"Não acredito em felicidade", uma entrevista com Laerte – maior gêni@ viv@ do Brasil

por Fred Di Giacomo + Karin Hueck

“Laerte é o maior gênio vivo do Brasil”. Lembro dessa frase lançada numa conversa de café entre o editor Rafael Kenski – pironeiro na criação de newsgames e ARGs no Brasil – e o designer Gabriel Gianordoli – referência na criação de data visualization e que hoje dá aulas na New York University. Se havia alguma dúvida na disputa pelo título de maior brasileiro em atividade, ela acabara ali por unanimidade. Havia alguém fazendo um trabalho mais revolucionário, atual e – ainda assim – popular que Laerte? O único erro da frase, disparada alguns anos atrás, era o gênero. Laerte é uma gêniA. Desde que decidiu assumir-se como transgênero, a cartunista prefere ser chamada no feminino e se tornou uma importante voz no movimento LGBTT.

Nascida em 1951, em São Paulo, ela começou sua carreira como ilustradora, quadrinista e chargista nos anos 70. Co-fundou a revista Balão, criou charges para o sindicato dos metalúrgicos e lançou a revista Piratas do Tietê, em 1990. Desde 1991, publica tirinhas diariamente no jornal Folha de S. Paulo. Ex-roteirista de programas de televisão como TV Pirata, Sai de Baixo e Tv Colosso, Laerte foi aos poucos abandonando seus personagens e desenvolvendo um trabalho mais experimentalista e existencialista. Os questionamentos de seus quadrinhos e sua postura pública sobre as questões de gênero, nos levaram a querer bater um papo virtual sobre felicidade, preconceito, militância e quadrinhos.

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1) Como a mudança na maneira de  se vestir e na sua identificação de gênero influenciou na sua felicidade?
Laerte: Eu passei a me reconhecer de forma muito mais intensa. É estranho, porque sinto como se sempre tivesse sido assim – mesmo não tendo hoje nenhuma aversão pelo “outro” modo.

2) Em um país que elegeu os candidatos que elegeu, você considera a exposição da sua nova identificação de gênero um ato político?
Laerte: Não entendi bem o que uma coisa tem a ver com a outra…O que há com os candidatos que elegemos? São extra-terrestres?De resto, sim – acho que o movimento transgênero pode ser um gesto político. Acho que tenho ido nessa direção.

Perguntamos porque, agora no primeiro turno das eleições, os candidatos mais votados a deputados estaduais e federais incluíam muitos conservadores como Pastor Feliciano, Bolsonaros, Coronel Telhada, etc. Esses políticos têm posições conservadores fortes, quase todos indo contra o kit anti-homofobia e o casamento gay, por exemplo.

Laerte: Ah, entendi.  Ainda diria que é importante haver candidatas e candidatos sintonizados com as questões de direitos humanos, mas, de qualquer modo, nunca pensei em me candidatar.

Tirinha da Laerte

Tirinha da Laerte

3) Dúvida da Karin: você acha que agora consegue ver o mundo pelos olhos de uma mulher? É melhor? É pior? Ou não dá para afirmar isso?
Laerte: Não acho que exista um “olhar feminino”. Existem sentimentos, ideias, “sotaques” que vêm sendo atribuidos à masculinidade ou à feminilidade, mas me parece mistificação pura. Não levo a sério. Senão teria que achar que “mulheres não têm humor” ou bobagens desse tipo…

Acho que aqui a Karin (que ajudou a organizar a pesquisa Chega de Fiu-Fiu), estava mais pensando na diferença de gênero mesmo, tipo se as pessoas te levam menos a sério como artista por assumir o gênero feminino, se mexem com você na rua, etc. Existe um caso famoso de um cientista transgênero que passou a ser menos chamado para palestras depois que passou por uma cirurgia de troca de sexo. Você sentiu algo desse tipo?

Laerte: Beleza, agora entendi. Não, não passei por nada disso. Acho que quando isso, especificamente, rola é mais por aversão à atitude transgressora do que por considerar o gênero feminino de qualquer modo inferior.

4) Por que você acha que as pessoas agem como “vigias da felicidade alheia”?
Laerte: Acho que certas questões são território tabu – o medo faz com que os espíritos fiquem alerta e procurem isolar qualquer tentativa de mudança.

No entanto, a terra se move, diria Galileu.

5) Você começou a trabalhar com quadrinhos bem jovem. Seria feliz com uma profissão mais mecânica e menos autoral? É possível ser feliz sem trabalhar com o que se ama?
Laerte: Não foi tão jovem assim. Trabalhar, mesmo, comecei com 22 anos. Antes desenhava, também, é verdade.

Não sei dizer sobre isso de ser feliz… Não acredito em “felicidade” – ou, pelo menos, não gosto de trabalhar com esse conceito porque – como essas perguntas deixam evidente – ele gera uma expectativa de satisfação absoluta que é impossível de atingir.
Acredito em patamares de satisfação, vamos dizer. Eu não estaria muito satisfeita com uma profissão menos autoral – mas também não sei dizer, porque não é o caminho que tomei. É uma consideração que só posso fazer sem base na realidade. Eu poderia ter muitas outras formas de satisfação em minha vida alternativa, mesmo com um trabalho mecânico…

Tira da Laerte

Tira da Laerte

6) Você tem mestres ou mus@s? Quem foram as maiores influências na sua vida e obra?
Laerte: Tenho muitíssimos mestres e musas. Desde gente que eu não conheci até os com que tive contato pessoal. Desde pessoas que me influenciaram basicamente com seu trabalho até os que me ensinaram e deram aulas.

Quer uma lista? Fico meio assim de esquecer gente…

Ah, acho que pro leitor seria bacana saber quais são suas influências, até pra ele procurar conhecer o trabalho desses artistas, mas se for ruim pra você, pode desencanar.

Laerte: Ruim não é, só fico receosa de esquecer alguém… Posso mencionar, como mais próximos, Zélio, Ciça, Ziraldo, Jaguar, Fortuna, Henfil, Gian Carlo Berardi e Quino.

7) Sua produção é prolífica e constante até hoje. De onde vem a vontade de produzir tanta coisa?
Laerte: Não sei dizer. Nem sei se é tanta vontade assim! Tenho produzido bem menos do que no passado.

8)Quais são seus pequenos prazeres do cotidiano?
Laerte: Ler, dar umas voltas, sair com gente amiga, essas coisas…

9)Em que momentos da sua vida você se considerou mais feliz?
Laerte: Nunca, pra falar a verdade – como disse, acho que é um conceito impossível de operar.

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Laerte

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