Por que você deve acreditar em mitos

Este não é um post religioso. Em vez disso, é um texto que fala sobre as mais importantes questões humanas – quem somos, de onde viemos, para onde vamos – do ponto de vista histórico e filosófico. Quem o escreveu foi a inglesa Karen Armstrong, uma ex-freira que abandonou o convento para estudar a história das religiões, em um pequenino livro sem tradução no Brasil: “Uma Breve História do Mito“. Esta é a introdução traduzida e adaptada, um resumo que mostra de forma sensível por que a mitologia e a crença em deuses é importante para o desenvolvimento humano. Mais do que isso: mostra o que perdemos quando deixamos de acreditar em mitos e rituais, como nossos antepassados – e por que ainda deveríamos fazê-lo.

gluck2_final

Seres humanos sempre foram criadores de mitos. Desde um tempo muito remoto, humanos se diferenciam por sua habilidade de ter ideias que iam além de suas experiências cotidianas. Somos criaturas que buscam sentido. Cachorros não agonizam pensando na sua condição canina, nem se preocupam com as batalhas que outros cachorros do outro lado do mundo podem estar travando. Já nós humanos entramos facilmente em desespero, e desde o início inventamos histórias que situam nossas vidas em um cenário maior, que revelam um padrão escondido, e que nos dão uma noção de que, contra todas as evidências caóticas e depressivas que indicam o contrário, a vida tem, sim, sentido e valor.

Os túmulos dos nossos antepassados pré-históricos revelam cinco dados importantes sobre mitologia. Primeiro, que ela quase sempre se baseia na experiência da morte e no medo de extinção. Segundo, diversos indícios mostram que os enterros eram acompanhados por um sacrifício animal. A mitologia costuma ser inseparável do ritual. Muitos mitos não fazem sentido longe do drama litúrgico que os trouxe à vida, e são incompreensíveis em um cenário laico. Terceiro, os mitos antigos vieram à tona ao lado de um túmulo, no limite da vida humana. Os mitos mais poderosos são sobre extremidades; eles nos forçam a ir além das nossas experiências. Há momentos em que todos nós, de uma maneira ou de outra, temos de ir a lugares que nunca vimos antes, e fazer coisas que nunca fizemos. O mito fala sobre o desconhecido; sobre aquilo que nós inicialmente não temos palavras para definir. Ele olha para o centro de um imenso silêncio. Quarto, o mito não é apenas uma história divertida. Ele mostra como devemos nos comportar. Nos túmulos neandertais, por exemplo, o corpo geralmente é colocado em posição fetal, como se fosse renascer. A mitologia nos coloca na postura espiritual e psicológica correta para que entremos em ação – neste mundo ou no outro. Em quinto lugar, toda mitologia fala de outro plano que existe ao lado do nosso, e que de alguma maneira o sustenta. A crença nesse mundo invisível, mas mais poderosos, às vezes chamado de mundo dos deuses, é um tema básico da mitologia. De acordo com essa crença, tudo que acontece neste mundo, tudo que podemos ver e ouvir aqui embaixo, tem sua contrapartida na esfera divina, que é mais rica, mais forte e mais persistente do que a nossa. Apenas participando nessa vida divina que os seres humanos, mortais e frágeis, alcançam todos os seus potenciais.

glcuk3_final

Na nossa cultura científica, geralmente temos noções simplistas do divino. No mundo antigo, os “deuses” raramente eram considerados seres supernaturais com personalidades, morando em uma existência metafísica totalmente separada. A mitologia não era sobre teologia, no sentido moderno, mas sobre experiências humanas. As pessoas pensavam que deuses, humanos, animais e a natureza estavam inerentemente ligados uns aos outros, que viviam sob as mesmas leis, e eram feitos da mesma substância divina. Inicialmente, não havia um abismo que separava o mundo dos deuses do mundo dos homens e mulheres. Quando as pessoas falavam sobre o divino, geralmente falavam sobre algum aspecto do mundano. A própria experiência dos deuses era inseparável da de uma tempestade, um oceano, um rio ou daquelas fortes emoções humanas – amor, raiva ou paixão – que parecem erguer momentaneamente homens e mulheres para um outro plano de existência, de maneira que enxergassem o mundo com novos olhos.

Assim, a mitologia era organizada para nos ajudar a lidar com a problemática essência humana. Ela ajudava pessoas a encontrar o seu lugar no mundo e a sua verdadeira orientação. Todos nós queremos saber de onde viemos, mas como nossas origens estão perdidas na neblina da pré-história, criamos mitos sobre ancestrais que não são históricos, mas que ajudam a explicar atitudes vigentes sobre nosso ambiente, nossos vizinhos e nossos costumes. Também queremos saber para onde estamos indo, então inventamos histórias que falam de uma existência póstuma – apesar de nem todos os mitos vislumbrarem a imortalidade para os seres humanos. E queremos também explicar aqueles momentos sublimes, quando parece que estamos sendo transportados para além das nossas preocupações comuns. Os deuses ajudavam a explicar a experiência da transcendência. Ela expressa nosso sentido inato de que há mais coisas entre os seres humanos e o mundo material do que conseguimos enxergar.

Hoje em dia, a palavra “mito” é usada para descrever algo que simplesmente não é verdade. Um político acusado de um crime vai dizer que a acusação é um “mito”, que nunca aconteceu. Quando ouvimos sobre deuses que caminhavam sobre a terra, sobre homens que se erguiam das tumbas, ou sobre mares que milagrosamente se partiam para deixar um povo fugir de seus inimigos, descartamos essas histórias como inacreditáveis e obviamente mentiras. Desde o século 18, desenvolvemos um olhar científico da história; estamos principalmente interessados em entender o que realmente aconteceu. Mas no mundo pré-moderno, quando as pessoas escreviam sobre o passado, elas estavam mais preocupadas com o significado daquele evento. Um mito era algo que de alguma forma havia acontecido uma vez, mas que também acontecia o tempo todo. Por causa da nossa visão estritamente cronológica da história, não temos uma palavra que defina essa situação, mas a mitologia é uma forma de arte que aponta para além da história, para o que é atemporal na existência humana, e que nos ajuda a ir além do fluxo caótico de eventos aleatórios para enxergar o cerne da realidade.

gluck1_final

A experiência da transcendência sempre fez parte da experiência humana. Procuramos momentos de êxtase, quando nos sentimos profundamente tocados e esquecemos por um momento o mundo ao nosso redor. Nessas horas, parece que estamos vivendo mais intensamente do que de costume, entregando tudo que tempos, e preenchendo totalmente a nossa humanidade. A religião foi uma das maneiras mais tradicionais de chegar ao êxtase, mas se as pessoas não o encontram mais em templos, sinagogas, igrejas ou mesquitas, elas o procuram em outras partes: na arte, na música, na poesia, no rock, na dança, nas drogas, no sexo ou no esporte. Assim como na poesia e na música, a mitologia nos desperta para o arrebatamento, mesmo diante da morte e do desespero que possamos sentir diante da possibilidade de extinção. Se um mito deixa de fazer isso, ele morreu e perdeu sua utilidade.

Por isso é um erro considerar o mito como um modo inferior de pensamento, que pode ser deixado de lado quando os homens alcançaram a idade da razão. A mitologia não é uma tentativa de narrar a história e não diz que seus contos são fatos objetivos. Assim como um romance, uma ópera ou um balé, o mito é faz-de-conta; é um jogo que transforma nosso trágico e fragmentado mundo, e nos ajuda a enxergar novas possibilidades perguntando “e se?” – uma pergunta que também gerou as descobertas mais importantes da filosofia, da ciência e da tecnologia.

Assim, o mito é verdadeiro porque é efetivo, não porque nos dá informação factual. Se, no entanto, ele não nos der nenhum insight novo para o significado mais profundo da vida, ele falhou. Se o mito funcionar, ou seja, se ele nos forçar a mudar nossas mentes e corações, nos enche de esperanças, e nos impulsiona para que vivamos mais plenamente, é um mito válido. A mitologia só nos transforma se seguirmos suas diretrizes. Um mito é essencialmente um guia; ele nos diz o que fazer para levar uma vida mais completa. Se não o aplicarmos à nossa situação e tornarmos o mito uma realidade nas nossas vidas, ele vai continuar sendo tão incompreensível e distante como as regras de um jogo de tabuleiro, que muitas vezes parecem confusas e entediantes se não as conhecemos.

gluck4_final

A nossa alienação moderna dos mitos é algo sem precendentes. No mundo pré-moderno, a mitologia era indispensável. Ela não só ajudava as pessoas a tirar sentido de suas vidas, mas também revelava partes da mente humana que de qualquer outra forma continuariam inacessíveis. Era uma forma antiga de psicologia. As histórias de deuses ou heróis que descem ao submundo, se perdem em labirintos e lutam com monstros, jogavam luz sobre o misterioso funcionamento da mente humana, e ajudavam as pessoas a lidar com suas crises internas. Quando Freud e Jung começaram a jornada moderna em busca da alma humana, instintivamente se voltaram à mitologia clássica para explicar seus ensinamentos e deram novas interpretações aos velhos mitos.

Não havia nada de novo nisso. Nunca há uma única e ortodoxa versão de um mito. À medida que as nossas circunstâncias mudam, temos de contar uns aos outros histórias completamente diferentes que tragam a mesma verdade universal. Quem estuda a história da mitologia, vê que toda vez que homens e mulheres avançaram no tempo, também adequaram suas mitologias às novas condições. Mas a natureza humana não muda tanto assim, e muitos desses mitos, criados em sociedade totalmente diferentes das nossas, ainda falam diretamente com nossos medos e desejos. Daí sua importância.

 

As ilustrações deste post foram feitas pela ilustradora radicada em Nova York, Renata Miwa.