Felicidade é coisa séria

por Karin Hueck

Na primeira vez em que saí sozinha de carro eu tremia. Eu tinha dezoito anos e uma carteira de motorista válida há apenas uma semana. Cada virada no volante era uma aventura calculada. Cada troca de marcha, um desafio. Os semáforos me davam arrepios: e se eu não conseguir fazer o carro andar? Na primeira ladeira o carro morreu, mas a segunda – ah, a segunda – saiu com perfeição. Cheguei ao meu destino com o automóvel intacto, as pernas bambas e uma imensa sensação de alívio no peito. Eu tinha conseguido.

Aprender uma nova habilidade é um negócio complicado. Nunca vem de graça. Você precisa treinar muito, dedicar dezenas de horas ao estudo – e levar muitos tombos também. Dizem que é impossível aprender algo de novo sem errar antes. Dizem também que, para se tornar um especialista ou pelo menos alguém muito hábil em qualquer atividade, é preciso passar 10 mil horas praticando-a. (Embora exista quem conteste a teoria.) Seguindo essa lógica, posso apenas concluir que sou muito boa em dormir, comer, ficar presa no trânsito e, no máximo, ler. Não me lembro de ter dedicado 10 mil horas da minha vida a mais nada. (Fiz as contas com “tomar banho” e não passou das 2,6 mil.)

Escola islâmica na Nigéria

Escola islâmica na Nigéria

Mas gastei muitas centenas de horas com outras coisas: conversando com meus amigos, estudando, tocando piano, escrevendo textos, respondendo e-mails. A grande ironia é que antes de esse negócio de estudar a felicidade, eu não tinha dedicado nem uma só hora da minha existência para ser mais feliz. (Isso não quer dizer, claro, que eu não tenha buscado fazer coisas prazerosas na vida. Buscar prazer é uma forma direta de sentir felicidade. Mas não é uma atitude consciente.) Acho que boa parte das pessoas faz o mesmo. Acho também que isso deveria ser diferente.

Estamos acostumado a entender a felicidade como algo que surge a partir da consequência de estar vivo: ficamos felizes quando algo de bom nos acontece, quando conquistamos algumas metas de vida, quando as pessoas ao nosso redor estão felizes, e até já ouvi falar de pessoas que ficam felizes quando o time adversário perde na rodada, veja só. Ou seja, de acordo com essa lógica, a felicidade depende de certos fatores exteriores a nós que muitas vezes não podemos prever – nunca é algo que buscamos ativamente. Isso nos torna muito passivos nesse negócio de ser feliz. O problema surge quando sonhos não dão certo. E se eu não passar no vestibular? E se eu não for chamada para a entrevista de emprego? E se ele não gostar de mim? A minha felicidade vai depender do mundo lá fora? Se a felicidade for uma prática, algo que podemos aprender ao longo da vida e se tornar uma habilidade nossa, como mexer no pacote Office, não precisaremos também de tantos fatores externos. Vamos apenas ser felizes. Por isso, felicidade tem que ser levada a sério.

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Escola primária no Peru

 

Quem concordaria com essa tese era o escritor inglês do século 19 George Eliot. Aos 25 anos, ele escreveu esta carta: “As pessoas têm de passar muitos anos aprendendo a ser feliz. Estou apenas começando a fazer algum progresso nessa ciência. (…) Cada ano nos livra de pelo menos uma expectativa vazia e nos ensina a colocar algo de bom no lugar. Eu nunca vou acreditar que a infância é a nossa fase mais feliz. Que presságio ruim para a nossa raça e o destino individual, se os nossos anos mais maduros forem também os mais infelizes. A infância só parece feliz em retrospecto: para a criança, ela é cheia de tristezas e medos do desconhecido. Tudo isso só prova que somos hoje mais felizes do que quando tínhamos sete anos, e que seremos mais felizes aos 40 do que agora. É isso que eu chamo de uma teoria boa, e uma que merece ser vivida!” Ou seja, ele acreditava que é preciso muito esforço, aprendizado e anos de vida para ser feliz. Ele sabia isso mais do que ninguém – até porque ele era uma “ela”. George Eliot era o pseudônimo de Mary Anne Evans. Para que seus livros pudessem ser levados a sério, e não jogados na categoria menor de “literatura feminina”, Mary adotou o nome de um homem. A identidade falsa também servia para acobertar a vida “indecente” em que vivia: ela morou 20 anos com um homem casado, e não queria que esse fato se tornasse maior que sua literatura. Ou seja, ela teve de inventar sua própria felicidade.

O mais engraçado é que pesquisas comprovam que George Eliot estava certa. A idade em que as pessoas relatam sentir mais felicidade é no final da vida. Entre os 60 e os 70, depois de muitos anos aprendendo a lidar com as tristezas, os acasos e as ironias da vida, é que o ser humano se diz mais feliz. Alguns chamam isso de sabedoria. Eu ainda acho que tem a ver com aprender a encontrar a felicidade dentro de si – e saber aceitar que nem sempre tudo na vida acontece do jeito que a gente queria. E ser feliz mesmo assim. Acho que aos 70 anos de idade deu tempo de passar 10 mil horas aprendendo felicidade. Para chegar lá o quanto antes, é melhor levar o negócio sério. E você, já tentou ser feliz hoje?

As fotos deste post são do fotógrafo Julian Germain, que viajou o mundo registrando escolas. Porque aprender a ser feliz deveria vir de pequenininho.

 

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