Por que Berlim?

Postado em 21 de abril de 2014

por Fred Di Giacomo

Na vida, às vezes temos que dizer sim para as oportunidades que surgem. Mesmo que não saibamos exatamente aonde aquilo vai dar. Quando a Karin, minha mulher, veio com a ideia de pedirmos demissão e passarmos um tempo em Berlim, eu disse sim. A sensação que tive foi a de – repentinamente – perceber que a vida era um enorme corredor cheio de portas prontas para serem abertas. E eu não fazia a menor ideia do que iria encontrar atrás delas.
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“Por que Berlim?” “O que a cidade tem a ver com a felicidade?” “Por que vocês resolveram mudar pra capital da Alemanha e não para uma praia no Brasil ou para Nova York?” “Afinal de contas, Berlim tem um inverno que bate nos -15 graus, o alemão é a língua do diabo e ninguém merece comer repolho azedo…” Ouvi muitas dessas perguntas dezenas de vezes desde que chegamos aqui. Muita gente me pediu dicas sobre a cidade também. Vou tentar responder tudo nesse post.

Primeiro, acho legal dizer que Berlim e a felicidade não são duas partes inseparáveis do projeto Glück. Nós não acreditamos que você só pode ser feliz mudando do Brasil ou vivendo numa cidade específica. Nem que viajar é a resposta secreta para toda infelicidade do mundo. Mas lá atrás, em janeiro de 2013, a Karin – que tem família alemã e foi criada falando a língua – começou a lembrar do sonho antigo que tinha de passar um tempo no país. Mais que isso; a bisavó da Karin era judia na Alemanha nazista. O vô dela sobreviveu a guerra sem saber disso. Familiares foram deportados. Havia todo um pedaço dela que ficara para trás quando o avô foi tentar a sorte no Brasil. “Viajar é fatal para o preconceito, a intolerância e as ideias limitadas”, escreveu Mark Twain. Eu também queria ter a experiência de morar fora do país. Queria conhecer outra cultura, formas de pensar diferentes, ver com meus olhos como era o tal “primeiro mundo” que todo mundo usava como exemplo no Brasil quando queria defender alguma teoria sobre criminalidade, desenvolvimento ou urbanismo. “No primeiro mundo não é assim!”, gritavam em bares, jornais e comentários de internet. “Se não é assim, quero descobrir como é, então”.

“Por que Berlim é a cidade mais legal do mundo?”, vídeo do projeto Sem Fio

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Berlim é uma pequena fênix no meio da Europa. Era vanguarda intelectual e científica no começo do século XX, antes de ser atropelada pelo nazismo e a segunda guerra mundial. Foi bombardeada, ocupada pelos aliados e dividida entre um lado comunista e outro capitalista. O lado capitalista de Berlim ficava isolado no meio da Alemanha comunista. Por isso, nenhum alemão ocidental queria viver aqui. O governo dava incentivos financeiros e os homens que moravam na cidade não precisavam prestar o serviço militar, o que atraía para as ruas berlinenses estudantes, punks, alternativos e gente como David Bowie e Iggy Pop (que compôs seu hit “The Passenger” na cidade). Como Berlim estava meio abandonada, muitos prédios e galpões foram ocupados e transformados em moradias comunitárias, galerias de arte e bares. Quando o muro caiu, a metrópole renasceu como a capital da Alemanha unificada. Novos investimentos foram reconstruindo a cidade, mas os aluguéis continuavam baratos. Essa combinação de  preços baixos com uma forte cultura alternativa atraiu moderninhos do mundo todo, o que bombou ainda mais a cena das artes e das start ups – cheia de músicos, empreendedores, cineastas, programadores e designers. (O lado ruim desse fluxo de gente foi uma inflacionada no preço dos imóveis.)

Karin ocupando os parques de Berlim :-)

Karin ocupando os parques de Berlim 🙂

“Eu apenas estou aqui. Acho que é isso que a maioria das pessoas faz na cidade”, foi a resposta ao “O que você faz faz em Berlim?”, dada por uma típica sueca de olhos claros e cabelos loiros que estava conversando conosco num piquenique. Ela já tinha dado aulas, estudado cultura japonesa, rodado o mundo e agora se mudara para Berlim. Como ela, muitos estrangeiros querem apenas viver o “clima da cidade”, especialmente no verão quando as ruas são tomadas por bicicletas e os parques e lagos se transformam em áreas de lazer. (Teve até um aeroporto abandonado que a população ocupou e transformou em pista de esportes com vento, horta e área pra churrasco.) Muitos imigrantes também vieram ralar na cidade que se tornou multiétnica com milhares de turcos, italianos, russos, espanhóis, vietnamitas, nigerianos – e mais esses dois brasileiros que lhes escrevem.

Berlim continua relativamente barata comparada com as outras capitais de primeiro mundo e com grandes cidades brasileiras como Rio e São Paulo. E ela tem a infra-estrutura de uma cidade desenvolvida. O transporte público funciona, a cidade é plana e tem ciclovias, a criminalidade é baixíssima, os costumes são liberais e você encontra tudo que precisa no quesito “compras e serviços”. Quando a Karin sai na rua, ninguém fica mexendo com ela e ela não precisa escolher que roupa vestir por medo. E você pode arrumar empregos e frilas falando inglês. True story: um amigo brasileito é editor de arte em uma agência de publicidade e outro é editor numa agência de notícias russa . E os dois não falam alemão! (Ah, algumas vagas até valorizam seu português, como essa aquipor exemplo.)

“Pô, beleza, Fred, desse jeito deu vontade de passar um tempo aí, mas e o que Berlim tem de ruim?”

Os invernos de Berlim são frios e escuros

O inverno está chegando (e ele é frio e escuro).

Obviamente, Berlim não é o paraíso – nenhum lugar do mundo é. E nossa intenção nunca foi morar aqui para sempre nem convencer ninguém a fazê-lo. Na verdade, nossa meta era ficar seis meses, mas acabamos esticando para um ano para aproveitar a primavera e o comecinho do verão. Aliás, pra ficar na Alemanha por mais de três meses, você precisa de um emprego ou de matrícula em uma instituição de ensino. Passaporte europeu ou ser casado com alemão também garante a permanência. Ou seja, não dá para vir pra cá sem lenço nem documento. Por exemplo, um dos nossos amigos conseguiu visto (tirado em Berlim mesmo) por estar matriculado num curso de alemão, língua que ele queria aprender para entrar num doutorado. E esse ano conhecemos muita gente que está morando na cidade através do programa “Ciência sem Fronteiras”, que além de bolsas para graduação e pós, também inclui seis meses de alemão intensivo. Mas é bom ficar ligado nos contratos de emprego locais, especialmente se você não domina o idioma. Recebemos o relato de um leitor do Glück que teve problemas kafkianos trabalhando num hotel local, por ter assinado um contrato que não conseguiu compreender.

Outros fatores que podem assustar os brasileiros: o clima, a cultura e a comida. No outono já esfria bastante (temperaturas próximas de 1 grau) e os dias ficam bem curtos – escurece por volta das 15:30 perto do Natal. E no inverno a temperatura cai abaixo de zero. Os alemães são muito educados, mas mais fechados e silenciosos. Para fazer um amigo local demora. Ah, tem o idioma, claro! Se você quer vir pra ficar, vai ter que encarar a complexa língua de Nietzsche e Hegel. Entre as escolas locais, a escolha mais tradicional costuma ser a Volkshochsule que oferece um bom custo-benefício.
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Foi por tudo isso que escolhemos Berlim. E, apesar dos perrengues que já relatei aqui, que bom que eu disse “sim” pra proposta maluca da Karin! Pra encerrar, ficamos com “Berlin”, musiquinha de Lou Reed:

“We were in a small cafe/you could hear the guitars play/It was very nice/it was paradise.” (“Nós estávamos num pequeno café/você podia ouvir as guitarras tocando/Era muito legal/Era o paraíso.)
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Todas fotos desse post foram tiradas com um celular por Fred & Gabriel Di Giacomo.



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