Dinheiro compra felicidade?

Postado em 21 de julho de 2014

por Fred Di Giacomo

“Faça um bom concurso público. Se não fosse meu concurso, eu não tinha ajudado toda nossa família”. O mantra para felicidade do meu avô paterno era repetido entre almoços, cafés e festas de família. Ele – que migrara da Bahia para São Paulo de carona num avião do exército – sempre reforçava a importância do dinheiro e da segurança. Era preciso ganhar dinheiro para garantir a vida – e a vida só era dura para quem era mole.

Meus pais já rezavam outra cartilha, a do ideal e do sonho. De trabalhar com o que se ama, mesmo que esse fosse um amor ingrato e que não trouxesse dinheiro. Mas qual dos dois estaria certo? Vale mais sonhar de barriga vazia ou ganhar o dinheiro que poderá comprar nossos sonhos? Para investigar a relação entre dinheiro e felicidade, mergulhei em pesquisas, palestras e livros de filosofia. Ao que tudo indica, grana parece “comprar” um pouco de felicidade, sim, mas só num primeiro nível. Explico:

Dinheiro não é tudo, mas é 100%?
Contrariando a sabedoria popular, dinheiro pode não comprar felicidade, mas ajuda. É o que diz uma pesquisa da Universidade de Princeton que constata que quem ganha 75 mil dólares por ano, nos Estados Unidos, é mais feliz do que quem ganha 5 mil dólares por ano. Só que essa proporção não segue infinita. Se você ganha 5 milhões de dólares/ano não será mais feliz do que quem ganha os $ 75 mil. Por quê? Porque o dinheiro traz felicidade enquanto garante saúde, educação, moradia e aposentadoria decentes. Claro, o custo de vida nos EUA é diferente do Brasil, mas o resumo da história é que dinheiro parece fazer diferença até você atingir uma vida confortável e segura. Fora isso, tanto faz quanto você ganha. Por essa razão, é injustiça dizer para um miserável que dinheiro não importa, mas é tolice passar sua existência sendo escravo de uma rotina árdua para ficar cada vez mais rico. O caminho do meio (como já ensinaram Aristóteles, Buda e um punhado de outros antes) parece ser sempre o mais satisfatório.

Aline Jorge - Colaboração (2)

É possível comprar felicidade?
Segundo o cientista social Michael Norton é possível comprar felicidade, quando você usa seu dinheiro para ajudar os outros. A quantidade de dinheiro gasto não fez muita diferença, mas quando você compra algo para alguém ou quando ajuda o próximo, você fica mais feliz. Ainda segundo as pesquisas de Norton, a vida de quem ganha na loteria costuma piorar. Bizarro, né? Dê uma assistida na palestra do Michael Norton para mais detalhes:

Se dinheiro só ajuda até certo ponto, como posso ser mais feliz?
psicólogo húngaro Mihaly Csikszentmihalyi também trabalha com dados que mostram que o dinheiro proporciona felicidade quando garante uma vida digna, mas que – a partir de um determinado ponto – não faz diferença para uma existência mais feliz. Os números analisados por Mihaly mostram a quantidade de americanos que se dizem “muito felizes” ao longo dos anos. Essa quantidade segue estática em 30% ao longo dos tempos – mesmo com o crescimento da renda média. Segundo o psicólogo, o que dá sentido à vida e deixa as pessoas mais felizes são atividades que levam a um estado de flow (fluxo).

“Estado de flow?!”, você pergunta. Calma, a gente explica.

Enquanto as grandes civilizações sempre construíram espaços (igrejas, templos, arenas, circos, estádios, etc.) onde seus cidadãos pudessem vivenciar momentos especiais de êxtase que os tirassem da mesmice vida cotidiana, algumas pessoas conseguem encontrar essa satisfação – esse ápice de prazer – em atividades relativamente simples como praticar esportes, compôr uma música, meditar ou escrever um poema. São pessoas que não precisam ir a uma arena especial em busca do êxtase. Elas têm sua própria arena mental. E, quando se embrenham nessas atividades, ficam tão concentradas que todo resto deixa de existir. Para Milhaly, essas atividades podem ser de naturezas diferentes e apenas o indivíduo poderá descobrir qual é o seu caminho, através do autoconhecimento. (Muitos CEOs dizem atingir o flow no trabalho – o que nos faz pensar que dinheiro pode não produzir felicidade, mas tem gente que é mais feliz produzindo dinheiro, he, he, he.) Segundo Milhaly, nosso cérebro só consegue lidar com um limitado número de “bits” de informação por segundo. Quando você está no estado de flow, seu cérebro está concentrado apenas naquela atividade e todo o resto se apaga. Esse estado costuma ser atingido quando você é desafiado para algo que realmente gosta de fazer e no qual é bom. O desafio não pode ser fácil a ponto de te endediar ou impossível a ponto de te irritar. Talvez isso explique porque gostamos tanto da metáfora que diz que “a vida é um jogo”. Como em uma videogame bem calibrado, nos divertimos vivendo com a dose certa de desafio e recompensa. E cada fase que “vencemos” nos leva atrás de desafios mais árduos.

Ilustrações: Aline Jorge

Ilustrações: Aline Jorge

Quem está no flow costuma sentir-se completamente envolvido no que está fazendo, com uma claridade interna e uma sensação de êxtase. Em seu livro “A descoberta do fluxo”, Milhaly ainda diz que, se formos meramente passivos, nossas chances de alcançar a felicidade são baixas. A felicidade não seria o estado padrão do ser humano, mas algo a ser buscado. Para ele, a satisfação humana está no processo de trazer ordem e controle para nossas vidas. Quem toca um instrumento, pratica um esporte ou até (por que não?) faz tricô, entende do que ele está falando, né?

Meu avô estava certo; é difícil pensar em felicidade de barriga vazia. Meus pais estavam certos, fazer o que se gosta (seja uma atividade física, seja um trabalho ou um hobby) é uma das ferramentas mais potentes para se produzir êxtase. Ou, como me ensinou em uma entrevista o cantor Wander Wildner, “a vida é muito simples, é só achar algo legal para fazer”.

Todas ilustrações são da talentosa Aline Jorge. Se interessou pelo trabalho dela? Confira o site do seu estúdio e também seu tumblr.

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