Rafael Procópio, nascido e criado na favela, se tornou o professor de Matemática mais famoso do Brasil

por Fred Di Giacomo

Conheci o professor Rafael Procópio quando me convidaram para participar de um projeto muito especial – o aplicativo Edu.App, criado pelo Google junto com a Fundação Lemann em uma sessão do projeto Mesa & Cadeira. A missão do aplicativo era organizar os vídeos educativos presentes no Youtube para ajudar alunos de todo Brasil a mandar bem no Enem e, consequentemente, entrar em uma universidade garantindo-lhes um futuro digno. Procópio era o cara certo para ajudar na missão. Seu canal no Youtube é o maior quando o assunto é Matemática e conta com mais de 187 mil inscritos e milhões de visualizações.

Nascido e criado na favela do Fumacê, periferia do Rio de Janeiro, Procópio sempre foi estimulado pelos pais a estudar e aprendeu a falar inglês e espanhol sozinho. O amor pela Ciência e a Matemática – que cresceu movido pela leitura da revista Superinteressante – se transformou em profissão e o jovem mestre foi dar aula nas escolas do subúrbio violento do Rio. Desiludido com a falta de interesse dos alunos, ele pensou em largar tudo para virar guia turístico, mas acabou se empolgando com suas aulas virtuais no Youtube e encontrou sua vocação como professor virtual.

Rafael já ganhou o Youtube Creator Camp, viajou para os EUA e apareceu em programas de televisão tudo graças ao seu desejo de mudar a vida de  centenas de milhares de jovens que têm em seus vídeos uma chance de aprender e entrar em uma universidade. Achou inspirador? Então, conheça a incrível história do garoto que saiu da favela para se tornar o professor de Matemática mais famoso do Brasil:

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Professor Rafael Procópio do canal Matemática Rio

Professor Rafael tem hoje em seu canal do Youtube mais de 187 mil inscritos/Foto: Fred Di Giacomo

Vamos começar do começo: como foi sua infância?
Eu nasci, em 1983, numa família pobre, né? Minha família nunca teve dinheiro. Quando eu nasci, meu pai era soldado da aeronáutica e depois de um tempo ele conseguiu um emprego no Banco do Estado de Rondônia, na representação do Rio de Janeiro. Nessa época, a gente morava na favela do Fumacê, em Realengo. Em 1991, quando eu tinha uns 7 anos de idade, mais ou menos, o Banco do Estado de Rondônia, no Rio, fechou. Aí meu pai teve que escolher: ou ele ficava desempregado ou mudava para Porto Velho, promovido e com um salário razoável. A gente foi para lá e morou na Amazônia por quase sete anos e meio, de 1991 até dezembro de 1998.

E como foi essa mudança para você?
Eu não queria muito ir não, né? Porque tinha meus amigos todos e eu gostava muito do Rio, então não queria sair de lá. Mas a mudança foi boa porque, em Porto Velho, meu pai teve uma condição melhor, a gente foi morar numa casa melhorzinha, não era mais a favela. E eu fiz uma prova e entrei no colégio militar, que era uma escola pública, mas boa, e em que você pagava uma taxinha de R$10 por mês. Com 11 anos, eu entrei nessa escola, que tinha uma certa disciplina, e fiquei lá até o primeiro ano do ensino médio. E tive uma formação legal lá. Até 1998, quando o Banco do Estado de Rondônia fechou de vez e meu pai ficou desempregado. Aí nós voltamos para o Rio só com o dinheiro da indenização do meu pai. Ele ficou desempregado até passar em um concurso e, hoje em dia, ele é carteiro. Foi um downgrade. (No Rio) não pude estudar em uma escola tão boa quanto a militar, tive que mudar para um colégio público – o colégio estadual Bangu, perto de casa. E nós voltamos para favela porque o Rio de Janeiro é caro pra dedéu, né?

Nessa época que você voltou pro Rio, com 15 pra 16 anos, como era a questão da violência no Fumacê?
Lá ainda era um lugar mais violento, tinha boca de fumo, tudo mais. Mas a gente estava acostumado, né? Morávamos em Porto Velho, mas todas as férias a gente voltava pro Rio, passava com a minha vó, então, estávamos acostumados com a movimentação. Tive muitos ex-amigos que morreram por causa da violência, que se envolveram com drogas. Ainda bem que da minha família ninguém se envolveu, meu pai sempre mandava a gente estudar. Eu tive uma orientação legal do meu pai e da minha mãe.

Você acha que foi essa orientação que fez a diferença entre sua jornada e a de algum colega seu que acabou se perdendo?
Cara, eu não sei. Porque teve colega meu com família boa que acabou se envolvendo. Não sei se a influência dos amigos acabou sendo maior… Eu nunca me envolvi com coisa errada, era da minha cabeça isso. Eu nunca me envolvi com amigos que me levassem para o mal caminho. Sempre procurei me envolver com o pessoal mais do bem. Mas eu considero que meu pai e minha mãe tiveram uma influência legal e eu sempre fui um cara que gostou de estudar, né? Isso é uma vantagem.

Falando em estudar, você lembra como se apaixonou pela educação?
Lembro, lembro exatamente qual foi o momento em que eu decidi virar professor. Eu estava no Ensino Médio, lá no Rio, e estávamos em semana de prova. Minha melhor amiga na época, a Rossane, estava com dúvida em Matemática e sabia que eu era bom, né? Aí ela me pediu para explicar um exercício que estava com dúvida, sei lá, uma função. Eu ensinei e ela acabou tirando uma nota melhor que eu na prova. Aí eu falei, “Putz, eu consegui mudar, né?”. De repente ela ia tirar um 0 ali e conseguiu tirar um 9, um 10, sei lá. E por eu ter mudado ali, mesmo que seja um pedaço ínfimo da vida dela, eu consegui mudar a história da pessoa, né? E eu falei, putz, imagina isso em larga escala, mudando a vida de muita gente? Ia ser muito maneiro. Eu gostei desse poder e naquele momento eu decidi: “Quero ser professor”.

A gente fez uma campanha aqui no Glück chamada #livrosmudamvidas. Teve algum livro que ajudou a mudar sua vida?
Cara, a revista Superinteressante eu li desde que era pequeno. Meu avô, pai da minha mãe, trabalhava em uma banca de jornal, então ele sempre levava a Super para mim. E quando a gente mudou pra Porto Velho eu falei pro meu pai “Pai, você tem que assinar a Superinteressante pra mim”. Então, eu recebia todo mês a Super e caía dentro daquela leitura. Eu não lia muito livro, é até uma falha na minha formação, eu lia aqueles livros que a escola indicava, que eram sempre chatos e achava que não gostava de ler livros. Mas na verdade eu estava lendo os livros errados. Porque o que me interessava era a ciência, né? Eu gostava de ler sobre ciência na Superinteressante e livros sobre matemática e aquilo foi me deixando cada vez mais curioso. Já na época da faculdade eu comecei a investir nisso e formar minha biblioteca de livros de história da matemática, principalmente. Na época da escola a matéria que eu ia mal era história, né? Mas depois comecei a entender história lendo sobre a história da matemática.

E tem algum desses livros que é seu favorito?
Um que eu li na faculdade foi “O Romance das Equações Algébricas” e depois eu comprei um outro que se chama “Introdução a história da matemática”, do Howard Eves. Esses dois livros me guiaram para entender a história e me ajudaram e entender que ela não é um projeto linear como a gente aprende na escola, né? Não é uma coisa bonitinha, tem várias reviravoltas.

Legal, aí você se apaixonou pela matemática e resolveu estudar, né? Como foi essa entrada na faculdade?
Na faculdade eu tive um choque inicialmente. Porque quando você entra numa faculdade de Matemática, você já começa vendo cálculo e eu vim de uma escola pública, né? A qualidade do ensino não era das melhores e eu tive um baque inicial com cálculo, tive que correr atrás, revisar a matéria e tal. Pegar meus livros de ensino médio e resolver os exercícios e assim eu consegui me nivelar, meio por baixo, mas me nivelar. Depois eu fui batalhando, sempre tive que correr atrás. Porque Matemática é um dos cursos mais difíceis que tem. Por exemplo, no primeiro período a turma tinha 70 alunos. Depois da primeira prova de cálculo o pessoal já vaza. É muito difícil. Acho que no final do curso da minha turma inicial de 70 e poucos, só eu e mais 3 nos formamos.

E do pessoal que estudou com você no Ensino Médio? Alguém fez faculdade?
Cara, dos que eu tenho contato até hoje, ninguém fez. Pra você ver que a escola pública não forma a pessoa para fazer um vestibular, não estimula que a pessoa prossiga. Eu que era uma pessoa diferente, que pensava mais para frente, que corri atrás do meu sonho. Mas o pessoal não costuma ter muito sonho na escola pública. Hoje sou professor de escola pública e vejo meus alunos que são de comunidades e ninguém tem sonho. Quando você pergunta: “O que você quer da sua vida?”, o pessoal não sabe o que responder. Ou fala: “eu quero ter um empregozinho aqui; trabalhar de atendente, trabalhar de telemarketing.” Não desmerecendo essas profissões, mas esses não deviam ser os sonhos de ninguém, né? Elas deveriam ter um sonho maior.
(Pouco depois dessa entrevista, Rafael saiu da escola onde lecionava para se dedicar 100% ao seu canal no Youtube.)

Ou o sonho do pessoal acaba sendo consumo, né? Ter algo tipo um tênis, um carro…
Isso eles têm sempre. Vontade de comprar tênis, roupa, mas quando você pergunta: “Como você vai comprar essa roupa?” Aí, eles não sabem. E como eles moram numa favela ou num lugar violento, eles têm como ideal, o traficante, né? Eles pensam o cara tá cheio de mulher, consegue dinheiro, consegue se vestir legal, isso é uma realidade cruel, mas que existe. Tem como ídolo lá o traficante que consegue ter as coisas que quer de maneira “fácil”.

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E como isso atrapalha na escola?
Como eu nasci e fui criado numa favela, eu sei que o pessoal pouco se lixa para a escola, o pessoal acha que a escola é um depósito  desses alunos. “Ah, lá você come, lá você está em segurança”, mas aprender alguma coisa é o último quesito. Aprender para que? Se ele não tem um exemplo de alguém que venceu na vida pelos estudos. São poucos os exemplos. Eu até falo pra eles que eu sou um tipo de exemplo. Eu posso dizer que eu venci na vida, de uma certa maneira, pelos estudos e saí do mesmo lugar onde eles saíram. Mas é difícil você conseguir inspirar uma pessoa assim, eu tento fazer o meu máximo, mas é complicado.

Legal, pra terminar fala um pouco sobre seu trabalho hoje, seu canal no Youtube…
Em 2010, eu criei o canal. Eu me formei, em 2005, e entrei pra dar aula em 2006. Nessa época eu já tinha ideia de fazer vídeos, já brincava com isso quando era pequeno. E eu comecei a dar aula, mas me desiludi um pouco com a profissão, quer dizer, eu achava que ia mudar o mundo, mas não mudava droga nenhuma. Eu dava aula em uma escola numa comunidade violenta de Bangu, no Rio. E lá eu pensei em desistir de ser professor e fui fazer um curso  de guia de turismo. Eu queria trocar de profissão e pensei “tô no Rio de Janeiro – a cidade mais turística; vai ter Copa, vai ter Olimpíada, vou virar guia, vou ganhar dinheiro, vou ser feliz fazendo o que quero, fazendo o que gosto, ensinando pras pessoas alguma coisa, de alguma maneira”. Em 2010 aconteceu tudo na minha vida, eu mudei de escola, gostei dos alunos, me identifiquei muito com os profissionais, a diretora me dava apoio para as minhas ideias… Aí, eu abri um canal de vídeos pra essa escola no Youtube, onde a gente postava curtas dos alunos, depois abri o meu canal e comecei a postar os vídeos de Matemática lá. E daí em diante meu canal só cresceu. Hoje ele tem mais de 187 mil inscritos e é o maior canal de matemática do Brasil. Já tá chegando a 9 milhões de views. Em 2013, eu ganhei o Youtube Creator Camp – uma semana de capacitação que o Youtube, onde eu aprendi muito. Eu fiz um vídeo junto com o Iberê Tenório, lá, um vídeo que ficou maneiríssimo e eles me deram o prêmio. Ganhei o Youtube Creator Camp e fui para os EUA, comprei vários equipamentos para mim, voltei e em 2014 foi o ano que estourou legal. Fui convidado para vários programas de televisão na Globo, Record, Futura… Virei um professor pop star.

E que conselho você daria para um moleque que está lendo sua história agora?
Eu diria para ele procurar algo que goste de fazer. Não vou dar o conselho clichê de estudar para ser alguém, mas acho que todo mundo tem alguma coisa que gosta de fazer. Eu gosto de fazer vídeo por exemplo, mais até do que de matemática. Então procure o que você gosta, sei lá, dançar, escrever – você acha que não vai ganhar dinheiro com isso, mas você pode. Só procure não se envolver com pessoas e coisas erradas, que isso realmente prejudica a vida das pessoas.

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