma coisa, basta começar a fazer aquela coisa”. Isso é verdade. Lembrei da minha amiga Natalia Garcia, que gostava de andar de bicicleta no trânsito maluco de São Paulo. Um belo dia, ela resolveu fazer disso o seu trabalho, fundou o projeto Cidade para Pessoas, viajou o mundo pesquisando o assunto, e hoje é uma das grandes especialistas em mobilidade urbana no Brasil. Ou da minha cunhada Carolina, que gostava de fazer doces. Depois de abrir sua doceria Bons Bocados e passar os dias preparando brigadeiros e bolos, como num passe de mágica, ela se tornou confeiteira. (Dica pros colegas de casa: experimentem o bolo de limão siciliano.) O mesmo vale para o Glück. Eu nunca tive nenhuma relação especial com felicidade – além, é claro de senti-la de vez em quando ao ser promovida, ao encontrar uma nota de vinte reais no bolso ou ao tomar um Chicabon. Bastou eu decidir investigar a felicidade que, pronto, já comecei a ser associada ao assunto. Felicidade agora faz parte do meu mundo. Ou seja, se eu quiser ser palhaça, é bom começar a sujar os pés no picadeiro.

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Por isso, se tem algo que você goste muito de fazer, não perca um dia sequer. Comece a bordar, a fazer trabalho voluntário numa ONG, a programar, a (raios, por que não?) se fantasiar de Stormtrooper – o que seja. Tem outra frase boa sobre o assunto, cuja autoria não consegui encontrar agora, mas que diz algo como: “A maneira como você passa os seus dias é a maneira como você passa a sua vida”. Ou seja, cada dia importa, porque é um pedacinho da sua vida que você está gastando. É o que deixava Kafka desesperado quando percebia que passava tanto tempo em um emprego detestável. É o que devemos sempre ter em mente. Porque, afinal, é bom não ficar desperdiçando toda essa vida por aí.

As ilustrações deste post são do artista americano David Plunkert.

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