Para viver leve

Postado em 15 de julho de 2014

Por Karin Hueck

Faltam oito dias para o fim da temporada berlinense e o clima aqui em casa é de nostalgia/ansiedade/empolgação, com uma lista enorme de afazeres e pequenas montanhas de bagunça espalhadas por todos os cômodos esperando organização. Temos uma única meta para essa última etapa. Voltar com a mesma quantidade de coisas que viemos: duas malas (cada um, porque ninguém é de ferro, néam).

Quando nos mudamos do Brasil, resolvemos guardar tudo que tínhamos porque o plano era voltar para São Paulo depois de seis meses um ano. A ideia era não ter que recomeçar a vida do zero. Fazia sentido, certo? Fazia. O que não fez sentido é o que aconteceu na hora de encaixotar o lar. À medida que ia abrindo os armários da nossa ex-casa para fazer a mudança, ia encontrando prateleiras e gavetas cheias de coisas. Coisas de vestir. Coisas de enfeitar. Coisas de ler. Coisas que eu não sabia de onde tinham surgido. Vi que minha vida até então havia sido uma sucessão de acúmulo de objetos dos quais eu não tinha necessidade. Me senti mal com a quantidade de roupas que eu tinha – e olha que não sou nenhuma Cher Horowitz. Me martirizei com os vidros de esmalte velhos que trouxe para Alemanha e nunca usei. E chorei ao ajudar a carregar as incontáveis e pesadíssimas caixas de livros porque, admito, sou acumuladora de livros e não consigo me desfazer deles.

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Em tempos de produtos baratos fabricados na China e crédito acessível para todos, é raro encontrar alguém que viva apenas com aquilo que é necessário. A nossa própria natureza, aliás, favorece o hábito de acumular coisas: nossos cérebros foram desenvolvidos em épocas em que os recursos eram escassos, e aprendemos a juntar e guardar tudo que estiver ao nosso alcance caso tempos difíceis se aproximem. Mas há alguns seres iluminados que conseguem controlar seus impulsos, viver com menos – e sobreviver para contar a história. São pessoas que vendem tudo que possuem e resolvem viajar o mundo numa moto, por exemplo. Ou este fotógrafo, que possui apenas 100 objetos – incluindo nessa conta cuecas e meias. Para ele, é importante que cada um dos seus bens seja produzido por um artista, no sentido mais amplo da palavra: mais vale comprar uma roupa feita por uma costureira à mão do que 10 peças na Forever 21; melhor tomar uma xícara de café plantado numa fazenda perto de casa do que encher a pança de capuccino do Starbucks. Sua teoria é bem sedutora.

Mas talvez o caso mais emblemático seja o do americano Graham Hill que, ainda nos anos 90, ganhou rios de dinheiro com uma bem-sucedida empresa de internet. Com menos de 30 anos, comprou uma casa de quatro andares e todos os bens de consumo que sempre sonhou. Mas sua vida se tornou complicada: cheia de contas para pagar, gadgets para mandar para o conserto e propriedades para restaurar. Quando se apaixonou por uma espanhola e decidiu se mudar para Barcelona, Hill também decidiu viver com menos. E nunca mais voltou para o consumo. Hoje, mora num apartamento de 39 m2, dorme numa cama dobrável na parede e possui apenas seis camisetas. Abriu uma empresa que se chama “vida editada” (lifeedited.com), que ajuda pessoas a gastar menos “coisas, espaço e energia” e dá palestras, no qual defende que uma vida minimalista é o caminho para a felicidade. Ponto para ele.

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Sem querer querendo, acabei seguindo um pouco a lógica dessas iniciativas no último ano. A casa em que vivemos aqui ficou bem vazia o tempo inteiro em que moramos em Berlim. Quatro malas – as mesmas que estamos levando de volta para o Brasil – serviram de armário para nossas bugigangas e três ficaram sempre vazias. Uma cômoda pequena e duas araras de metal comportaram todas as nossas roupas – e a regra era clara: só vale comprar uma peça, se outra for doada. Não trouxemos para casa nenhum objeto que não tivesse utilidade evidente, o que quer dizer que as paredes ficaram vazias, os chãos sem tapetes e as lâmpadas sem lustres. As bicicletas que compramos já foram repassadas. Conseguimos até mesmo a façanha de comprar uma vitrola, que em um mês já estava com defeito, e ganhar o dinheiro de volta. O acúmulo aqui ficou no zero a zero. Só assim as coisas que realmente importam – as experiências, as viagens, as lembranças – puderam ganhar de lavada.

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As ilustrações minimalistas e cheias de piadinhas são do artista Jaco Haasbroek.
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