Leia, se for macho

Postado em 4 de abril de 2014

(Uma reflexão sobre a imagem das mulheres na cultura pop dos anos 90)

por Fred Di Giacomo

Lembra quando a gente brincava de Comandos em Ação e as meninas brincavam de Barbie? Então, uma vez meu avô me viu brincando com meia dúzia de Comandos em Ação e uma Barbie. Era para ela ser a namorada de um deles, mas ele achou que aquilo era “coisa de veado”. Sim, pra ele e pra maioria das pessoas, eu não podia brincar com boneca, nem brincar de cuidar de bebê, nem brincar de cozinhar. Eu tinha que brincar de guerra, de futebol e de lutinha. Tinha que “treinar pra ser macho”. Meus soldadinhos não podiam ter namorada, mãe ou irmã. Eles eram um monte de soldados homens num mundo de homens. Igual à nossa divisão na escola: “meninos vs meninas”. E a gente não brincava com meninas. Nunca! Meninas eram chatas, choronas e frescas. Elas eram, na melhor das hipóteses, princesas que a gente salvava jogando Alex Kidd ou Super Mario Bros depois de matar o vilão e terminar o game.

Como vovô dizia: Comandos em Ação é que era coisa de macho

Como vovô dizia: Comandos em Ação é que era coisa de macho

Na adolescência a coisa piorou: começamos a querer nos aproximar das meninas, mas continuávamos achando elas “chatas, choronas e frescas”. Pior, agora as achávamos “metidas” também. Meninas de catorze anos não queriam saber de meninos da sua idade. Na nossa cabeça, elas queriam homens mais velhos, homens mais bonitos, homens que não parecessem moleques. E, se você não tivesse grana, era pior porque você jurava que sua falta de sorte com o sexo oposto era culpa da sua falta de dinheiro e ficava  com um ressentimento muito grande. Você via a loira linda na televisão e não tinha a loira linda pra você. Primeiro porque o Brasil não é um país de loiros. Segundo porque, na sua cabeça, se ela era loira e linda ia acabar com o Luciano Huck e não com o Mano Brown. Nós éramos um bando de homens, conversando com homens e vivendo com homens “tentando entender as mulheres” como cantava aquela música do Mundo Livre s/a que perguntava “de que vale um testículo sem carro?” E concluía: “Sem um carro, o testículo é um saco”. Era estranho que uma banda tão crítica quanto o Mundo Livre tivesse feito uma música tão machista como essa. Pensando bem, não era estranho, era a regra. Quase todas as bandas de rock ou rap dos anos 90 criticavam as mulheres assim como quem critica o “sistema, o preconceito ou violência policial”. Sem perceber que as mulheres não eram o “opressor”, mas o “oprimido”. As mulheres (que não tocavam em praticamente nenhuma banda daquela geração pré-Pitty, com exceção do Pato Fu) eram quase um inimigo a ser “combatido ou conquistado”. Exagero?

Vamos recordar, porque recordar é viver:

Se, hoje em dia, o assédio sexual é combatido (com toda razão) como crime, o que nos ensinavam os Raimundos maior banda de rock nacional dos anos 90?

No coletivo o que manda é a lei do pau/ Quem tem, esfrega nos outros/ Quem não tem só se dá mal. (Em “Esporrei na Manivela: uma música inteirinha falando sobre assédio no busão.)

Ainda ficando com os Raimundos, eles regravaram “Aquela” – de outra banda de Brasília, o Little Quail – e fizeram muito sucesso com essa ˜romântica˜ canção que nos ensinava que: … respeito e consideração nunca tiveram nada a ver com tesão. E quem se lembra do Catapulta (que teve um semi-sucesso na Mtv com o clipe de “Poeira”)? Eles tinham uma das piores letras de todas:

“Vô regaçá,botá ela pá suá/ Chupá talho e ser dengoso,que um boquete vai rolar/ Se ela pedir mais,eu vou lhe dar/E se não pedir/COITADA, VAI TER QUE SUPORTAR”
***

Naya - Managua, Nicaragua

Naya – Managua, Nicaragua

E ainda tinha um monte de letras de bandas de rap que eram tão duras com as “minas” quanto com o “sistema”.  Gabriel, O Pensador (rapper branco que levou o hip hop para as famílias de classe média) lançou um clipe tão violento nos anos 90, que hoje em dia teria enterrado sua carreira com ele. Duvida? Assistam novamente “Lôraburra” – um spoiler: ele transa com a mulher “burra”, manda ela embora, ela SE SUICIDA rejeitada e ele ainda vai no velório e JOGA UMA CAMISINHA USADA no caixão. O feminicídio mandou um abraço pros anos 90.

Os Racionais (uma boa banda que eu admiro até hoje) puxaram para esse lado algumas vezes, seja criticando as “Mulheres Vulgares” nos versos “mulheres só querem o que as favorecem/Dinheiro e posse, te esquecem se não os tiverem.” ou colocando a mulher como um objeto de desejo a ser conquistado como em  “seu carro e sua grana já não me seduz/E nem a sua puta de olhos azuis”.  Só que existe uma diferença entre carro e grana e uma mulher, certo?

Carro e grana não são um ser humano (nem mesmo um ser vivo) e eles não têm sentimentos, vontades, dores e dúvidas. Ao contrário da mulher, que está mais próxima de você, amigo homem, do que de um Honda. Parece óbvio, mas foi assim que fomos criados para ver as mulheres, como objetos que podem nos proporcionar prazer. Se você estava do “lado do sistema” você queria conquistá-las como carro e dinheiro. Se você estava do lado “engajado” você não se iludia com elas, como não se iludia com o capitalismo e tal. Esquecíamos sempre, no nosso “mundo de menino”, que as mulheres eram tão humanas quanto a gente. E olha que só estou citando aqui bandas de rap e rock que eu gosto e que procuravam exibir alguma “consciência” em suas letras. Se você avaliar o axé (“tudo que é perfeito a gente pega pelo braço/segura ela no meio/mete em cima e mete em baixo”), funk (“Dói, um tapinha não dói”) ou pagode (“Vou dar um castigo nela/Vou lhe dar uma banda de frente/Quebrar cinco dentes e quatro costelas”) a coisa não melhora muito.

E foi assim que a gente foi criado, assistindo a Xuxa dividir o mundo entre “meninos e meninas” que competiam para ver quem era melhor. Assistindo o “H” na Band que era apresentado por um homem, que entrevistava bandas de homens e que pedia pro DJ homem colocar uma música pra fazer as “mulheres bonitas dançarem”. E eis que surgiam elas, os grandes fenômenos femininos dos anos 90, “Tiazinha” e “Feiticeira” lindas, peladas e siliconadas prontas para realizar nossos desejos e fetiches na televisão e nas capas das Playboys mais vendidas do Brasil. Nós tínhamos Chico Science e Marcelo D2. Elas tinham Carla Perez e Feiticeira. A regra era que mulheres ficavam famosas e eram admiradas por seu corpo e sensualidade e não por suas ideias e feitos.

Nossas leituras mensais não escapavam dessa lógica. Não existia uma revista masculina que não tivesse mulher pelada incluída no pacote. E não tô falando só de Playboy e VIP. A alternativa Trip (que eu colecionava) sempre tinha uma ˜natureba gostosa˜ na sua capa. Quem fazia as matérias gonzo legais era um homem, o Arthur Veríssimo. Às meninas cabeças e inteligentes restava pagar peitinho no ensaio principal. O jeito que nosso show bussiness mostra(va) a mulher era “bundinha empinada pra mostrar que é bonita e a cabeça parafinada pra ficar igual paquita ”, como o “Gabriel, O Pensador” cantava reforçando a imagem de “mulher gostosa e burra”. E é impressionante que existam tão poucas músicas sobre homens burros. Afinal de contas, claro que existem mulheres burras, mas todas as estatísticas dizem que as mulheres estudam mais, leem mais e se formam mais na universidade. Será que nós homens deveríamos perder tanto tempo criticando as “mulheres burras” ao invés de abrir um livro e aprender a escrever direito na internet?

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Julia – Tirana, Albani

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Todas essas recordações me vieram à cabeça enquanto acompanhava as recentes discussões sobre estupro e assédio sexual no Brasil. Vi muitas mulheres escrevendo seus relatos e fiquei pensando um pouco na parte que nos cabia nessa história. Me parece que o que podemos fazer é nos desculpar e mudar nossas atitudes. Talvez eu morra com algumas atitudes machistas incrustadas em mim, mas quero morrer menos machista. Não posso deixar de citar aqui novamente o filósofo Alain de Botton quando diz que “qualquer um que não se envergonhe de quem era no ano passado não está aprendendo o suficiente”. Tem horas que devemos assumir que erramos e seguir em frente. E o que tudo isso tem a ver com a felicidade – tema principal desse site? Bom, nossas atitudes “de macho” estão deixando a vida das mulheres mais difíceis e infelizes e nossa cultura pop estimula isso sem a gente nem perceber. E, tenho certeza, que com as mulheres mais livres e felizes, você também vai ser mais feliz. (Tem até algumas pesquisas que dizem isso).
***

“Mas como eu sei que estou fazendo alguma coisa errada nessa história toda de assédio e machismo?”. Você pode começar ouvindo o que nossas amigas, esposas, irmãs e mães têm falando ultimamente, eu tenho alguns palpites:

Lembra daquela dica de conquista que nos ensinaram em que o “não” nem sempre quer dizer não? A partir de agora (o que já devia ter sido feito há muito tempo atrás) vamos considerar que “não é sempre não”. Em segundo lugar, vamos parar de nos importar com o que nossos “amigos vão pensar”. “Ai, meu Deus a galera vai achar que eu sou corno-frouxo-virgem-bundão”. Dane-se! Na relação entre você e uma mulher, importa o que você e a mulher fazem e sentem. Esse nosso “medo do chifre invisível/imaginário” parece piada, mas é uma dos grandes motivadores da violência doméstica. O ciúme tem respondido por 10% dos assassinatos de mulheres no país. Em terceiro lugar, a melhor forma de entender as mulheres é conviver com mulheres. Parar de achar que elas são um “bicho de sete cabeças”, parar de ficar só no Clube do Bolinha, parar de ler “revista de homem”. Conversando com as mulheres você vê que o mundo não é uma gincana de “Xou da Xuxa”. Que elas também têm inseguranças, desejos, medos. Que o plano maligno delas não é te deixar “chupando dedo”, que elas não se preocupam “só com seu dinheiro”, etc, etc, etc. Claro que existem mulheres burras, interesseiras e falsas no mundo. Existem homens assim também. Caráter não é uma questão de gênero. E tenho que dizer mais uma coisa: sei que fomos criados nessa “cultura caliente e latina” que fica repetindo que você tem que conquistar a “deusa perfeita do amor” para ser feliz, mas fazer muito sexo não é sinônimo de felicidade. Assim como existe uma corrida louca para ser o primeiro, para se ter muitos bens e para se tornar um grande sucesso profissional; existe um grande campeonato invisível para ver quem fez mais sexo, quem beija mais e quem tem mais mulheres na sua lista. Como se o sexo fosse o grande Eldorado para a felicidade. (E não existe grande Eldorado para felicidade.)

Amigo “macho”, preocupe-se menos com sexo, leia menos sobre sexo, assista menos vídeos de sexo (pornografia é um cavalo de Tróia do machismo e violência, pense nisso). Quem sabe sobre algum tempo para você conhecer as mulheres e compreender as mulheres de verdade. 😛

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Orly, Texas, EUA

Orly, Texas, EUA

Todas as fotos desse post são de Gabriele Galimberti e fazem parte do projeto Toy Stories onde ele fotografou crianças do mundo inteiro com seus brinquedos favoritos.

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