O dia em que descobri que era preconceituoso

por Fred Di Giacomo

Meus pais me educaram ensinando que o preconceito era um dos venenos que cegavam o mundo. Lembro quando um colega branco de escola pública, no primário, falou para outro colega negro que “o sonho dele deveria ser branco, igual ao Michael Jackson”. Eu, com uns 8 anos, achei aquilo absurdo. “Como você pode falar uma coisa assim tão… RACISTA?” Mas o menino branco parecia não ver problema naquilo: “Todo negro quer ser branco”, explicou tranquilamente. “É melhor”.

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Passei uns 16 anos da minha vida achando que era a pessoa menos preconceituosa do mundo. Naqueles tempos, todos moleques da minha sala caprichavam no bullying. Me chamavam de compasso, pé de mola, magrelo e bode. Claro que isso não fazia muito bem para minha autoestima, mas eu sobrevivia e retrucava com elegância semelhante. Havia uma regra ali: “Todo defeito será castigado”. E um era o ‘“careca”, o outro era o “lampréia”, um terceiro era o “siriema”. No entanto, havia algumas pessoas que eram massacradas diariamente por TODA a classe. O ser humano não é muito politicamente correto quando jovem: as principais vítimas de humilhações pesadas eram deficientes, gordos e meninos com trejeitos de gays. Digo trejeitos porque ninguém saía do armário na pequena cidade de Penápolis, interior de São Paulo, quase fronteira com Mato Grosso do Sul. Imagino que fosse até perigoso. Quando se atacava um desses alvos era “todos contra o outro”. Um dos nosso colegas era um desses “outros”. Fazíamos piadinhas homofóbicas com ele diariamente. Cantávamos músicas, imitávamos seus trejeitos, dávamos apelidos. Achávamos que era “só zoeira”.

Um final de tarde, eu estava estudando para as provas de História com esse colega na casa de uma amiga. Não lembro sobre o que conversávamos, mas lembro que o papo descambou para um assunto mais ou menos assim: “Fred, você é meu amigo?” “Claro”, respondi. “Então para de fazer esse tipo de piada comigo, eu andei meio triste, meio depressivo. Tive até vontade de me matar”.

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“Vontade de me matar”.

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Para mim qualquer argumento em defesa do “bullying educativo” ou do “direito à piada politicamente incorreta” cai por terra quando essas “zoeiras” fazem alguém cogitar o suicído. Vamos lá, precisamos decidir quais são nossas prioridades e nossos valores para seguirmos nessa conversa. Não tenho medo de ser piegas ao dizer que a vida humana é para mim o bem mais precioso. A felicidade humana vem logo em seguida nessa lista de prioridades.

Provavelmente as religiões, os partidos políticos e a declaração dos direitos humanos devem concordar com isso. Minhas risadas não valem uma vida. Ainda mais a vida de um amigo; um colega que estava todo dia ali com a gente nas aulas, nas festas, no cotidiano. A partir desse dia percebi o quanto eu era preconceituoso e quanto meu preconceito podia ferir as pessoas. Eu não precisava bater em um homossexual para ferí-lo. Havia uma grande diferença entre as piadas que meus amigos faziam eventualmente comigo e o tipo de piadas que fazíamos com ele. Uma diferença que impedia aquele meu amigo de ser plenamente feliz.

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Um dos meus grandes interesses científicos é entender por que a felicidade do outro é tão importante para a gente. Por que temos a necessidade de controlar o outro? O que me diz respeito se o meu colega do ensino médio rebola quando anda? E se minha vizinha mora com outra mulher? Por que a minha felicidade passava por deixar esse cara infeliz?

No livro “Mal Estar da Cultura”, Freud fala um pouco sobre como costumamos escolher um “outro” como bode expiatório contra nossas desgraças. Nos reunimos num grupo onde somos amados e aceitos (o time, o partido, os “héteros”) e perseguimos o que foge desse padrão acreditando que a infelicidade e as causas dos nossos problemas estão fora de nós. Quando tivermos convertido (ou matado) todos “outros”, o mundo será melhor. Sejam esses “outros” os gays, os nordestinos, os burgueses, os “petralhas”, os marajás, os comunistas ou outro bode expiatório que você escolher. É muito mais fácil fugir da responsabilidade que você tem com a sua felicidade. É interessante quando Freud lembra que pelo fato de os judeus terem passado grande parte de sua existência sem uma pátria – vivendo em outros países – eles acabaram servindo de “outro” para grande parte da humanidade. Romanos, católicos, russos, alemães… Não quero com essa pontuação ser leviano e fingir que todos as mazelas do mundo resolvem-se com força de vontade. Só acho que, em grande parte das vezes, sonhamos com um mundo onde tudo ficará bem se todos pensarem e agirem exatamente como nós.

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Este ano fui convidado para dar uma palestra na ETEC Roberto Marinho sobre multimídia. Depois da experiência com meu colega no ginásio, achei que havia conseguido eliminar os preconceitos pouco a pouco da minha cabecinha interiorana. Na classe da ETEC, a maioria dos alunos era mais jovem que eu. Eu falava sobre “como os chefes mais velhos muitas vezes não entendiam as novidades tecnológicas”. Chamava-os perjorativamente de “tiozões”. No final da palestra, uma senhora de mais de cinquenta anos – que eu achava ser uma professora – veio humildemente elogiar minha aula. Pontuou que só não tinha gostado da parte onde eu  fazia piadas com “tiozões”. Ela era aluna ali e sofria muito preconceito. Reclamava que os programas de estágio costumavam ter limite de idade, o que dificultava sua entrada no mercado de trabalho. Me perguntou como a coisas funcionavam na Editora Abril, onde eu trabalhava. Eu nunca havia pensado no assunto. Nunca havia considerado contratar uma pessoa de 50 anos para minha equipe. Não havia me colocado nesse lugar. Mais uma vez percebi o quanto era preconceituoso e o quanto um comportamento meu poderia deixar outra pessoa infeliz.

Aquela aula da ETEC serviu para me lembrar que a gente nunca pode parar de aprender e evoluir. Como tuitou o filósofo suíço Alain de Botton: “Qualquer um que não se sinta envergonhado por quem ele era no ano passado, provavelmente não está aprendendo o suficiente”.

Eu me envergonho, e você?
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As ilustrações dessa matéria fazem parte de um projeto organizado por Anna Goodson em protesto à política homofóbica do presidente da Rússia Vladimir Putin. O projeto reúne ilustrações de 16 artistas diferentes. As publicadas aqui são da Julia BereciartuNata Metlukh e Paul Blow