Dizem que são loucas

por Karin Hueck

Apenas mulheres são loucas. Homens são diversas outras coisas – “impulsivos”, “bravos”, “confusos” – mas nunca loucos. “Louca” é aquele tipo de adjetivo que parece funcionar apenas no feminino, e todo mundo sabe citar na ponta da língua a vez em que essa ou aquela mulher fez papel de maluca. A mulher que chorou demais. A que brigou com o marido no restaurante. A que tirou satisfação com o funcionário no trabalho. A que – o horror, o horror – bebeu e falou besteira.

Há todo um imaginário popular de que, se você não tomar cuidado, vai acabar se envolvendo com uma mulher maluca. Quem não tem uma ex louca, afinal? Filmes como Atração Fatal e Garota Exemplar são exemplos da ameaça que um pobre homem sofre ao se envolver com uma mulher sedutora – e ninguém olha para as motivações que as protagonistas têm para serem as maluquinhas que são. Barney, o pegador perdedor da série How I Met Your Mother, tinha uma teoria de que só valia a pena sair com uma gatinha, se a quantidade de sua beleza fosse inversamente proporcional ao seu nível de loucura. Como se doideira fosse implícita a qualquer uma.

Gaslight é uma forma de assédio contra mulheres

A loucura das mulheres geralmente está relacionada a alguma manifestação de emoção excessiva. Sentimentos, afinal, são coisas feias e que pessoas equilibradas não saem distribuindo por aí que nem panfletos na rua. Por isso, historicamente, elas sempre foram as mais indicadas para tomar remédios que aplacassem o “nervosismo”. Morfina, barbitúricos, anfetaminas, antidepressivos: o principal público alvo para cada um desses remédios, à medida que iam sendo desenvolvidos, eram as mulheres de alta classe. Até hoje, aliás, mulheres têm duas vezes mais chance de serem diagnosticadas com depressão do que homens – mesmo que ambos apresentem sintomas idênticos. Vamos sedá-las que vai ser melhor.

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Mas não consigo parar de pensar que chamar uma mulher de louca tem o intuito de invalidá-la – e, ao mesmo tempo, invalidar tudo que ela faz. A sua namorada ficou brava porque você desmarcou o jantar para beber com os amigos? Chame-a de louca. Não concordou que a chefe mandou você refazer a apresentação de sexta-feira? Chame-a de louca. A gatinha não quis sair com você? Só pode ser maluca! Chamar uma mulher de doida é uma maneira muito eficiente de desqualificar qualquer coisa com a qual você não concorde, ao mesmo tempo em que transforma você em vítima de um comportamento imprevisível. É super prático. Mesmo que você tenha feito algo errado, basta chamar atenção para a reação da mulher para tirar o seu da reta. Afinal, nada é pior do que uma mulher descontrolada, né gente?
Dizer para as mulheres que elas são loucas é uma forma de assedio

Repetir esse tipo de xingamento é também uma boa tática para domesticar as amiguinhas: deixá-las bem quietas no canto, controlando seu comportamento. É um remédio infalível. Se, depois de serem chamadas de malucas, elas se sentirem tristes ou frustradas ou bravas, não poderão nem reclamar, sob o perigo de confirmar a tal fama de louca. “Viu só? Eu não falei? Você está ma-lu-ca”. Esse tipo de abuso é o (nem tão) famoso gaslighting. A expressão, que ainda não tem tradução, foi tirada do filme Gaslight, com a Ingrid Bergman, no qual o protagonista fica repetindo que sua mulher está ficando doida (apesar de ser ele mesmo o responsável pelas coisas estranhas que acontecem a ela). A moça começa a duvidar de tudo o que vê e quase enlouquece de verdade. Assim como enlouquecem mulheres que tentam provar a todo custo que não estão malucas.

A boa nova é que, assim como a Ingrid Bergman, a maioria das mulheres não está louca. Você já deve ter reparado que, quando alguém tem uma reação intensa a alguma coisa, quase sempre ela tinha motivo para tal. Afinal, todo mundo – homens e mulheres, delirantes e comedidos, pessoas com razão e sem –, tem o direito de sentir raiva, dor e desgosto. E de expressar tudo isso também.

Todas ilustrações do post são de Ken Orvidas. Conheça o trabalho dele aqui.

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