O que faz uma cidade feliz

Postado em 5 de agosto de 2014

Sair de Berlim no auge do verão, com o calor batendo os 35 graus, foi duro. Foi duro porque é difícil lembrar que nem sempre o tempo é agradável assim na Alemanha – a grande maioria dos dias é fria e cinza. Mas mais duro ainda foi me despedir da relação especial que desenvolvi com a cidade. Berlim é uma companheira generosa, flexível e carinhosa – melhor que muito namorado por aí. Se você teve um dia ruim, era só andar 100 metros para encontrar o parque mais próximo e relaxar. Se estava cansado do cinza da cidade, um metrô (sim, metrô) levava você até uma floresta com um lago limpo para nadar. Se estava sem dinheiro para ir para o bar, era só levar as cervejas que estavam na geladeira para a área verde mais próxima e relaxar. Já chegar em Sao Paulo foi menos… amoroso, digamos. Já no primeiro dia, me vi presa num carro na Marginal sob chuva cercada por imensos viadutos e nem uma só árvorezinha ao redor. Chorei um pouco abraçada ao volante.

Percebi naquela hora que grande parte do que torna uma cidade carinhosa surge nas áreas em que as pessoas não fazem nada aparentemente evidente. Dentro de prédios pessoas se abrigam ou trabalham. Nas ruas, os carros vão de um lugar para o outro. Por cima de pontes, pessoas ultrapassam rios ou avenidas. Ja dentro de parques ou praças, os habitantes de uma cidade não precisam fazer nada: não produzem nem gastam dinheiro, não se movimentam e (idealmente) não moram lá. Apenas descansam, relaxam e cuidam de algo geralmente ignorado no dia-a-dia, a sanidade mental. Fiz o exercício cruel de comparar as áreas verdes das minhas últimas duas casas no Google Maps apenas para constatar o óbvio: em Sao Paulo, os espaços verdes não têm espaço. Podia estar aí a resposta para meu choro abraçado ao volante.

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Mas como nem tudo é simples assim, passei um dia em Sao Paulo e logo fui visitar os sogros na pequena Penápolis, uma cidade sem prédios, nem viadutos, nem transito. Por lá, há diversas praças e áreas verdes espalhadas, e muitas árvores ainda acompanham as ruas. Mas não havia ninguem nelas, ninguém descansando, lendo um livro ou um fazendo piquenique sequer. Nada. Ou seja, não bastava ter um parque – ele tem de ser usado pela população.

Logo me lembrei de uma palestra da urbanista Amanda Burden, responsável por importantes áreas públicas de Nova York, como o High Line (uma antiga linha de trem que virou parque suspenso) e as orlas do sul da ilha de Manhattan. Durante anos, ela estudou o que fazia um parque ser utilizado pela população e o que fazia outro ser ignorado. Burden visitou dezenas de bairros e comunidades para entender o que as pessoas queriam em sua vizinhança. A conclusão a que chegou parece óbvia: mais importante do que um bom design, uma boa área verde respeita a humanidade das pessoas. Um parque tem de ter grandes áreas na sombra para que a população se proteja, tem de ter bancos para descanso cujas alturas sejam confortáveis, a vista deve ser aprazíveis e as pessoas devem se sentir seguras dentro dele. Devem também estar próximos do trabalho ou das moradias, para que possam ser incluídos no dia-a-dia. Um parque só é tão bom quanto o sentimento que ele desperta nas pessoas.

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A farofa é linda

Pensei então em outra característica estranha dos parques brasileiros. Sinto que há em São Paulo, e em outras cidades com uma grande classe alta, um certo ressentimento contra diversões gratuitas ou de baixo custo. O entretenimento deve ser dentro de um ar condicionado, com valet e manobrista e custar 200 reais pro casal. “Fazer farofa”, por exemplo, é um termo pejorativo. É feio levar um prato coberto com filme plástico e comer no parque do Ibirapuera. Lá na Alemanha ninguém olhava estranho se eu levasse uma tupperware de salada pra beira do canal que passava perto de casa e comesse sentada no chão.  Também ninguém reparava se alguém fazia churrasco no meio da cidade – duas salsichas pra cada, umas asinhas de frango assadas, numa churrasqueira de alumínio portátil e descartável que custa 20 reais no mercado. (No Brasil, isso seria mais do que feio – é ilegal. Em muitos parques da cidade como o Villa Lobos e o Horto Florestal, os churrascos são proibidos.) Aqui no Brasil, quando alguém leva um prato para comer embrulhado no alumínio, é taxado de farofeiro. Não sei vocês, mas acho a farofa a coisa mais linda que existe. Assim como a comida de rua, ou qualquer outra atividade que obrigue as pessoas a passarem mais tempo em espaços abertos e públicos, ocupando a cidade. Penso que transformar a farofa em algo legal e descolado é essencial para deixar os parques de qualquer lugar mais cheios. Uma vez cheios, fica mais difícil derrubá-los e substitui-los por coisas mais “funcionais” como prédios ou avenidas, que é a lógica que tem sido vista em São Paulo ou outras capitais brasileiras. E a cidade se torna melhor.

Amanda Burden explica por que devemos ocupar as áreas verdes da cidade – e como elas contribuem para torná-la melhor e mais feliz. “Espaços públicos sempre precisam de vigilantes que briguem para que eles sejam utilizados pelo público, que os desenhem de maneira que sejam para todos e que garantam que não sejam violados, invadidos, abandonados ou ignorados. Espaços públicos têm poder. Não estou falando apenas sobre o número de pessoas que se aproveitam deles, é sobre o número ainda maior de pessoas que se sentem melhor em suas cidades só de saber que eles existem. Espaços públicos mudam a maneira como você vive em uma cidade, ajudam a decidir se você quer viver nela ou não, e os espaços públicos são um dos motivos mais importantes pelos quais as pessoas ficam em uma cidade”. Como pretendo morar aqui, em São Paulo, não vejo a hora de frequentar as áreas públicas paulistanas. Já estou preparando a marmita.

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