Livros mudam vidas

Postado em 3 de agosto de 2015

por Fred Di Giacomo/Artes: Laura Rittmeister

Nós do Glück acreditamos que a educação, aliada ao hábito de ler livros, é a melhor arma numa revolução pacífica que pode mudar as pessoas e o mundo. Acreditamos que leitura e estudos podem ajudar as pessoas a transformarem suas situações e suas histórias, a conquistarem autonomia e a se conhecerem melhor.

Já tínhamos publicado aqui um texto contando como os livros mudam vidas e também um texto indicando livros que podem te fazer uma pessoa mais feliz. Aí ficamos quebrando a cabeça para pensar como poderíamos estimular as pessoas a lerem um pouco mais. A resposta foi tentar mostrar que pessoas incríveis tiverem suas vidas transformadas por livros. Foi um livro que ajudou o rapper Dexter a sair da cadeia, foi um livro que fez a blogueira Karol Pinheiro a virar jornalista e foi um livro que transformou o DJ KL Jay, dos Racionais,em vegetariano. Sem um livro, Cynara Menezes não seria hoje a Socialista Morena e, provavelmente, o escritor Ferréz teria uma vida muito mais dura na periferia de São Paulo. Livros salvam vidas.

Acredite. Eles salvaram a minha. 🙂

Abaixo a gente reuniu 12 pessoas legais (músicos, escritores, empreendedores, ativistas e jornalistas) que nos contaram que livros mudaram suas vidas. E, você? Que livro mudou sua vida? Compartilhe conosco, usando a hashtag #livrosmudamvidas!

1) KL JAY, DJ dos Racionais Mc’s
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“Foram dois livros que mudaram minha vida. A autobiografia do (ativista negro norte-americano) Malcom- X e “Viva Natural” (livro de 1982, da escritora Eliza Biazzi),  sobre alimentação e uma vida mais saudável. Foi esse livro que me tornou vegetariano, o que sou até hoje. Isso faz muito tempo, eu li o “Viva Natural” há mais de vinte cinco anos.
A autobiografia do Malcom-X foi uma onda forte que teve, né? Acho que descobri através de um espaço que a gente colava, chamava Geledés – Instituto da mulher negra, há mais de 20 anos. Tinha muita gente falando do livro no movimento (hip-hop), nas letras de rap. Muitas bandas citando nas músicas.”

2)Karol Pinheiro, blogueira e jornalista
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“Foi o Diário de Anne Frank. Sei que pode soar como clichê, mas lembro de ter terminado a leitura desse livro ainda menina e me questionado sobre o poder das palavras. Nada é mais certeiro do que o ponto de vista de alguém que viveu a história para contar sua história, e foi isso que me comoveu em Anne Frank. Minha escolha pelo jornalismo como profissão (e paixão) tem muito a ver com isso.”

3) Ferréz, escritor, autor de Manual Prático do Ódio e “Os ricos também morrem”
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Demian, do (alemão) Herman Hesse, foi o primeiro livro que li e me direciona até hoje. Ganhei de um amigo que tinha 14 anos e morava num barraco do Jardim Jangadeiro. A mãe tinha abandonado ele e deixou os livros. Os livros do Hesse falam da busca, foi isso que me atraiu.”

4) Cynara Menezes, jornalista e criadora do Socialistas Morenacynara-menezes
“Cresci no interior da Bahia nos anos 1970 e pouco ouvíamos  falar, por lá, sobre a ditadura militar. Aprendíamos na escola a marchar no 7 de setembro e que a princesa Isabel e dom Pedro I eram heróis. Qual não foi a minha surpresa ao ler, já no segundo grau, o livro “História da Sociedade Brasileira, de Francisco Alencar e Lúcia Carpi… Ali dizia todo o contrário: que os negros foram jogados à própria sorte após a abolição e que pagamos indenização pelos “danos” causados pela independência, por exemplo. Falava dos horrores da tortura, dos desaparecidos, da repressão. Foi um choque. Este livro foi fundamental para mim, me transformou em uma pessoa de esquerda e até hoje não esqueço o poema de Bertolt Brecht, Perguntas de Um Operário que Lê, que lhe servia de introdução. E o mais curioso: somente há dois anos descobri que o autor Francisco Alencar é o deputado federal Chico Alencar, do PSOL.”

5) Jaque Barbosa, criadora dos sites Hypness, Nômades Digitais e Casal Sem Vergonhajaque
“Difícil a missão de escolher um livro preferido, já que tantos livros foram inspiradores e transformadores até hoje. Se fosse para citar um no quesito “literatura”, seria “A insustentável leveza do ser“, de Milan Kundera. Mas no quesito transformação de vida, minha “bíblia” é um livro chamado “Vivendo na Luz”, de Shakti Gawain. O livro, que hoje em dia só pode ser encontrado em sebos ou lojas alternativas, porque está com as edições esgotadas, fala basicamente da questão da intuição, do poder de ouvir o nosso lado interior, pois ele tem todas as respostas, nós apenas precisamos parar para ouvi-las. Ele também explica bem a questão do “fluxo” do universo – se nos abrimos para o universo, e principalmente se estamos seguindo o nosso “fluxo”, então, nos conectamos ao todo e as coisas parecem acontecer de uma forma inexplicável. Para saber se você está seguindo esse chamado, basta observar seu nível de energia – se você se sente vivo, motivado, cheio de energia, então você está no caminho certo. Quando você sente como se sua energia estivesse sendo drenada, então talvez seja hora de rever seus caminhos e recalcular as rotas da sua vida. Sempre que me sinto “desconectada”, releio esse livro e ele sempre me traz uma clareza e uma paz muito grande. Ele trata a questão da espiritualidade com simplicidade, da forma que tem que ser.”

6)Dexter, rapper, ex- 509-E
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“No meu caso foi a autobiografia de Malcom-X. Foi como acender uma luz num quarto escuro. Nesse caso, o quarto da ignorância. O mundo dos livros é maravilhoso! Parabéns pelo projeto, não tenho dúvidas (de que os livros podem mudar a vida dos jovens). Sou a prova viva. Obrigado pelo carinho e por me convida para responder. Sem palavras!”

7) Denis Russo, diretor de redação da Superinteressante
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Martin Luther King Jr nunca escreveu uma autobiografia, e no entanto o livro existe. Tudo graças a um trabalho de edição fantástico do historiador Clayborne Carson, de quem tive a sorte de ser aluno em Stanford. King não escreveu esse livro, mas, ao longo da vida, escreveu centenas de pequenos relatos autobiográficos, geralmente sermões (ele era pastor da Igreja Batista). Quando ele era a maior liderança negra da luta por direitos civis nos Estados Unidos, nos anos 1960, Carson era um jovem historiador e ativista, e escrevia textos críticos contra King. Ele não gostava do fato de King ser uma liderança carismática, de apelo heróico – achava que a luta tinha que ser mais coletiva e anônima. Aí, King foi assassinado, em 1968. E sua esposa, Coretta Scott King, tomou uma decisão polêmica: doou todo o gigantesco acervo do marido ao jovem historiador. Coube a Carson, grande crítico do papel que King teve, a dificílima tarefa de cuidar do legado dele. O livro é uma colagem de centenas de diferentes textos, mas, graças à habilidade de Carson, é um texto fluido e coerente. Esse livro mudou minha vida em muitos planos diferentes. Primeiro me tocou como editor que sou: me fez refletir sobre a arte de trabalhar pela clareza das ideias dos outros, de trabalhar nos bastidores sem se apropriar do texto final. A arte de escrever um livro cujo autor é outra pessoa. (Nesse aspecto é um livro que considero tão brilhante quanto outra obra histórica que me marcou: “Mate-me Por Favor“, uma colagem de depoimentos que conta a história do punk). Em segundo lugar é uma aula de estratégia política, especialmente poderoso ao mostrar a força da não-violência como estratégia de luta, baseada em conquistar apoio público ao estabelecer a superioridade moral sobre quem comete injustiças. Por último, é um livro que me marcou profundamente pelo personagem impressionante que ela revela. A vida de King é tremendamente inspiradora. Tive o privilégio de estudar esse livro a fundo, conduzido pelo seu editor, com o luxo supremo de poder discuti-lo com alguns personagens-chave da história – por exemplo, recebemos a visita de Clarence Jones, que escreveu o discurso “I Have a Dream”. Foi transformador.”

8)Jules de Faria, criadora do Think Olga e da campanha “Chega de Fiu-Fiu
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“QUE DIFÍCIL escolher. Então eu vou com o primeiro livro que mudou a minha vida, foi o Libertinagem, de Manuel Bandeira <3. “Não quero mais saber do lirismo que não é libertação (citação do livro).”

9)Fê Catania, criadora do canal Foquinha foquinha

“Era uma época de rebeldia adolescente e revolta contra a escola. Eu era a garota que vivia na sala da diretora, sentava com os garotos do fundão e não largava o meu skate por nada. Estudava um dia antes da prova e odiava mais do que tudo ter que ler os livros obrigatórios da escola. Até que resolvi ler o livro que inspirou Billie Joe, do Green Day, minha banda preferida na época, a escrever a música “Who Wrote Holden Caufield?“. O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D. Salinger, mexeu comigo como nenhuma professora foi capaz. Ok, não virei a CDF da turma, mas finalmente estava lendo algo com prazer. Era como se o protagonista Holden Caulfield, um garoto de 16 anos, estivesse falando diretamente comigo e, muitas vezes, decifrando os meus próprios pensamentos. No começo, aquele moleque egoísta, mimado, estranho, bad vibres, me irritava… Mas, terminei o livro com dor no peito de tanta saudade. Hoje, eu sei, todo mundo já foi um pouquinho ‘Holden’ um dia.”

10)Alexandre Versignassi, autor do livro Crash, redator-chefe da Superinteressante e responsável por essa lindeza

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“O livro que mudou minha vida foiComo a Mente Funciona, do Steven Pinker”. Foi que nem sair do cinema depois de assistir um filme bom: você já está na rua, mas de alguma forma continua dentro do filme. Continuei dentro do livro. E não foi exatamente agradável, porque o Como a Funciona é uma obra de divulgação de neurosciência dedicada a mostrar como os nossos instintos dominam a gente. Steven Pinker, psicólogo de Harvard, apresenta aqui uma torrente de pesquisas científicas sobre as raízes genéticas dos nossos sentimentos fundamentais – paixão, amizade, amor paternal, ódio. A conclusão dele é aterradora: a de que agimos basicamente todo o tempo guiados por instintos toscos, que a própria ideia de racionalidade não é muito mais do que uma ilusão”

11) Fê Neute, criadora do Fêliz com a Vida
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“Para falar a verdade, todos os livros que eu já li, até mesmo os que eu não gostei, mudaram um pouquinho a minha vida. Eu acho que se estivermos abertos a aprender, tudo pode nos ensinar e eu procuro estar atenta a tudo. Por isso, é sempre muito difícil escolher um só, mas acho que vou escolher esse não porque ele mudou a minha vida, mas porque ele apareceu em uma hora que eu precisava muito ler e me ajudou demais. Foi o “So Good They Can’t Ignore You: Why Skills Trump Passion in the Quest for Work You Love” do Cal Newport. Ele ainda não tem uma versão em português, mas desmistifica de forma simples, objetiva e real o novo discurso “siga sua paixão e você será feliz”. Estou lendo um nesse momento e ele provavelmente será o meu favorito quando eu terminar: “O Paradoxo da Escolha – Porque Mais é Menos”, Barry Schwartz. ”

12) Marcelo Perdido, músico

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A insustentável leveza do ser foi o livro que mudou minha vida, pelo menos minha forma de pensar e consequentemente minha vida. Eu li aos 17, assim que entrei na faculdade e uma namorada terminou comigo. Foi muito por acaso, peguei da biblioteca de meus pais num fim de semana e li durante a viagem e resto da semana. É um livro sobre relações humanas né? Esqueci ele um tempo, reli numa fase que eu já podia entender melhor amor-ideal e amor-real e ele continuou me colocando pra pensar na forma que eu agia com as mulheres principalmente e todo o jogo social que isso envolve. Nessa época vi o filme e detestei, e olha que como amante de audiovisual eu costumo a gostar muito de adaptações, mas esse é típico caso de livro que faz você se enxergar nos personagens, parece escrito para isso, depois de me projetar nos 4 personagens principais o filme pareceu errado, talvez não sejam 4 personagens principais e sim 5, pois o AMOR é um dos personagens do livro, sempre presente, nem sempre romântico e basicamente: Pesado.”
Todas as ilustrações deste post foram feitas pela designer Laura Rittmeister 🙂 Conheça o trabalho dela aqui!

Leia também:
-11 livros que pode mudar sua vida
-Entrevista completa com KL Jay falando de livros e sonhos
-Como os livros podem salvar sua vida

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