Manifesto por um mundo menos babaca

Postado em 25 de maio de 2015

Fred Di Giacomo

Somos todos babacas. Por mais perfume que a gente passe, por mais plásticas que a gente faça, por mais MBAs que a gente pague; somos todos grandessíssimos babacas. “Tudo é vaidade”, reza a Bíblia – um dos livros mais antigos que conhecemos e que ainda guia a vida de muita gente por aqui. E a vaidade é uma grande inimiga quando precisamos deixar de ser babacas. Todo ser humano – mesmo Albert Einstein ou Marie Curie, mesmo Gisele Bündchen ou Brad Pitt –  é imperfeito por mais que anseie a imagem e semelhança de um Deus. Reconhecer a babaquice nossa de cada dia é um primeiro e importante passo para deixarmos o mundo menos mesquinho, menos duro, menos… babaca.

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Em maio, assisti à palestra “Por que a internet odeia as mulheres” das jornalistas Juliana Faria (Think Olga/Chega De Fiu-Fiu) e Amanda Luz (M de Mulher). As duas debateram como os haters e trolls tentam calar toda mulher que luta para ter sua voz ouvida. Elas não pedem a Lua. Questionam coisas básicas, na verdade. Veja o caso da Anita Sarkeesian, por exemplo. Anita quer mulheres mais reais nos games e não apenas gotosonas siliconadas (como Lara Croft e Sonia Blade) ou princesas indefesas (como a Princesa Peach, do Mario). Por causa desse desejo simples, ela foi ameçada de morte e estupro e teve que desistir de uma palestra nos Estados Unidos por falta de segurança. Repito: ameaçada de morte. No lugar de assumirem que Anita tinha um ponto, muitos gamers misóginos preferiram calá-la. Perderam a chance de serem um pouco menos babacas.

Juliana de Faria e Amanda Luz

Juliana de Faria e Amanda Luz

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Vivendo cada dia menos babaca e agressivo.
Quando ouço mulheres reclamando do assédio e da violência que sofrem, eu vejo como ter casado com a Karin me fez uma pessoa um pouco menos pior. Por mais que eu tenha sido criado pela dona Cecília, uma feminista inveterada, vejo que já fui babaca diversas vezes com as mulheres ao longo da vida. (Ou seja a educação “anti-babaca” tem que ser reforçada ao longo da nossa existência.) Nunca ameacei ninguém de morte ou violência, mas me recordo de várias babaquices que a gente faz sem pensar, apenas porque “podemos”.  Ciúme, por exemplo.  Quem não tem uma história vergonhosa sobre isso? Como quando você tem um chilique se sua namorada sai de casa com saia curta ou decote porque “os outros vão mexer com ela”. Não passa pela sua cabeça que a culpa é dos outros e não do decote. E que você deveria se preocupar com ela e não com sua honra. Pior,  a maioria das pessoas vai achar que nós homens estamos certos em exigir que “nossas mulheres” ˜se deem o respeito˜. Quer outro exemplo de como somos babacas “por que podemos”? Pense em quando você tira sarro do colega gay da sua classe porque todos fazem isso. Parece humor, mas é só preconceito.

“É bom ter uma garota em casa”: olha o nível das propagandas de calça dos anos 60

“É bom ter uma garota em casa”: olha o nível das propagandas de calça dos anos 60

Nossa babaquice impede que os outros tenham vidas melhores e nós insistimos no erro. Já escrevi sobre isso aqui, mas repito: assumir que  se está errado é aterrorizador. Já é um grande passo ouvir o outro discordando da gente e não julgá-lo um:

1)Ignorante (“ele fala isso por que não tem informação suficiente”);
2) Idiota (“ele tem informação suficiente, mas não consegue interpretá-la”);
3) Mal-intencionado (“ele tem informação suficiente, consegue interpretá-la, mas é do “time do mal” “);

E eu acho que vivemos duas tendências que contribuem muito para que deixemos de ser grandes babacas e fiquemos empacados em nossa ignorância e mesquinhez:

1) O ode ao sucesso fantástico e a uma vida artificial propagandeado pelas redes sociais dos meros mortais e pelas colunas sociais dos famosos.
2) O culto ao ~politicamente incorreto~ que leva quem se admite babaca a ter orgulho disso.

“É bom ter uma garota em casa”: olha o nível das propagandas de calça dos anos 60

“É bom ter uma garota em casa”: olha o nível das propagandas de calça dos anos 60

No primeiro caso, está a ditadura da perfeição das fotos de viagens, dos casais felizes e das famílias perfeitas. Diante de tamanho sucesso de meus amigos virtuais, parece que assumir-me babaca me tornará a pior criatura do mundo. Isso também leva à impossibilidade de se assumir errado em qualquer discussão virtual pública. Viramos todos grandes sabichões, famintos por expressarmos nosso opiniões sobre qualquer assunto. Estudamos e lemos pouquíssimo, mas somos uma nação de sábios. De uma hora para outra viramos todos especialistas em economia, política, ética e ciência. E discutimos com unhas e dentes para provarmos sobre como estamos certos e evitarmos ao máximo que todos saibam que, sim, somos babacas, imperfeitos, inseguros. Evitamos que saibam que nós não temos todas respostas prontas para o mundo.

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Tememos o que os outros vão pensar da gente, mas esquecemos que os outros temem o mesmo.

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O segundo problema poderia ser chamado de “ode a tosquice”. Ele começou de uma forma cool e underground, contra a “ditadura da caretice” que vimos acima. Eu, admito, gostei de muita coisa vendida como politicamente incorreta: os contos do Bukowski, os episódios de South Park, os atropelamentos do GTA. Contra a perfeição da nossa sociedade, ergueram-se os anti-heróis dos desenhos ácidos, os humoristas que não tinham ~medo de colocar o dedo na ferida~ e as bandas que faziam pose de rebelde sem causa nas suas letras. A princípio os alvos eram famosos, políticos, ícones culturais. Depois viraram gordos, velhos, gays, mulheres, negros… Ser babaca virou legal. O sujeito descobria-se preconceituoso e no lugar de procurar mudar orgulhava-se. Talvez até montasse um show de stand up sobre o assunto. Viramos uma sociedade de opostos extremos: o time da perfeição de cabelo com gel e felicidade infinita e o time da babaquice fora do armário, vomitando cinismo nas vontades de se fazer um mundo menos pior.

Poderia ser nos anos 60, mas essa propaganda racista da Devassa foi feita no Brasil de hoje

Poderia ser nos anos 60, mas essa propaganda racista da Devassa foi feita no Brasil de hoje

Nessa bifurcação, me parece melhor escolher o caminho do meio. O caminho da realidade. Não somos perfeitos, nossas vidas não são um conto de fadas. Mas também não precisamos morrer abraçados ao cinismo e a egolatria. Podemos admitir que somos falhos e sobreviver a isso. E tentar melhorar um pouquinho a cada dia. Levemo-nos menos a sério a ponto de admitir que precisamos melhorar. Mas não tão pouco a sério a ponto de desistirmos de melhorar.

Babacas do mundo todo, uni-vos!  (E deixai de ser babacas). Lutemos por um mundo menos agressivo, menos egoísta, menos preconceituoso. Um mundo melhor. Um pouquinho por dia.

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Uma imagem fofa só pra reforçar essa ideia :-P

Uma imagem fofa só pra reforçar essa ideia 😛


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As três propagandas que ilustram esse post são reais. Duas delas foram feitas nos EUA dos anos 50/60 e a última é da Devassa, feito no Brasil dos dias de hoje. Confira mais propagandas cheias de preconceito aqui.