Faça você mesmo!

Meia dúzia de folhas de sulfite grampeadas e com um desenho feito com uma caneta Bic mudaram minha vida. Era um trabalho sobre a cultura punk na mesa da minha mãe – professora de sociologia. Molecote cheirando à leite, eu via aquele desenho de um cara moicano, vestindo calça rasgada e calçando coturno e achava aquela a coisa mais legal (e brutal) do mundo. Tão legal quanto as gangues do filme “Warriors – Selvagens da Noite” que quebravam o pau numa Nova York futurista. Eu tinha lá meus 7, 8 anos de idade e pedi pra cortar o cabelo espetado. No dia seguinte, todos meus coleguinhas passaram a me chamar de “gótico”, inspirados pelo bisonho personagem de Eri Johnson na novela “De corpo e alma”.

Eri Johnson - o "gótico brasileiro"

Eri Johnson – o “gótico brasileiro”

Não era bem a referência que eu buscava.

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Quando tinha uns 12 anos, meu pai trouxe uns fanzines pra casa. Aquilo era fantástico: dava pra fazer sua própria revista em casa com cola, papel e xerox. Era baratinho, tosco, mas era um jeito de gritar e todo mundo ouvir. Foi assim que criei o Afrociberdeli@, meu primeiro zine, com meu irmão e um amigo, em 1997. A gente pedia patrocínio pro comércio local, imprimia umas 120 cópias e distribuía no colégio. Eu tinha 13 anos e pela primeira vez senti que as pessoas olhavam pra mim. Para um magrelo nerd, esquisito e tímido foi uma sensação poderosa. As pessoas OLHAVAM PRA MIM e, de quebra, ainda liam o que eu escrevia. Uau! Imagina se elas ainda parassem para escutar o que eu grunhisse igual aquelas bandas que eu estava descobrindo: Ratos de Porão, Devotos do Ódio, Nirvana… O punk rock falava das coisas que eu vivia. Eu era claro demais pra ser um rapper e pobre demais pra ser playboy. O punk rock era aquele meio termo “classe média-baixa records” sujo e agressivo. Nessa época eu ainda ouvia Chico Science, Sepultura e Planet Hemp, mas quando escutei a linha de baixo de “O Dotadão deve morrer” do disco “Feijoada Acidente?” – que reunia os maiores clássicos do punk brasileiro regravados por João Gordo e Cia – a casa caiu. Rasguei minha calça jeans, furei a outra orelha, comecei a só usar preto e fui tocar baixo. Virei punk num calor de 40 graus de uma cidade caipira do interior de São Paulo, esquina com o Mato Grosso do Sul e famosa por ter exportado para o mundo as curvas da Sabrina Sato.

Afrociberdeli@, meu primeiro fanzine, de 1997

Afrociberdeli@, meu primeiro fanzine, 1997

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A principal lição que o punk rock me ensinou foi o do it yourself. Era possível “fazer”, se você corresse atrás. Dava pra montar uma banda tocando três acordes, dava pra fazer uma revista xerocando seus rabiscos e dava para organizar festivais de rock no sertão paulista. O mercado hoje pode chamar isso de empreendedorismo, mas o punk chamava de “faça você mesmo”. Sua cidade não tem bandas legais? Monte uma! Sua cidade não tem uma política boa? Faça! Seu cinema não passa bons filmes? Filme-os! Faça, faça, faça. O principal arrependimento de quem está no leito de morte são as coisas que a pessoa deixou de fazer. Não deixe para amanhã. Faça hoje.

Nos primórdios da internet, passava-se uma madrugada inteira tentando baixar uma mísera musquinha do Dead Fish e quem tinha um disco raro tinha que gravar fitas K7 pra toda turma. O tédio da cidade era o combustível pra nossa criatividade. Gravamos discos caseiros, “excursionamos” pelas cidades da região e até piratearam nossas gravações para vender num colégio de São Paulo. Trocávamos cartazes e fanzines pelo correio com punks de todo Brasil. Conhecemos até MENINAS PUNK – que inclusive montaram uma banda chamada Grito Feminino e tocou alguma vezes com a minha saudosa Praga de Mãe.

O Praga de Mãe, em 2001

O Praga de Mãe, em 2001

Hoje, enquanto coço minha barba invadida por fios prata e escuto nostalgicamente as músicas do Cólera, vejo como o punk rock salvou minha vida e me ensinou a não esperar as coisas caírem do céu. Me ensinou o que era marketing de guerrilha muito antes do caô das redes sociais. Foi assim que inventamos filmes amadores e programas anárquicos de humor na faculdade que abriram minhas portas na editora Abril, quando prestei o Curso Abril de Jornalismo. Eu não tinha feito estágios em grandes empresas e nem tinha contatos na imprensa; abri meu caminho com coturnadas punk regadas à do it yourself. E sempre me virei no trabalho com o mesmo espírito fanzineiro da adolescência. Foi numa dessas que inventamos os jogos jornalísticos que foram apontados como “a new form of storytelling” pelo Nieman Lab da prestigiada universidade de Harvard.

Minha barba embraquecendo sob o solzinho fraco de Berlim

Mas isso não serviu só pra mim ou pros moleques de moicano:

O poeta Drummond de Andrade bancou a primeira edição do seu livro do próprio bolso – o best seller André Vianco fez o mesmo usando seu FGTS. Glauber Rocha inscreveu o cinema brasileiro no cenário mundial com o lema do “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” e Zé do Caixão virou uma lenda filmando com amigos. O Facebook começou no quarto do Zuckerberg e a Apple na garagem dos pais de Steve Jobs. A vida sempre foi muito mais sobre ter uma boa ideia do que sobre esperar as condições ideais para executá-la. E para quem ainda precisa de um empurrãozinho eu recomendo a leitura do inspirador “Não devemos nada a você”, cheio de entrevistas com pessoas que arregaçaram as mangas e deixaram o mundo mais legal. O prazer de criar e fazer o que se gosta – amplificado pelo desafio – é uma das chaves para a felicidade segunda a teoria do Flow do psicólogo húngaro Mihaly Csikszentmihalyi

Enfim, tire seus sonhos do papel hoje. Nem que eles sejam uma versão xerocada do mundo ideal.

Extra: palestra sensacional sobre o “flow” e a felicidade:

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