Do que eu falo quando falo sobre "largar tudo”

Postado em 5 de maio de 2014

por Fred Di Giacomo

Você também sente que tem algo errado com a forma que nos ensinaram a viver nossas vidas? O que tem levado pessoas de classe média e alta – que atingiram seus sonhos de consumo e status – a se sentirem profundamente infelizes? Por que o dinheiro e o conforto não lhes basta? Uma pesquisa da Universidade de Princenton diz que dinheiro traz, sim, felicidade. Traz felicidade quando ele permite que as pessoas tenham uma vida decente com saúde, educação, comida no prato e uma aposentadoria tranquila. Bom, isso é óbvio. Pergunte pra quem passa fome se ele trocaria a oportunidade de um ótimo salário e uma carreira estável para ficar sem nada. No entanto, a mesma pesquisa de Princeton diz que a partir de um ponto, o dinheiro não importa mais. Basicamente (estamos falando de valores americanos e dos custos dos States) até 75 mil dólares por ano fazem a diferença no seu orçamento. Ganhar mais do que isso não parece fazer as pessoas mais felizes. Por incrível que pareça, quem ganha 500 mil ou 5 milhões de dólares ao ano não é mais feliz do que a pessoa que faz $ 75 mil. O que isso significa? Significa que existe um limite pra quanta felicidade seu dinheiro pode “comprar”.

E qual é o custo desse dinheiro extra que alguns têm acumulado sem receber felicidade extra em contrapartida? Gente infeliz no outro extremo. Num mundo já bastante desigual, o Brasil é 13o. país com a pior distribuição de riqueza do planeta. Se os poucos que têm muito estão angustiados, os muitos que têm pouco têm problemas de sobra para reclamar: violência que mata especialmente os mais pobres, moradia em condições precárias, péssima qualidade de saúde e de educação. E esse tipo de desigualdade só aumenta o ódio e a insegurança do país. Insegurança que faz muitos dos que têm dinheiro quererem largar tudo para morar no exterior, porque “o Brasil já não dá mais”.

Mas e quem não tem dinheiro para fugir?

Foto de Suzanne Heintz

Foto de Suzanne Heintz

Nenhum post do Glück fez tanto sucesso quanto nosso primeiro texto “Vale a pena largar tudo para ser feliz”? Foram quase 200 mil visitas no primeiro mês, muitos elogios e algumas poucas críticas. No entanto, críticas e elogios convergiam num ponto em comum: julgavam que nosso primeiro texto estava pregando que, para as pessoas serem felizes, elas deveriam viajar. Pior, que elas deveriam “se mandar do país”. Que pregávamos que a felicidade só seria possível levando uma vida extraordinária. Não entendiam que o post era uma convocação para as pessoas buscarem o autoconhecimento e uma vida mais prenhe de sentido. O próprio título vinha em forma de pergunta. Uma pergunta que nós, que acabávamos de pedir demissão, nos fazíamos sinceramente e que iniciaria esta investigação que vocês acompanham aqui no Glück

“Dar a volta ao mundo.” “Trabalhar com o que se ama.” “Largar tudo.” Essas expressões ficaram muito populares desde que começamos nossa pesquisa sobre a felicidade. Mas elas não são regras, nem fórmulas mágicas. Cada pessoa tem que encontrar seu próprio caminho para uma vida mais plena. E, provavelmente, este caminho tem mais chance de estar dentro de você do que numa ilha paradisíaca.  É o que parece ter descoberto Fernanda Neute – que pesquisa a felicidade no bacana Fêliz com a vida: ”Confesso que viajar sem parar estava me deixando um pouco cansada. É engraçado porque todo mundo pensa que é a vida ideal, mas quando isso é a vida e não férias algumas coisas enchem o saco”, diz a blogueira. Fernanda já “foi e voltou”. De uma juventude de ralação; estudou em escola pública, fez faculdade, trabalhou bastante e se estabilizou. Então, largou o emprego numa grande agência e foi rodar o mundo com o namorado trabalhando à distância e viajando. A viagem foi importante para repensar e equilibrar a vida, mas não era a solução final.

A felicidade não está lá fora.
Uma vida feliz é direito de todos. De quem pode dar uma volta ao mundo e de quem não tem dinheiro para comprar o bilhete de ônibus. Felicidade não é um luxo, não é frescura. Falar sobre felicidade não é elitista. Pelo menos é o que nos dizem centenas de comentários que recebemos de leitores do Glück que não fazem parte da elite.  Nós aqui não queremos ajudar a criar um “novo sonho de consumo”, estimulado por fotos de mochilões ao redor do mundo compartilhadas nas redes sociais. Nós só acreditamos que tem algo muito errado com o modo em que vivemos, o modo com que lidamos com o meio ambiente, com os animais e com os outros seres humanos. Que tem algo de errado num mundo em que o que você tem importa mais do que quem você é. Um mundo onde as pessoas são desesperadamente preocupados em não envelhecer, em que a aparência vale mais que conteúdo, em que o ódio, o egoísmo e o preconceito ainda sapateiam na cara das inimigas. Onde nos ensinam a ter medo para que aceitemos os remédios amargos e milagrosos que irão combater a violência, a guerra e o terrorismo.

Foto de Suzanne Heintz

Foto de Suzanne Heintz

“Largar tudo” não é fugir. Não é criar uma nova moda. Não é criar um estilo de vida tão elitista quanto a área VIP das baladas do “Rei do Camarote”. É acordar um belo dia, como o Neo do Matrix, e perceber que tem alguma coisa errada com o jeito que te ensinaram que sua vida “deveria” ser vivida. Que tinha algo errado quando te ensinaram que a felicidade pode ser comprada. Quando te ensinaram que você deve pisar em todas cabeças que aparecerem no meio do caminho para trilhar seu caminho rumo ao pódio onde seu troféu será a felicidade. No topo do pódio só cabe uma pessoa. E ninguém é feliz sozinho.

Não transforme o “largar tudo” no novo “compre uma casa grande, um carro de luxo e muito Rivotril”. Não aceite nunca que te empurrem uma fórmula para a felicidade. Procure se compreender e compreender o que te faz infeliz. (Sim, sim, “Conhece-te a ti mesmo”, Sócrates.) Leia, pesquise, reflita e encontre seu caminho. Um caminho de equilíbrio onde momentos de felicidade serão abundantes, mas também haverá espaço para dor, angústia e tristezas.

O mundo é duro, mas “o que a vida quer da gente é coragem.”, já ensinava Guimarães Rosa.  😀

Todas fotos deste post são da artista Suzanne Heintz e fazem parte do interessante projeto “Life Once Removed”

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