Conheça Rui – o motorista de ônibus que distribui sorrisos, histórias e bom-humor na linha 857R

por Gustavo Ribeiro

Terminal Campo Limpo. 13h12. Sol ardendo forte. Cansando, suado e com fome, eu chegava à zona sul da capital paulista a procura de um motorista: Rui Alves (uma verdadeira celebridade na região). No caminho, eu ia observando aquele trecho da cidade e rascunhando a pauta para entrevista-lo. No fundo eu já sabia que estava a caminho de um bate-papo, apenas isso. Nos encontramos pela primeira vez na segunda-feira; ele como motorista, e eu como passageiro. Na ocasião, eu voltava de uma sessão de cinema na Avenida Faria Lima. Como estava escutando música no rádio, resolvi pegar o ônibus porque se eu fosse de metrô, o que faço normalmente, não conseguiria escutar mais. Eram 18h. A cidade fervia. Fervia, também, o ponto de ônibus localizado no cruzamento da Faria Lima com a Rebouças. Sem pensar muito, embarquei no primeiro coletivo que apareceu rumo à Avenida Paulista. Lotado, quente, apertado. Foi aí que conheci o Rui. A princípio achei que o som que ecoava era de alguém brigando. Só então, quando escutei um “Cobrador, tá tudo certo aí?”, que entendi o que acontecia ali: o motorista falava. E como falava! Rindo, brincando e dando boa noite para cada passageiro que entrava, o Rui acalmava o ânimo de cada ser estressado que embarcava na linha 857R. Na hora, eu pensei: isso rende uma matéria. Fazendo um verdadeiro malabarismo, consegui chegar ao cobrador que fez questão de anunciar em alto e bom som: “Rui, tem um cara que quer falar contigo aqui”. Meu Deus, que vergonha.

Ilustração: Vanessa Kinoshita

“Fala, rapaz”, mandou o Rui. Expliquei que era estudante de jornalismo e que queria fazer uma entrevista com ele. O ônibus aplaudiu. “Pode parecer brincadeira, mas eu não tenho celular. Você tem que ligar na empresa”. Peguei os contatos, dei sinal e desci no ponto. Alguns telefonemas depois, cheguei ao Rui.

Entrevista marcada. Terminal Campo Limpo. Entre o som de motores de ônibus, de uma loja que tocava forró e das pessoas que passavam ali, eu ligava o gravador para conversar com o motorista que me fez atravessar a cidade apenas para ouvi-lo. Que alma. Que história. É como se o Terminal tivesse ficado pequeno perto dele e daquilo que ele trazia dentro de si. “Como ele pode amar tanto o que faz?” , eu pensava. A pauta que eu rascunhei? Nem precisei. O Rui era a pauta, as repostas, o lide e o encerramento perfeito. Até que, no meio de nossa conversa, eu perguntei:

_ E o humor das pessoas? Você sente que muda de região para região?

_ Não, não. Eu poderia até concordar com você nessa situação. Mas como o ônibus é coletivo, se eu falar assim eu estarei fazendo acepção de pessoa, tá entendo? Porque no ônibus entra todo tipo de pessoa. Gente que tá alegre porque passou na faculdade, gente que tá triste porque perdeu o ente querido, gente que tá triste porque está separando de um relacionamento, gente que ganhou na Mega Sena (eu queria ser esse, pensei), gente que conseguiu um serviço melhor, né? Então se eu pegar e falar assim: “O pessoal da Paulista trata melhor o motorista do que o pessoal do Campo Limpo”, fica chato. Eu não sou pago pra isso. São todos seres humanos e cada um em uma situação. Só me resta entender e sorrir pra todo mundo.

Reconheço¹: levei um tapa na cara. Formulei a pergunta e nem imaginei isso.
Reconheço²: só alguém tão nobre poderia ter interpretado dessa maneira .
Reconheço³: Não, não foi uma entrevista. Foi uma aula. Ele o professor e eu o aluno.

Desliguei o gravador. Tinha a história. Melhor: tinha um sorriso no rosto.

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