Réquiem para uma investigação sobre a felicidade – parte 2 (sobre dinheiro e o desafio de viver no presente)

por Fred Di Giacomo

Para encerrar nossa investigação sobre a felicidade, me dispus a compilar meus aprendizados em 3 posts. Vamos começar o segundo deles atacando a clássica dúvida “Dinheiro compra felicidade?”. Para isso, convido dois grandes filósofos para discorrer sobre esse tema fundamental da existência:


Parece que Mano Brown e Sêneca concordam quando o assunto é “dinheiro vs felicidade”, mas o que a ciência diz sobre essa grande questão da humanidade? Uma pesquisa de Princeton, de 2010, conduzida pelo economista vencedor do Nobel, Daniel Kahneman diz que  existe um limite para o dinheiro trazer felicidade:

Princeton University’s Woodrow Wilson School, it sort of does — up to about $75,000 a year.

Esse número mágico, nos EUA, seria de US $75 k por ano.Outra pesquisa, de 2012, do Marist Institute for Public Opinion, abaixa o valor para US$50 mil/anuais. Para nós, aqui no Brasil, não importa se são 50k ou 75k, os gráficos acabam sendo os mesmos e confirmam o que Sêneca e Mano Brown havia afirmado antes:

Já o dinheiro traz felicidade enquanto garante saúde, emprego, um teto e aposentadoria. Outro gráfico que confirma essa ideia foi apresentado no documentário Happy e também é usado pelo  psicólogo húngaro Mihaly Csikszentmihalyi, criador da teoria do Flow. Nos EUA, a média de felicidade do país, ao longo dos anos, não cresce junto com o aumento da renda da população no mesmo período:

Ok, ok, mas  se o dinheiro traz felicidade até certo ponto, certo? Então, qual a melhor forma de gastá-lo?

No começo da minha vida de adulto me dediquei 120% à minha carreira de jornalista, fazendo horas extra, colocando sites no ar de madrugada e fazendo frilas para complementar a renda. Pela lógica do “mercado” eu venci na vida. Meu primeiro salário já era maior que o do meu pai. Dois anos depois, eu ganhava mais do que meu pai e minha mãe juntos. E o que isso significava na prática? Por que eu ainda sentia um profundo vazio interno?

Eu também havia me distanciado muito da pessoa que eu era quando cheguei à São Paulo
sem dinheiro no bolso e vindo do interior. Na cidade grande parecia que comprar era o grande norte para seguir no caminho da felicidade. Um trecho da matéria “A Ciência explica porque se deve gastar dinheiro em experiências e não em coisas”, do Papo de Homem, elucida um pouco porque isso não dá muito certo:

Em vez de comprar o último iPhone ou um BMW novo, Dr. Thomas Gilovich, professor de psicologia na Universidade de Cornell,  sugere que obteremos mais felicidade gastando dinheiro em experiências tais como visitar exposições de arte, fazer atividades na natureza, aprender coisas novas ou viajar. [Afinal, por mais que a gente aprenda, nunca terá esgotado as possibilidades de aprendizado]. Mas vamos falar mais sobre como a adaptação afeta a felicidade. Isto foi quantificado num estudo que pediu às pessoas que elas mesmas relatassem sua felicidade com grandes compras materiais e com novas experiências. Inicialmente sua felicidade com essas compras tinham mais ou menos o mesmo valor. Mas com o tempo a satisfação das pessoas com as coisas que compraram diminuiu, enquanto que a satisfação com as experiências em que gastaram dinheiro aumentou.

E quando a Karin propôs que a gente largasse nossos empregos para morar um ano na Alemanha, eu topei. Eu iria aproveitar para repensar meu modo de vida e começar uma grande investigação sobre a felicidade. É engraçado que minha chegada à Alemanha
não foi a maravilha que eu imaginava.  Eu não falava a língua, o clima era frio (apesar de ainda estarmos no verão), as pessoas eram mais fechadas. Eu senti saudades do meu emprego, do meu status, da minha família e dos meus amigos. Logo que chegamos, tínhamos muita burocracia para resolver e, inclusive, muito trabalho manual pela frente. No entanto eu lembro de tudo isso como uma única e feliz experiência.  Por que isso acontece? Vamos voltar à matéria do P.d.H. : “Gilovich atribui isso ao fato de que algo que pode ter sido estressante ou assustador no passado acaba se tornando uma história engraçada para contar numa festa, ou que podemos relembrar como uma experiência valiosa de formação de caráter”

Aceitar é preciso
Nossa capacidade de adaptação serve tanto para nos atrapalhar na busca pela felicidade, quanto como uma proteção às desgraças que atormentam nossa existência. Explico melhor: o cientista Dan Gilbert descobriu que nosso cérebro tem a incrível capacidade de produzir “felicidade sintética” quando temos que nos conformar com algo. Uma espécie de sistema imunológico da mente. Por exemplo, ficamos muito felizes quando conseguimos realizar o sonho de viajar para Disney (opção A), mas ficamos felizes, também, quando não conseguimos ir para a Disney e nosso cérebro se adapta a opção B: o Hopi Hari. Esse sistema seria o responsável pelo fenômeno da adaptação hedônica ou cadeia hedonista. Segundo a Wikipedia: “a adaptação hedônica é a tendência observada nos humanos para regressar rapidamente a um nível relativamente estável de felicidade apesar da ocorrência de importantes acontecimentos positivos ou negativos ou de mudanças de vida.

Ou seja, os “grandes acontecimentos” não garantem felicidade pela vida inteira. Eles garantem, sim, picos de felicidade ou tristeza, mas depois de um ano a vida volta ao normal. Com as técnicas de psicologia positiva e treinamento de memória podemos tentar maximizar esses picos de felicidade. Uma dessas técnicas seria “hackear nossa memória”. Como? A Superinteressante fez uma bela matéria sobre o tema, lá você encontra esse trecho que é ouro: “a memória é influenciada por dois mecanismos. O primeiro é a negligência sobre a duração das nossas experiências, ou seja, um instante de alegria intensa vale mais do que uma semana de felicidade moderada. E o segundo é a tendência a atribuir muita importância aos momentos que vêm por último”.

Ok, ok, já entendi que meu dinheiro rende mais quando invisto em experiências, mas se dinheiro tem limite para comprar felicidade, como eu posso ser mais feliz?

Não confundam a filosofia de vida acima com o conformismo. Ela é, sim, uma valorização do querer, do agir e do amar em detrimento do esperar. Enxergamos o que existe de bom no presente e nos felicitamos com isso. Da mesma forma enxergamos o que está ruim e o que podemos fazer de fato para mudar. Tomamos medidas realistas e aceitamos o que escapa de nossas forças. Muitas vezes uma atividade prazerosa que nos ancora no presente é a fagulha para felicidade. Pelo menos é isso que propõe a teoria do flow.

“Flow = fluxo, um estado mental de operação em que a pessoa está totalmente imersa no que está fazendo, caracterizado por um sentimento de total envolvimento e sucesso no processo da atividade.  Quando você está no estado de flow, seu cérebro está concentrado apenas naquela atividade e todo o resto se apaga.”

Sabe quando você está desenhando, pintando, cozinhando ou até lavando louça e parece que o mundo desaparece e só a atividade em que você está metido existe? É nesse momento que você atingiu o estado de flow, teoria criada pelo psicólogo húngaro Mihaly Csikszentmihalyi.  Esse estado costuma ser atingido quando você é desafiado para algo que realmente gosta de fazer e no qual é bom. O desafio não pode ser fácil a ponto de te entediar ou impossível a ponto de te irritar. Em seu livro “A descoberta do fluxo”, Milhaly ainda diz que, se formos meramente passivos, nossas chances de alcançar a felicidade são baixas. A felicidade não seria o estado padrão do ser humano, mas algo a ser buscado.


Traduzindo:
50% genética
10% circunstâncias
40% atividade intencional

A autora dessa fórmula,  a psicóloga Sonja
Lyubomirsky, listou 12 atividades práticas que podem nos deixar mais felizes:
1.Expressar gratidão
2. Cultivar o otimismo
3.  Evitar pensar demais e fazer comparação social
4. Praticar atos de bondade
5. Nutrir relações sociais
6. Desenvolver estratégias de enfrentamento (coping): meditar, tomar remédios, terapia, etc
7. Aprender a perdoar
8. Aumentar as atividades que geram flow
9. Saborear os prazeres da vida
1o. Comprometer-se com seus objetivos
11.  Praticar religião e espiritualidade
12. Cuidar do seu corpo

Uma coisa que nos ajuda a sentir que estamos “fazendo a diferença” em nossas vidas é estabelecermos metas que queremos atingir. A sensação de estarmos indo para algum lugar e não navegando à deriva é reconfortante. Os especialistas dizem que existem dois tipos de metas: as extrínsecas (que se relacionam ao mundo exterior; como dinheiro, imagem e status) e as intrínsecas (que se relacionam ao mundo interior; como crescimento pessoal, relações pessoais e ajudar sua comunidade). Segundo eles, as metas intrínsecas, quando cumpridas, trazem mais felicidade.

De acordo com Sonja, a inércia tende a nos trazer infelicidade. Uma prova disso é a lista de maiores arrependimentos das pessoas que estão em seus leitos de morte, recolhida pela enfermeira australiana Bronnie Ware. Quais são esses grande arrependimentos?

5 maiores arrependimentos das pessoas que estão morrendo:
1) Eu gostaria de ter trabalhado menos.
2) Eu queria ter tido a coragem de viver a vida que eu desejava, e não a que os outros esperavam de mim.
3) Eu queria ter expressado mais meus sentimentos.
4) Eu queria ter mantido contato com meus amigos
5) Eu queria ter sido mais feliz.

Ah, pra encerrar essa seção, Gregory Berns, Ph.D. e professor de psiquiatria da Emory University tem
mais um argumento em defesa da ação, dessa vez vindo da ciência: “Use it or lose it: o cérebro é como um músculo, quanto menos você usa os neurônios da dopamina, mais você os perde.”

Para encerrar o Glück, vamos postar nosso “Réquiem para uma investigação sobre a felicidade” em 3 posts de encerramento. Este é o segundo deles. Todas as colagens são do designer Daniel Apolinario.

-> Leia a primeira parte desse texto

Veja também:
A história do ódio no Brasil
-Como deixei de ser corrupta