"Leia, pense, passe tempo sozinho"

por Fê Neute, do Fêliz com a Vida

“Eu nasci em uma família de classe média baixa na Zona Leste, periferia de São Paulo. Nunca tive os brinquedos da moda, nunca fiz nenhuma atividade extra curricular como natação, balé ou aulas de línguas. Entrei direto na pré-escola e estudei da primeira a oitava série em uma escola municipal do meu bairro. E, desde pequena, eu tinha um sonho: ser rica! Eu achava que ser rico era a melhor coisa do mundo, já que a minha definição de riqueza, na época, era poder comprar tudo o que tinha vontade, ter uma casa grande e bonita, um quarto só para mim e viajar de avião. Na minha cabeça, só os “ricos” podiam fazer todas essas coisas.

Justamente por não ter muitas atividades além da escola, eu passava grande parte do meu tempo assistindo televisão. Também adorava gibis e revistas. Além disso, não tínhamos TV por assinatura e só duas emissoras tinham uma imagem decente. Nesse cenário, propaganda era parte do entretenimento. E, se pararmos para pensar, os anos 80 também foram muito importantes para o mercado publicitário. Temos comerciais clássicos que são lembrados até hoje.

Quando prestei vestibular em 1999, publicidade foi o curso mais concorrido daquele ano e todo mundo achou que eu era louca. Eu era uma menina pobre sem nenhum “padrinho” ou contato bacana e seria impossível me destacar. E, não vou negar, os primeiros anos foram muito difíceis e frustrantes. Eu vi vários colegas de faculdade conseguindo estágio nas grandes agências porque a empresa do pai era cliente, porque o tio era amigo do diretor de criação ou porque tinham feito intercâmbio com a filha de alguém importante. Sem contar que a maior parte desses estágios não era remunerado, algo impensável para alguém que trabalhava para pagar a própria faculdade. Foi lá também, que eu me liguei que quem não falava inglês era quase analfabeto. Antes, nenhuma pessoa do meu círculo social falava inglês e foi chocante ver meninos e meninas de 18 anos falando fluentemente. Tudo isso foi um grande impulso para mim. Vi que para não ficar para trás eu teria de me esforçar três vezes mais do que a maioria das pessoas que estudavam comigo. Para competir com eles, eu estava muito atrasada. E foi o que fiz. Foquei dez anos da minha vida totalmente em me tornar uma excelente profissional, afinal, era isso o que eu precisava para realizar o meu sonho de ser rica (risos).

Quando eu já estava em uma das posições mais altas, eu comecei a perceber que a profissão era muito mais baseada em “parecer ser” do que “ser”. Não bastava ser inteligente e fazer um bom trabalho. Você também precisava ter a bolsa da marca X, frequentar os lugares Y e Z e fazer viagens incríveis para parecer bem sucedida. Além disso, as coisas foram mudando. Não se assiste comerciais de TV como antes. Todo mundo odeia pop-up e pula o comercial antes do vídeo do YouTube. As agências se matam para criar filmes milionários que vendem decodificador para TVs em que você pode escolher a sua programação e “pular” o comercial. Era muita energia e dinheiro gastos em algo que eu não via mais tanto valor.

Fernanda Neute nas Filipinhas

Fernanda Neute nas Filipinhas


Trabalhei ininterruptamente desde os 16 anos. Aos 32, percebi que tinha trabalhado metade da minha vida, mesmo sendo muito jovem. Foi quando parei para pensar que sim, eu tinha um salário e uma vida muito boa, mas tinha passado metade da minha vida lidando com pelos menos 3 horas de trânsito por dia por morar na Zona Leste de São Paulo e com preocupações financeiras -já que paguei minha faculdade e desde quando perdi meu pai há 6 anos também tive de dar suporte financeiro à minha família. E, para compensar tudo isso, acabava gastando uma quantidade absurda de dinheiro para me “recompensar”.

Também estava em um momento de mudança total. Meu namorado é americano e tinha se mudado para o Brasil. Teria de alugar um apartamento e começar uma nova vida de qualquer jeito e quando parei para fazer as contas, vi que eu poderia gastar a mesma grana (ou até menos) que eu gastaria para morar em São Paulo, morando em qualquer outro lugar do mundo.

Não tive dúvidas. Juntei o dinheiro que eu julgava necessário para viver pelo menos por um ano sem uma renda fixa, vendi tudo o que eu tinha e embarquei para essa viagem que tem sido muito mais do que um ano sabático ou um mochilão pelo mundo, e sim, uma tentativa de provar para mim mesma que é possível viver de uma forma diferente e não é preciso ser rico para isso. Aliás, descobri que esta é a verdadeira riqueza.

Fêliz com a Vida – um site sobre a felicidade

Eu sempre amei contar histórias e falar da vida. Muita gente me dizia que eu deveria ter um blog, mesmo antes de eu pensar nessa viagem. Mas além de não ter tempo, eu também tinha uma ideia (preconceituosa, admito) de que ter um blog era coisa de “patricinha” que podia ser dar ao luxo de investir em algo sem precisar ganhar dinheiro. Na minha cabeça, tempo era dinheiro e eu não tinha tempo a “perder”. Com a ideia da viagem, achei que poderia ser o momento perfeito para isso. Mas, sobre o que falar? Não queria ficar contando a minha vida gratuitamente ou apenas falando sobre a viagem e os lugares que eu passei.

Já fazia um tempo que eu vinha lendo muito sobre felicidade, autoconhecimento e desenvolvimento pessoal, além de adorar entender o que se passa com as pessoas. Pronto, esse seria o tema do meu blog! Meu lado nerd e disciplinado fez com que eu transformasse isso em uma grande pesquisa. O objetivo do site é mostrar para as pessoas que a felicidade não é algo distante que só virá quando coisas muito grandes acontecerem. Também quero tentar provocar uma reflexão maior sobre a vida, sem que se copie modelos ou se siga padrões e isso só é possível quando estimulamos o pensar. Hoje, minha maior motivação é ajudar as pessoas a entenderem que medidas simples podem fazer você ter uma vida mais feliz. A felicidade é um processo contínuo de autoconhecimento e evolução, que obviamente requer muito esforço, mas que uma vez que você entende, melhora todos os aspectos da nossa vida, consequentemente, nos tornando mais felizes. Além disso, também quero mostrar que diferentemente do que eu achava quando criança, não é preciso ter nascido rico para ter uma vida diferente e, sim, arregaçar as mangas.

Largar tudo
Eu acho que você precisa definitivamente largar o que não te faz feliz. Seja um trabalho que não te realiza, um relacionamento tóxico ou até a cidade que você mora se não aguenta mais o trânsito, como é o caso de muita gente em São Paulo. Mas, uma coisa que eu tento deixar bem clara nos meus textos é que fazer uma mala e ir viajar o mundo, por exemplo, não é a receita para a felicidade e nem a solução de todos os problemas. Outra coisa importante é que não se deve depositar toda a expectativa de felicidade em apenas uma coisa. No meu caso, viajar é apenas uma das coisas que me faz feliz, mas não vai durar para sempre, concordam? Por isso eu acho que o “largar tudo” precisa estar intimamente ligado com um objetivo maior que deve nortear qualquer decisão em prol da felicidade.

Eu tenho aprendido tanto (com a minha viagem) que fica até difícil dizer qual foi o principal aprendizado. Mas eu acho que o mais importante foi que tudo na vida sempre vai ter um lado positivo e um negativo. Mesmo algo maravilhoso como uma viagem pelo mundo vai ter sempre um bônus e um ônus e somos muito mais felizes quando estamos confortáveis e aceitamos o ônus como parte integrante do pacote. Acho que muito do sofrimento das pessoas vem de querer eliminar a parte negativa das coisas em vez de tentar lidar com elas, já que são inevitáveis. Também aprendi que o grande valor da vida está nas pessoas e nos nossos relacionamentos. Eles são a fundação para a construção de uma vida feliz.

Angkor Wat famoso complexo de templos do Cambodja visitado pela Fernanda Neute em seu mochilão pelo sudeste asiático

Angkor Wat famoso complexo de templos do Cambodja visitado pela Fernanda Neute em seu mochilão pelo sudeste asiático

Vida tradicional
“Acho que, mais do que diminuir as chances das pessoas serem felizes, a “vida tradicional” faz com que as pessoas não parem para pensar no que as faz genuinamente felizes. A sensação que eu tenho é que a gente nasce ligado no piloto automático. Nossos pais esperam que a gente tenha uma vida melhor do que a deles, a escola espera que você estude e entre na faculdade, que te prepara para ter uma carreira aos 17 anos e que deverá ser a mesma até você se aposentar.

A falta de tempo e o excesso de tarefas também faz com que a gente tenha cada vez menos espaço nas agendas para não fazer nada. Quando eu morava em São Paulo, a minha vida era tão maluca que eu me sentia culpada por não fazer nada uma vez ou outra. Aqui, eu descobri que esses momentos são extremamente importantes para que a gente consiga refletir melhor sobre as coisas e também ajudam a manter o equilíbrio que é tão importante para quem quer se sentir mais feliz. Ler, passar tempo sozinho, pensar, se questionar e formar uma opinião sobre o mundo e si mesmo é o que falta para quem vive no ritmo frenético das grandes cidades, na minha opinião.”

Fernanda Neute é paulistana, publicitária e largou tudo para rodar o mundo e pesquisar a felicidade. Esse texto foi fruto de uma entrevista que ela respondeu para o Glück. A Fê é a criadora do site “Fêliz com a Vida

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