Felicidade, no singular, não existe


por André Toso

A felicidade se transformou em mercadoria embalada, selada e colocada à venda em gôndolas de supermercados. Antes uma ideia filosófica, uma ânsia utópica, um desejo, a felicidade é hoje um simples produto vendido em livros de autoajuda, prometido em cultos religiosos, celebrado na irrealidade da televisão, prescrito por psiquiatras e atualizado no perfil do Facebook. Felicidade, hoje, é como um plano de operadora de celular ou um novo modelo de carro.

Todos se sentem obrigados a buscar a felicidade. O fato é que a felicidade, no singular, não existe. O que existe são momentos de felicidade, muitas vezes tão fugazes e simples que nem nos damos conta deles. Tenho um bom exemplo pessoal. Quando me mudei para a Vila Mariana – em uma rua tranquila e arborizada – ouvi logo nas primeiras manhãs um galo se esgoelando na minha janela. A surpresa foi enorme: ali, no meio de uma cidade como São Paulo, ainda era possível ouvir um som legítimo da natureza. Só fui perceber o tamanho da minha felicidade meses depois, quando notei que o galo não cantava mais. Algo simples – que me tirou do cotidiano previsível – tornou-se um momento de felicidade marcante.

Foto: Camila Pastorelli

Foto: Camila Pastorelli

Sigmund Freud (1856-1939), no fundamental “O Mal-estar na Civilização”, concorda comigo: “aquilo que em seu sentido mais estrito é chamado de felicidade surge antes da súbita satisfação de necessidades represadas em alto grau e, segundo sua natureza, é possível apenas como fenômeno episódico”. Isso ocorre, segundo ele, pelo fato de que uma situação de prazer nos fornece apenas uma sensação momentânea de bem-estar. Ele completa: “somos feitos de tal modo que apenas podemos gozar intensamente o contraste e somente muito pouco o estado”. Concordo inteiramente: no meu exemplo, o momento de felicidade é um contraste ao previsível. O galo cantar me forneceu prazer ao se opor ao meu cotidiano, vivido em uma cidade que enterrou tudo aquilo que é natural. Ao ouvir o galo, não a buzina, senti-me salvo por alguns momentos da prisão urbana, dos símbolos e significações que me sufocam. Senti-me, por alguns minutos, feliz pelo fato de o surpreendente ter invadido sem licença meu cotidiano.

Superego Bozo
Como diria Jacques Lacan (1901-1981), você não é obrigado a gozar. Em nosso tempo, vivemos com uma espécie de Superego Bozo, que nos obriga a sorrir, ser engraçados e curtir todos os momentos da vida com felicidade e descontração. O Facebook é um dos sintomas disso, pois lá as pessoas editam suas vidas, postam fotos e se mostram insuportavelmente felizes. Percebe-se que elas mesmas estão sufocadas na maré de alegria plastificada que se tornou suas vidas virtuais.

A felicidade não é uma meta, porque ela não é um destino a se chegar. Felicidades são momentos que ocorrem ao longo de toda uma trajetória de vida. Quem corre atrás da felicidade corre atrás de um vulto que não existe e que cada vez parecerá mais longe. Penso que o importante não é ser feliz, e sim sentir-se feliz quando os momentos de alegria acontecem. É capturar aquele instante fugaz, aproveitá-lo e constituir sua história de vida sempre prestando atenção neles.

O psicanalista Jorge Forbes, em uma palestra intitulada “A felicidade na clínica de Jacques Lacan”, afirma que, para o pensador francês, felicidade é a capacidade de sentir magia. Acreditar que é possível criar magia. Por isso, diz ele, as crianças são, em geral, muito mais felizes que os adultos. Quando o galo cantou na minha janela senti exatamente essa magia meio infantil, fundamental para a construção da felicidade, mas sem uma corrida desesperada atrás dela. Lacan afirma: “felicidade vem por acaso”. Como desmenti-lo? O importante é ficar atento, para que ela não passe despercebida. Correr em desespero atrás da felicidade é matar a possibilidade de ser surpreendido por ela. É isso o que se anda fazendo deliberadamente por aí.

Foto: Camila Pastorelli

Foto: Camila Pastorelli

Para finalizar, a concepção de felicidade de Donald Woods Winnicott (1896-1971) ajuda a esclarecer um pouco seu sentido. Para o psicanalista inglês, a felicidade está relacionada com sentir-se existindo de forma criativa e não como mero espectador do mundo. Como muito bem analisado no blog do também psicanalista Lucas Nápoli, “o que está em jogo é uma felicidade que contempla o imprevisto, o desprazer, a ansiedade como contingências necessárias à existência e não como elementos que tornam o ser infeliz. Em outras palavras, para Winnicott, uma felicidade autêntica só pode ser concebida como aquela capaz de sobreviver ao sofrimento sem desfalecer”. Felicidade é – surpreso – ouvir o galo para depois aguentar as buzinas com a esperança de que, inesperadamente, um novo galo volte a cantar na janela. E esta é só uma das tantas felicidades simples do dia a dia. Pare de correr atrás do vulto e atente-se ao seu redor. A felicidade não é uma mercadoria, mas vem em parcelas. E ela é tão discreta quanto tudo que contém poesia.

André Toso é jornalista e psicoterapeuta. Ele escreve no Livre Associar. Outros textos dele aqui.

Todas as fotos aqui são da Camila Pastorelli e foram tiradas no trem da música em Pindamonhangaba, São Paulo, a caminho de uma festa caipira.

Este texto ajudou você? Apoie o Glück!
 😀

Leia também:
-Como a psicologia pode nos ajudar a ter uma vida mais feliz?
-”Para ser feliz, pense na morte
-O lado fantástico da vida comum