O que podemos aprender sobre felicidade e a vida com os aborígenes da Austrália?

O texto de hoje foi escrito pela jornalista Anita Martins, uma das responsáveis pelo projeto Originals. Esse projeto procura desenvolver uma série de vídeos que vai difundir a sabedoria e a história dos primeiros habitantes da terra. A principal pergunta que querem responder é “O que podemos aprender com os indígenas?”  A primeira edição será sobre os aborígenes da Austrália. Anita e seus amigos precisam arrecadar ainda 16 mil reais para colocar o projeto rodando. Você pode contribuir com essa ideia doando no site Catarse. As doações começam em R $25. 😀

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por Anita Martins

Assista ao vídeo que explica o projeto Originals

Eu havia morado na Austrália em 2009 e tentado entender um pouco os aborígenes. Tinha ido a museus, lido sobre suas tradições, apreciado as famosas pinturas com pontos em galerias de arte e até visitado o Uluru, pedra sagrada encrustada no centro do país. Mas o envolvimento que buscava não aconteceu. Muito porque a maioria dos aborígenes que conheci sofriam de alcoolismo, o que os fechava para qualquer interação. Parti de lá para alguns meses de viagem pelo Sudeste Asiático frustrada por não tê-los compreendido, mas com outros objetivos em mente. Queria resgatar minha fé no amor. Entre mergulhos profundos em mares desconhecidos, em visões de mundo de uma outra civilização e em mim mesma, reencontrei o que havia perdido. E, assim que voltei para o Brasil, recebi a prova de que estava no caminho certo: conheci meu companheiro de vida, o fotojornalista Edu Cavalcanti, que estava na mesma busca. Em três meses, morávamos sob o mesmo teto; em um ano, estávamos casados; em dois anos, percebemos que era hora de desbravar fronteiras juntos.

Anita e Edu na van que usaram para desbravar a Oceania

Anita e Edu na van que usaram para desbravar a Oceania

Com Edu querendo estudar inglês, em agosto de 2012, viemos parar na Austrália de novo, onde já tínhamos amigos que são como família. Imediatamente, Edu sentiu uma identificação com os aborígenes e quis entrar em contato com eles. Não o apoiei muito por causa de minhas tentativas sem sucesso. Mas Edu manteve o intuito em mente. De presente, ganhou de uma amiga viajante o contato de uma líder aborígene em Broome, para onde estávamos indo viajar em nosso último mês no país, já abril deste ano.

Abraço aborígene

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Foto: Edu Cavalcanti

Chegando em Broome, fizemos contato com Lorna Kelly. E, já no primeiro encontro, ela me abraçou e disse “seja bem-vinda à sua casa, irmã”, fazendo meus olhos marejarem. Foram três dias intensos juntos, eu, ela, Edu e outros dois líderes aborígenes, Owen Torres e Roy Hunter. Produzimos um vídeo, que está em fase de finalização, sobre problemas enfrentados pela população aborígene da região, muitos advindos da imposição da cultura ocidental após a invasão inglesa.

Lorna, Owen e Roy nos levaram a lugares sagrados e nos convidaram a ir às suas casas, mesmo sem nos conhecer direito. E nos mostraram que confiança e hospitalidade são essenciais em sua cultura. “Esse é o jeito como a gente se relaciona”, disse Owen ao receber meus agradecimentos.

Canguru na Austrália. Foto: Edu Cavalcanti

Canguru na Austrália. Foto: Edu Cavalcanti

Nesses três dias, também aprendemos que, para os aborígenes, a felicidade das pessoas depende da felicidade da terra. Isso porque compreendem que tudo está conectado e que animais e plantas são como parentes.

Roy ainda nos contou o que o faz feliz. “Ouvir as músicas do meu povo, ouvir os idosos cantando.” Isso porque todo o conhecimento e toda a história aborígene são guardados em canções, que podem ser comparadas aos livros na nossa cultura.

Com o coração apertado por ver essas músicas desaparecerem, Roy nos perguntou uma dezena de vezes quando iríamos voltar com tempo, pois queria nos mostrar e ensinar mais. Lorna também nos convidou a retornar, até porque, somente no último dia, tivemos uma conversa longa sobre sua história, e percebemos que ela precisava ser contada.

Quando tinha oito anos, Lorna estava acostumada a ser pintada com cal, tanto pela avó, para participar de cerimônias, quanto pela mãe, para esconder sua cor de pele e evitar que fosse levada pelo governo australiano, o que não adiantou. Como outros 50 mil aborígenes, Lorna foi criada em instituição religiosa e faz parte da chamada Geração Roubada, consequência de uma operação governamental que separava crianças aparentemente mestiças de suas famílias no intuito de enfraquecer, e talvez até destruir a cultura aborígene.

Pensando que a família toda havia morrido, Lorna estudou, trabalhou, casou, teve filhos, comprou uma casa e conquistou uma vida estável. Porém, aos 40 anos, ouviu um chamado da terra para retornar. Voltou, com família que havia constituído, e viveu por meses em um acampamento em uma floresta onde sua bisavó morava. Ela conta que, naturalmente, muitos conhecimentos aborígenes, incluindo línguas e técnicas de coleta e caça, começaram a reaparecer.

A espiritualidade de Lorna se reavivou. Cangurus, lagartos, cobras e pássaros sentiram o movimento interno dela e mudaram seus ninhos para perto do acampamento. Através de experiências reveladoras, Lorna se reconectou com a terra e virou uma defensora da cultura de seu povo, estabelecendo residência e uma organização social em Broome.

Não tínhamos como não voltar para retratar esse símbolo de reaproximação do mundo natural que acreditamos que o ser humano tanto precisa para se sentir inteiro. Lorna, Owen e Roy nos acompanharam até o aeroporto e acenaram para nós até entrarmos no avião em direção à Nova Zelândia.

Sincronicidade

Os integrantes do coletivo Chama que estão desenvolvendo o projeto Originals

Os integrantes do coletivo Chama que estão desenvolvendo o projeto Originals. Foto: Alex Cavalcanti.

Ao mesmo tempo, no Brasil, sem saber do que estava acontecendo do outro lado do mundo, as jornalistas Camila Stahëlin e Ana Paula Berlinga participavam do curso de aprofundamento do Dragon Dreaming, metodologia para criação de projetos criada pelo australiano John Croft com base na sabedoria aborígene, na Ecologia Profunda e na Teoria dos Sistemas Vivos.

Quando eu e Camila, amigas há 13 anos, conversamos via Skype, nos demos conta de que embarcaríamos para um projeto conjunto na Austrália. Uma semana depois, outra amiga em comum, a historiadora Luísa Tombini Wittmann, que vem estudando populações indígenas desde 2001, foi assistir a uma palestra de um indígena brasileiro, mas ele não pôde comparecer e foi substituído por um aborígene.

Magicamente, todos os integrantes do atual Chama Coletivo Multimídia foram se sentindo chamados para um sonho que, de alguma forma, já era de todos e foi construído por todos. Passamos, então, a fazer reuniões semanais pela internet e desenvolvemos o projeto Originals, que é uma série de vídeos sobre povos nativos de diferentes lugares do mundo. A primeira edição, por tudo que contei acima e muitas outras reflexões, será na Austrália. Mas Brasil e Nova Zelândia serão feitos na sequência.

Originals, ação

Eu e Edu acabamos de chegar novamente à Austrália. Estou, inclusive, escrevendo este texto do aeroporto. Viemos de oito meses na Nova Zelândia, onde moramos em uma van, trabalhamos nos mais variados empregos, viajamos e, acima de tudo, aprendemos a viver de forma simples, a precisar de pouco, a ver felicidade em um pão com geleia, em um passarinho que se aproxima, em uma caminhada na natureza.

Os outros seis integrantes do Chama chegam aqui no início de janeiro, quando vamos começar as gravações. Por enquanto, nosso foco está na campanha de financiamento coletivo que estamos fazendo no Catarse. Precisamos arrecadar, no mínimo, R$ 26 mil. Estamos próximos de R$ 10 mil.

Ao mesmo tempo em que nos surpreendemos com a disposição de tanta gente em ajudar, também nos frustramos com o fato das pessoas ainda não parecerem acostumadas com esse conceito no Brasil. Se não conseguirmos R$ 26 mil, não recebemos nada, o dinheiro volta para os doadores. E aí o projeto vai sofrer, claro. Mas estamos confiantes, e trabalhando duro!

Se você quiser contribuir com nossa iniciativa, acesse o site da campanha, escolha uma das recompensas que bolamos carinhosamente e faça uma doação. Também espalhe-a para sua rede de contatos, ajudando a aumentar o apoio ao nosso esforço por um mundo mais justo, mais respeitoso e mais equilibrado.

Todas as imagens desse post são do fotojornalista Edu Cavalcanti, exceto quando indicado.

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