Crônica otimista para um Brasil feliz

Postado em 24 de junho de 2014

por Fred Di Giacomo

“O barbeiro sérvio está mal-humorado. Sussurrando, ele xinga o cliente alemão que não quis mudar de cadeira para ter seu cabelo aparado. Eu sou o próximo da fila. Como fui incompetente o suficiente para não aprender um alemão decente neste quase ano de estadia em Berlim, explico como quero o corte em inglês. Ele assente secamente e começa a trabalhar como faziam os barbeiros da minha Penápolis natal: não importa o que você pede, o barbeiro tem sempre a razão e vai cortar do jeito que bem entender. Surpreendentemente, o barbeiro sérvio me pergunta de onde sou. “Brasil”, respondo tímido. “BRASIL?!”, o barbeiro sérvio está agora sorrindo e faz sinal de jóinha. “Wow, great. Brasil is very good”. Pronto, agora o barbeiro sérvio pergunta exatamente como quero meu cabelo e conta sobre sua vida sorridente e simpático.

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Essa recepção calorosa aconteceu comigo em diversos países que visitei. Da Tailândia à Holanda, são muitos os estranhos que abrem um sorriso na hora, quando revelo que nasci no país do trio “caipirinha-samba-futebol”. Confesso, não sou do tipo nacionalista que grita que é “brasileiro com muito orgulho e com muito amor” e que acha que nossa terra só tem “palmeiras onde canta o sabiá”. Muita bobagem já foi feita em nome do patriotismo, especialmente quando se acha que o povo que nasceu num determinado pedaço de terra é melhor que os demais. E sei, claro, que nosso país tem muita coisa errada que precisa ser corrigida e consertada. Mas tampouco procuro aderir à síndrome de vira-lata que nos faz pensar que somos um caso sem solução e vivemos à beira do Apocalipse. Morar um ano fora do país me fez enxergar o lugar onde nasci com outros olhos.

Olhos mais distantes e generosos.

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Os brasileiros se acham um povo malandro, corrupto e ineficiente. Mas são vistos mundo afora como generosos, simpáticos e alegres. E, me desculpem os ranzinzas, mas o bom humor é fundamental. Se você viajar para qualquer lugar que não seja o sudeste asiático ou a América Latina, vai perceber como sorrisos mundo afora são bens preciosos, enquanto no Brasil abundam mais que café ou cana-de-açúcar. E alguns de vocês podem se envergonhar do funk carioca, mas os gringos amam o funk e outros ritmos nacionais. E não estou falando só o baixista do Red Hot Chili Peppers que gravou um vídeo tocando Mc Guimê. Certa feita, estávamos comendo um dönner kebab (o churrasquinho grego local) e um alemão levemente embriagado se empolgou ao ouvir nosso português. Se tratava de um rapaz que morara um ano no Rio de Janeiro, subira o morro e voltara de lá apaixonado pelo funk. Daí em diante tornara-se “DJ Fabinho”. Somos dos poucos países onde o top 10 das rádios não é dominado por cantores pops americanos e você sempre encontra um fã de bossa nova, tropicália, Sepultura ou Seu Jorge espalhado pelo globo. (Sem falar no “Ai se eu te pego” que já ouvi até em barzinho “rock n’ roll” no litoral da Tailândia.) Aliás, outro dia, num café em Berlim, começou a tocar Raul. Sim, Raul! Sem ter um conterrâneo pra fazer a infame piadinha do “Toca Raul”, ri sozinho. E seguem elogios ao nosso futebol, praias, caipirinha, feijoada e “Cidade de Deus”. Aliás, todo mundo que tem um mínimo interesse por cinema parece ter visto o filme de Fernando Meirelles, mesmo que a gente jure que os filmes argentinos sejam muito melhores que os nossos.

vikmuniz
Além desse amor pelos clichês tupiniquins carmenmirandísticos (e pela simpatia/alegria dos brasileiros que distribuem sorrisos), sinto que existe uma grande torcida mundo afora para que o o “Brasil dê certo”. De um lado, em países pobres – mesmo que distantes como Vietnã ou Camboja – parece que a história de um país mestiço que foi colônia e se modernizou é uma fiozinho de esperança para que isso possa acontecer em outros lugares também. Como o Brasil não teve grandes guerras contra outros países (salvo Paraguai), ninguém parece ter grandes ressalvas como tem contra outras nações de PIB semelhante. E nos países desenvolvidos, as pessoas também parecem gostar dessa história meio “Cinderela” que os jornais estrangeiros contaram (com algum exagero, é certo) sobre o Brasil nos últimos anos.

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A primeira vez que viajei para fora do país foi a convite de uma tia generosa que morava há anos nos EUA e me proporcionou 45 dias de estudos de inglês. No primeiro dia de aula, entrei na sala do coordenador do curso para pedir informações. Dei um “Hello” e ele respondeu em português: “Brasileiro?”. E eu: “Como você sabe?” “Pelo sorriso”

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Vim morar em Berlim por 6 meses e acabei ficando um ano. Não tenho o que reclamar desta cidade jovem e inovadora. A principal vantagem de morar aqui, sem dúvida, é a segurança. Mas não teve uma semaninha sequer que não senti falta do que faz do Brasil esse pedaço de terra tão legal. Estou muito feliz de voltar para casa agora no final de julho. Sinto falta do calor do clima e do calor das pessoas. E os problemas que temos hoje me estimulam a querer trabalhar para construir um país melhor. (Espero que o que aprendi vivendo num país considerado modelo em muita coisa possa ajudar um pouco). As qualidades dos brasileiros não apagam, de forma nenhuma, seus defeitos. Mas a vida não é preto no branco. Os tons de cinza que tingem o espaço entre os dois extremos, aliás, é que dão graça pra ela.

Todas imagens fazem parte do lindo projeto “Lixo Extraordinário” desenvolvido por Vik Muniz

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