O lado fantástico da vida comum

por Fred Di Giacomo

Cheiro de chuva caindo na terra me faz feliz. Eu não posso te explicar exatamente porque, mas me conecta com algum lugar bom e seguro da minha infância. Dias ensolarados de outono e finais de tarde durante o verão têm efeito parecido. São pequenas doses de “Rivotril” que o universo distribui sem cobrar nada em troca.

Meu irmão fica feliz quando seu time ganha e diz que vive para ver a Copa do Mundo de quatro em quatro anos. Minha colega de faculdade Poka Nascimento adora chegar em casa, tirar o sapato e ficar deitada com o gato na barriga. Meu avô materno gostava de fotografar, construir pequenos barcos e cozinhar macarronada com calabresa todo domingo. (A recordação do cheiro que se espalhava pela casa dele ainda me faz salivar).

Colo de vô

Colo de vô

Talvez a vida seja composta 20% de grandes momentos e 80% de rotina. As grandes viagens, os aumentos de salário, os nascimentos de filhos e os dias de casamento são o tempero da existência – o refrigerante de domingo numa vida de arroz e feijão. Mas arroz com feijão não pode ser bom? Não é possível viver poeticamente o dia a dia, como ensina o filósofo Edgar Morin?

“Um dia feliz para mim é quando dá tudo certo, sem grandes problemas, mas com uma dose de inesperado. Gosto quando resolvo mudar do nada o caminho que faço do trabalho para casa e acabo encontrando um amigo na rua ou descobrindo um café que eu nunca tinha notado.” Essa definição é da Poka, colega que se formou em Rádio e TV na Unesp e hoje trabalha na Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania. Ela sempre comentava os textos do Glück dizendo que o “largar tudo” era um pouco supervalorizado e que a rotina também tinha seus encantos. Acho que existem diversos caminhos para se chegar a felicidade e por isso resolvi bater um papo com ela sobre a alegria das pequenas coisas. Lembrei de uma fase difícil quando eu era um jovem caipira punk recém chegado a São Paulo. A metrópole parecia uma cidade cinza, cheia, violenta e opressora. Para curar grandes ataques de pânico, mergulhei nos pequenos momentos de prazer. Busquei focar no presente, no gosto do café quente, no barulho da garoa noturna,  no dedilhar do meu violão. E no leve suspirar da companheira que sonhava na cama.

“E viajar?”, pergunto pra Poka.  “Viajar é legal”, ela responde, “mas sempre que o faço, em no máximo 5 dias, já quero voltar pra casa. Sinto falta do meu lugar, das coisas que não levei e da minha rotina. Isso não é uma crítica a quem tem essa preferência, mas acho que essa ideia de viajar para ser feliz me parece como uma espécie de fuga.”

Uma cereja no parque

Uma cereja no parque

Sempre achei que as pessoas que viviam mais tempo eram as que cultivavam pequenos prazeres nos jardins de suas vidas. Pessoas que envelheciam sem que sua única diversão fosse a televisão ou as visitas de sua família. Pessoas, como meu avô materno, que encontravam em pequenos afazeres um motivo para levantar da cama. Acho que essa filosofia do prazer no cotidiano nos permite uma existência feliz mesmo que não tenhamos condições de vivenciar o fantástico. Podemos, como ensina a teoria do flow de Mihaly, procura criar o fantástico dentro de nós e das atividades que amamos. Ou, como refletia no século XVI o genial pensador Montaigne, todo homem deve criar um pequeno espaço só seu dentro de sua mente, onde residirá o essencial para sua existência, sem depender de bens materiais ou outras pessoas. Isso implica conhecer-se e poupar sempre um tempinho para refletir sobre a vida e as coisas que apreciamos.”O homem de bom entendimento nada perdeu, se tiver a si mesmo”.

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E aí, pronto para criar um pequeno espaço para a felicidade na sua vida? Conte pra gente quais são os seus pequenos prazeres?

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Leia também:
-Vale a pena largar tudo para ser feliz?
– A felicidade do trabalho manual
– Do que eu falo quando falo sobre “largar tudo”

E pra terminar, relembre os pequenos prazeres de Amélie Poulain