O que aprendi (e fiz) em um ano sabático

por Fred Di Giacomo

Quando era mais novo, sempre sonhava em poder ter um tempo para desacelerar o ritmo automático da vida e poder parar para pensar no que fazer em seguida. Tentar sair do esquema “estude-passe-no-vestibular-trabalhe-case-compre-aposente-morra”, saca?  Sonhava com isso, mas achava que era uma pequena utopia, já que sempre estava correndo atrás do prejuízo e não via condições de poder me dar a esse luxo. Então estudei muito para passar direto no vestibular em uma universidade pública, sem precisar gastar com mensalidade ou cursinho. E depois me esforcei para arrumar emprego logo depois de me formar. E no emprego ralei para ter uma promoção a cada dois anos durante seis anos. Meu lema era fazer muito e pensar o suficiente.

Aí, em 2013, como vocês já devem ter lido aqui, minha esposa me arrastou para uma viagem que acabou se tornando um ano sabático. A gente se planejou por uns 7 meses, fez contas, juntou dinheiro, pensou em plano B, C e D e foi.

O que é um ano sabático?
Breve parêntese: ano sabático (palavra derivada de shabat) é uma expressão que vem dos tempos da Bíblia. Para os judeus antigos, depois de cultivar a terra por  6 anos, você deveria deixá-la um ano descansando. Depois de 7 anos, também, os escravizados por dívidas eram liberados. E no sétimo dia da semana, as pessoas deveriam descansar, assim como Deus descansou no sétimo dia, após criar o universo. Um sabático, geralmente, acontece após 6 ou sete anos de trabalho e abrange uma pause de 6 meses ou um ano. Ele pode ser negociado com a empresa ou tocado pela pessoa independentemente. Geralmente ele não é usado apenas como férias gigantes, mas como um momento para refletir na sua vida pessoal e ou profissional.

Meu “sabático” durou um ano, mais ou menos, que eu passei morando em Berlim, mas também viajando por outros 8 países. Esse tempo foi excelente para refletir e, também, para fazer coisas que eu sempre tive vontade. Contei muito do que aprendi no sabático em posts aqui. Tive experiência excelentes como ver a primeira neve de inverno, tomar deliciosas cervejas alemãs e poder passar mais tempo ao lado da minha mulher. Também senti muitas saudades de amigos e da família e vi como eles eram importantes. Refleti muito sobre o Brasil, a felicidade e o trabalho. Abaixo resumi meus principais aprendizados/realizações, puxando para um lado mais prático e menos filosófico:

12 COISAS QUE APRENDI EM UM ANO SABÁTICO

1) O melhor lugar do mundo é aqui e agora

Fred no Treptower, em Berlim

Fred no Treptower, em Berlim

Bom, a primeira grande experiência foi justamente o “sabático em si”. Morar um ano fora do Brasil é uma experiência muito interessante tanto para conhecer novas culturas e jeitos de viver, quanto para valorizar nosso país. As coisas que mais senti falta do Brasil foram as pessoas e o clima. E quando falo em pessoas, falo tanto dos meus amigos e família, quanto dos anônimos que a gente tromba na rua. Falei bastante sobre isso aqui. E o clima do Brasil é excelente, depois de 3 meses abaixo de zero, você nunca mais reclama de uma chuvinha em São Paulo. 😀

2) Simplificar a vida nos libera mais tempo para fazer o que amamos
O carro da Karin deu lugar a duas bicicletas e transporte público. Passamos um ano sem televisão e bem distante do meu vídeo-game. Nós mesmos limpávamos a casa e passamos a cozinhar sempre, deixando para comer fora só em ocasiões especiais. Carne vermelha era uma iguaria rara. Nossa casa tinha pouquíssimos móveis e nossas malas serviam de armário. Fiz poucas compras e, quando comprei livros, a maioria foi para ler no Kindle. Voltamos com menos coisas do que trouxemos e mesmo quando voltamos para a loucura de São Paulo trouxe muito dessa simplicidade voluntária comigo e isso me fez muito mais feliz.

3) Viajar é uma das melhores formas de gastar seu dinheiroTemplo budista em Bangkok.

Templo budista em Bangkok.

Mochilei pela Alemanha, Itália, Portugal, Holanda, República Tcheca, Tailândia, Cambodja e Vietnã – com direito a uma pequena escala no Qtar. Foi uma experiência incrível conhecer dois continentes, muitas culturas, comidas e pessoas diferentes. As duas maiores viagens (de cerca de três semanas) foram pela Itália e o sudeste Asiático. A Tailândia foi especialmente foda e foi num templo budista lá que tive um dos momentos mais tranquilos e epifânicos da minha vida. Eu me sentia tão bem parado que não queria sair dali.

4) Trabalhar em algo que você acredita deixa sua vida mais fácil
Sim, foi durante meu sabático que criei o Glück Project, junto com a Karin, para investigar a felicidade. Através dele fiz diversas entrevistas, leituras e conheci ideias e pessoas interessantes. O site começou com um pico de 200 mil visitas em um mês, sua comunidade no facebook passou de 14.000 fãs e a repercussão ganhou a imprensa em uma pancada de veículos.

5) Pedalar é uma excelente forma de conhecer sua cidade – além de economizar e ser saudável

Fred com sua bicicleta em Berlim

Eu na primeira casa que moramos em Berlim, no bairro de Treptower

A bicicleta foi meu meio de transporte diário até os 18 anos quando saí da pequena cidade de Penápolis para fazer faculdade em Bauru. Devo ter pedalado uma ou outra vez nesse meio tempo, mas em Berlim redescobri a bike como meio de transporte e de esporte e passei a rodar diariamente com ela por todos os lados usando-a para fazer compras, visitar amigos e chegar a compromissos. Andar de bicicleta é um jeito fantástico de conhecer melhor a cidade e eu aproveitava o meio de transporte grátis para longos passeios por parques, canais, ruas e bairros da capital alemã só parando, vez o outra, para tomar uma deliciosa cervejona de 500 ml

6) O melhor jeito de praticar uma língua é falando
Quando era moleque não fui do tipo que faz curso de inglês, computação e natação. Fui botar o verbo to be em prática já grandinho e sempre me incomodei com minha (falta de) fluência. Em Berlim, passei um ano me virando na língua do Tio Sam; o que foi muito bom para minha autoconfiança e desenvoltura. Também aprendi alguns conceitos (muito básicos) de alemão, tipo “Entschuldigung, aber mein Deutsch ist ein scheisser”.

[+] O que aprendemos sobre ter uma vida simples ao fazer nossas malas para o Brasil.

7) Existem pessoas legais no mundo todo…
Essa foi uma parte muito legal de me jogar no mundo em um país onde não tinha uma “panelinha” de amigos. Conheci muita gente interessante e fiz amigos alemães, brasileiros, argentinos, franceses e outros que nem sabem da onde são. Alguns deles são bons amigos até hoje.

8) … e algumas dessas pessoas me inspiraram a criar e produzir coisas boas

Glück e Nômades Digitais em Berlim

Eu e a Karin com o pessoal do site “Nômades Digitais”, no vídeo que eles fizeram em Berlim

Conheci o cineasta Karin Anöuz na nossa festa de “boas vindas” na casa da tia da Karin e também conheci rapidamente os escritores JP Cuenca e Ana Paula Maia,  num jantar, depois deles participarem de um debate sobre literatura brasileira em Berlim. Nesse mesmo dia, pude conversar bastante com Ana Maria Gonçalves, autora do “Um defeito de cor” que falou sobre o processo de escrita e edição do seu livro de milhares de páginas e me contou como foi apadrinhada pelo Millôr Fernandes. Esta foi um das noites mais divertidas da minha vida e terminou com a gente tomando um porre com o Reinaldo Moraes, autor de “Tanto Faz” e “Pornopopéia” .  Em Berlim também conheci o casal Eme e Jaque que criaram os sites Hypeness, Nômades Digitais e Casal sem Vergonha e passei a me corresponder com a Fê Neute do Feliz com a vida. Isso, fora as entrevistas que fizemos pela internet com gente como a Monja Cohen e o Leonardo Boff.

9) Livros mudam sua forma de ver o universo, a vida e tudo mais
Procurei estudar os clássicos; lendo filosofia, sociologia, ciência e psicologia em livros de Platão, Maquiavel, Aristóteles, Stephen Hawking, Gilberto Freyere, Freud,  Laozi (Tao Te Ching), Sérgio Buarque de Holanda, Sponville, Steven Pinker, Montaigne e Hobbes. Essa parte foi realmente importante para mim e para as pesquisas e textos que publiquei aqui. Foram estudos que mudaram meu jeito de pensar a violência, felicidade e o trabalho, além da minha forma de encarar a vida.

No tempo livre que tinha, também aproveitei para assistir uma listona de “filmes para ver antes de morrer” e me iniciar no mundo viciante das séries com “Breaking Bad”, “Girls” e outros programas muito legais.

10) Os melhores cursos do mundo estão disponíveis na internet
Para não ficar 100% parado nos meus 6 primeiros meses lá, peguei uns frilinhas todos ligados à jornalismo multimídia, mas o mais legal foi fazer um curso online na Universidade de Postdam sobre o futuro da narrativa. Chama “The Future of Storytelling” e é muito legal!

11) Experimente trabalhar com coisas que você nunca fez na vida
A ideia do sabático é ficar sem trabalhar, mas depois de 6 meses mais paradão, fiz uma pesquisa de mercado para um banco, tive um poema meu vendido para um livro didático e também toquei a edição e redação de um livro sobre a nova cozinha alemã para o mercado brasileiro.

12) Faça! (Eu até terminei de escrever um livro)

Ahorn, café de Berlim

Ahorn, meu café preferido para escrever em Berlim

Em Berlim, escrevi um romance e um roteiro de cinema. Ainda não fiz nada com esses dois “projetos”, mas foi bem legal aproveitar o tempo que tinha para me dedicar a escrever, que é minha grande paixão. Lá deu para escrever vários artigos par ao Glück e ainda terminar meu romance “As 24 horas de Raul” e o roteiro de um longa-metragem chamado “Guido deve morrer”. Essas duas histórias se entrelaçam e tem a ver com alguns personagens que aparecem nesses contos aqui e aqui. Também escrevi três letras para a banda de Bolso.

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