Como ter um corpo perfeito para o verão

Por Karin Hueck

Você sabe o que eu fiz no verão passado? Vou contar para você: fui passear na floresta ao lado de um lago, aqui perto de Berlim. Levei umas guloseimas para comer. Encontrei uma amiga que ia levar a cachorra para passear. E parti. Chegando lá, vi uma massa de pessoas deitadas tomando sol, como em qualquer praia brasileira. Mas, ao contrário de qualquer praia brasileira, reparei que havia pele demais exposta. Estava todo mundo nu. Quando cheguei ainda mais perto, reparei que a grande maioria das pessoas era velha, bem mais de 60 anos – claro, quem mais teria disponibilidade de tomar sol numa terça feira à tarde? Quando cheguei realmente perto, comecei a reparar nos corpos. Ao meu lado estava um senhor com bem mais de 70 anos espalhados pela grama, na posição do buda deitado – com a diferença de que a perna de cima estava erguida e dobrada, deixando as ˜partes íntimas˜ arejando. Ao lado dele, uma senhora igualmente idosa, vestida apenas com papetes, lia um livro tranquila, deitada de costas, os seios caídos cada um para um lado. Na minha frente, outro casal de velhinhos saía devagar da água, um se apoiando no outro para não cair, e ambos completamente depilados. Não foi cera quente o que agiu por lá – foi a passagem dos anos. Para completar o quadro, mais um casal, dessa vez mais jovem andava tranquilo à de mão dadas. Ele, um homem de meia idade. Ela, uma anã pelada. Eu, que nunca tinha visto uma anã nua, virei o pescoço pra ver: reparei que tinha umas pernas musculosas e muito bem torneadas. Estranhei todo aquele desfile de corpos in natura, mas não fiquei constrangida. Enchi os olhos para ver cada cada peito caído, cada pele enrugada que se desprendia da barriga, cada culote exuberante. Estava me preparando para meu futuro inevitável.

O engraçado é que eu já havia frequentado lugares nudistas. Quando era criança, aqui na Alemanha também, ia nadar nos lagos e lembro de todo mundo estar pelado ao meu redor. Mas não lembro de ter estranhado o corpo dos outros. Em algum momento entre minha infância e o verão passado, a minha percepção do que é um corpo bonito ou feio, ou de que tipo de corpo deve ser exposto ao sol, mudou. Alguém me ensinou que só pode tirar a roupa quem tiver “um corpo perfeito para o verão”. Aprendi onde deve haver muita carne, onde não deve haver nenhuma carne; onde deve ter muitos pelos (spoiler: só no alto da cabeça), onde não deve haver pelo nenhum (no resto do corpo). Aprendi até mesmo a identificar conceitos estranhos como estrias, celulites, rugas e flacidez, como se a pele – esse órgão imenso que nos embrulha de alto abaixo – não pudesse guardar nenhuma marca da passagem do tempo. O que será que deu errado?

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Um tanto tem a ver com a nossa cultura. Nós brasileiros temos uma relação paradoxal com nossos corpos: somos uma mistura estranha de sensualidade (o mundo inteiro sabe disso, como reforça a infeliz camiseta da Adidas) e recatez. Pode usar o menor biquini do mundo, mas nem sonhe em fazer top less. Pode usar mini saia, mini blusa e maxi salto alto, mas não pode reclamar depois se alguém passar uma cantada em você. As cantadas, acredito, explicam muito a relação que temos com nosso corpo. No ano passado, elaborei uma pesquisa sobre assédio nas ruas para a campanha “Chega de Fiu-Fiu” do site Think Olga. Nela, 99,6% das quase 8 mil mulheres disseram já ter sido assediadas em espaços públicos – a imensa maioria delas, com palavras que discorriam sobre atributos físicos. “Ô gostosa”, “Que bundão lindo”, “É magrela, mas eu pegava”, por exemplo. É como se mulheres vivessem num imenso concurso de Miss Mundo, com os físicos expostos para os jurados avaliarem – no caso, qualquer um que passar na rua. Quem passa a vida inteira ouvindo opiniões alheias sobre seu corpo, naturalmente também desenvolve uma relação conturbada com ele. Ficamos tremendamente auto-conscientes – somos magras demais? gordas demais? temos celulite demais? O sociólogo francês Pierre Bourdieu também reparou nisso, em um de seus textos. Ele diz que mulheres vivem em um “confinamento simbólico”, demarcado por nossas roupas e pela maneira como aprendemos a portar nossos corpos: “como no caso das jovens que puxam seguidamente para baixo uma saia demasiado curta, ou se esforçam por cobrir com o antebraço uma blusa excessivamente decotada, ou têm que fazer verdadeiras acrobacias para apanhar no chão um objeto mantendo as pernas fechadas. Essas maneiras de usar o corpo, profundamente associadas à atitude moral e à contenção que convêm às mulheres, continuam a lhes ser impostas”.

Por aqui, a relação com a nudez é diferente. É algo quase banal. Ao contrário de mim, ninguém ficou olhando para os outros peladões no lago. As saunas públicas são mistas e completamente nuas – e não há registros de que mulheres sejam assediadas sistematicamente lá dentro. Há até uma foto em que, supostamente, a chanceler alemã Angela Merkel aparece pelada curtindo a juventude numa praia. Fontes oficiais negam que seja ela, embora, se fosse eu, adotaria a imagem com orgulho. Também não há o assédio nas ruas. Até já ouvi brasileiras ou outras latinas reclamando da falta de interesse dos homens por aqui – a mesma pesquisa que fiz ano passado revela que 17% das mulheres gosta de ouvir cantadas. Mas tenho certeza de que isso é uma construção. É só porque estão acostumadas a serem abordadas por estranhos que elas também sentem sua ausência. Como aprenderam que mulheres são julgadas pela aparência – é só ver a galeria de atrizes em forma de qualquer site de notícia – querem mesmo que todo mundo as ache lindas. No fundo, a falta de assédio é a coisa mais libertadora que uma mulher pode sentir. É ela que permite que mulheres fiquem apenas de calcinha e sutiã tomando sol nos parques públicos sem serem incomodadas, como é comum por aqui. É ela que permite também que elas se vistam da maneira como quiserem para irem aonde quiserem sem sentir medo – algo que 81% das brasileiras não faz. Prefiro poder ir onde quiser de minissaia do que ter um estranho sussurando no meu ouvido que sou “gostosa”.

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Assim, começo a me perdoar por ter estranhado a avalanche de idosos desnudos que o lago alemão me proporcionou. Foi a mesma sensação que tive a primeira vez que vi a barriga de  Lena Dunham em Girls: “como ela tem coragem de ficar pelada assim?”, pensei. Esse pensamento durou um instante – logo entendi que era esse estranhamento que ela queria causar. (Toma essa.) Mesmo no lago, meu espanto passou rapidinho. Logo comecei a achar bonito aquelas pelancas todas esticadas na grama, aquelas dobras tão parecidas com as minhas, aquela falta de cobertura. Mesmo os homens, que costumam ser menos julgados pelas aparências, estavam lá completamente expostos, mostrando os atributos que as sungas geralmente escondem. Naquele lago, não dava para fingir uma masculinidade comprida – a água fria tratou de deixar todo mundo enxuto. E ninguém ligou. A magia foi o que aconteceu em seguida. Eu, que estava de saia curta, comecei a abrir as pernas como um homem. Deitei de qualquer jeito sem me preocupar se minha calcinha estava aparente. E mais do que isso: fiquei com vergonha por estar tão… vestida. O que eu estava escondendo? Felizmente, já não sei mais. Descobri que meu corpo, assim como o das senhorinhas depiladas pelos anos, o da anã de peitos caídos, e o do idoso em posição de buda, todos eles, eram perfeitos. Perfeitos corpos para o verão.

As fotos que ilustram este post são do artista americano Spencer Tunick. A primeira é do Fabrice Coffrini, registrando a instalação

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