Roqueiros brancos pensaram que um texto havia sido escrito pelo Seu Jorge e passaram vergonha

por Fred Di Giacomo

Há 15 dias um texto que escrevi sobre “como o rock dos anos 80 deixou a música brasileira mais branca e careta” viralizou aqui no Medium e foi visualizado mais de 260 mil vezes em poucos dias, além de ser republicado em vários sites. Um desses sites foi o Whiplash, que se define como o mais importante veículo de comunicação sobre Rock e Heavy Metal do Brasil.

Quando o site divulgou o artigo no Facebook, uma chuva de chorume despencou sobre meus olhos. 90% dos comentários eram críticas de pessoas que não leram o texto. Desses, 70% achavam que o artigo havia sido escrito pelo cantor Seu Jorge (!!!) porque a foto que ilustrava a matéria era dele . Outros 10% não tiveram a capacidade de entender que a Whiplash havia postado só um trecho do texto e que o resto estava no link que vinha junto com a matéria. Complicado.

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Alguém avisa pro brother que o Seu Jorge não escreveu esse texto, tem o nome do autor lá…

Ou seja, interpretação de texto (e isso meus pais que são professores de ensino médio sempre me falaram) continua sendo um dos grandes males do Brasil e da nossa querida web. Se uma pessoa não tem capacidade de entender quem é o autor de um texto (que está assinado), nem que ela leu um trecho, e não o texto inteiro, por que ela se dispõe a xingar muito nas redes sociais? Em muitos casos, simplesmente para repetir um discurso sem sentido como o MIMIMI de que os brancos (pobres de nós) estão sendo oprimidos no Brasil ou então pra confirmar, involuntariamente, a tese que tentavam atacar:

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Realmente, mig, os brancos foram trazidos para o Brasil acorrentados para trabalhar como escravos. Foi barra!

Realmente, mig, os brancos foram trazidos para o Brasil acorrentados para trabalhar como escravos. Foi barra!
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E imagina se um branco escreve que o rock nacional deixou a música brasileira mais branca e careta?

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Realmente, cansa ouvir nossas vítimas reclamando de como fodemos elas diariamente…

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E se a música , a televisão, as capas de revista, o jornalismo e o cinema só tem brancos num país mestiço? De boa, né?

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Pobre Phil Anselmo, só bebe e faz saudação nazista e grita White Power. Coitado!

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Fudeu mesmo, vem um monte de branco encher o saco e xingar muito no Face.

Bom, os comentaristas de Facebook que deram as caras na página da Wiplash não se contentaram em xingar, não entender o texto e reclamar da ˜pesada discriminação˜ que sofrem por serem brancos, eles começaram a encher o espaço de ofensas racistas ao Seu Jorge — suposto autor artigo (lembrando que racismo é crime no Brasil, hein, galera?):

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Crime 1.

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Crime 2.

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Crime 3.

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Crime 4. Não é porque você se declara negro que pode ser racista, fera.

 

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Boa! Todo negro parece mendigo. Sempre bom fazer piada com alguém que, inclusive, já teve passado de morador de rua

Pra encerrar com chave de ouro, um iluminado convoca outros roqueiros brancos para OPRIMIR Seu Jorge, que supostamente teria cometido o crime de emitir sua opinião sobre música e raça:

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Isso aí, vamos reunir nossos amigos brancos e oprimir esse negro!

Agora, vejam só, o Brasil é o país da piada pronta mesmo. Quando eu escrevi um texto dizendo que o rock dos anos 80 era formado por brancos, na sua maioria homens (ao contrário da música brasileira dos anos 60 e 70), muita gente disse que era uma bobagem, papo de comunista, uma experiência de um “roquista radical arrependido”. Exceção que não pode ser regra.

Será? Depois de ler os depoimentos de negros falando sobre se sentirem excluídos do mundo do rock e de brancos sendo racistas, vamos lá:

1)Meu texto gerou muitos depoimentos de pessoas negras concordando que não se sentiam incluídas e representadas pela “cena roqueira”. É importante ler esses depoimentos porque nós estamos acostumados a só ouvir pessoas que pensam, falam e parecem com a gente. A maior parte dos brancos no Brasil não convive com negros. Quando convive é numa relação distante ou hierárquica (o famoso “o primo do cunhado do meu genro é mestiço/racismo não existe, comigo não tem disto” ou pior “eu entendo os negros, a minha empregada sempre diz…”)

2)O mesmo texto gerou muitos comentários racistas na maioria de homens brancos roqueiros (que vocês leram acima).

Então, será que alguém ainda quer dizer que “música não tem cor”? Que “música é paixão”? Que meu depoimento era “uma exceção?” Ou, pior, que “não existe racismo no Brasil”? Gente, repito o que eu disse: música é indústria cultural e é cultura — componente fundamental na formação da imagem e autoestima de um povo. Quem não enxerga isso ou é cego ou está interessado em deixar tudo como está e manter os privilégios que herdou dos seus antepassados.

O Brasil é racista. Ponto. Nossa mídia se esforçou para esconder os negros e mestiços dos holofotes, capas de revista e programas de tv.. Enquanto não admitirmos isso continuaremos vendo violência, desigualdade e hipocrisia reinando no nosso cotidiano.

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Fred Di Giacomo Rocha é escritor e jornalista multimídia; autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais” e criador do Glück Project — uma investigação sobre a felicidade. Trabalhou em diversos sites e revistas (Super, Bizz, Mundo Estranho, etc), em São Paulo, tocou em meia dúzia de bandas de punk rock no interior, editou fanzines e organizou festivais em sua cidade natal — Penápolis.

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