Réquiem para uma investigação sobre a felicidade – parte 3 (trabalho & família)

Postado em 5 de março de 2017

por Fred Di Giacomo.

Ao longo dos mais de 3 anos de vida deste blog, um dos temas que mais apareceram nas questões dos nossos leitores foi a relação entre trabalho e felicidade. Nem sempre é possível trabalhar com o que se ama. Mas é possível buscarmos um trabalho que nos traga algum tipo de sentido ou satisfação. Segundo Roman Krznaric, autor de “Como arrumar o trabalho da sua vida”, essa satisfação pode vir de cinco fontes:

1)Dinheiro (cadeia hedonista)
2)Status (o que os outros pensam)
3)Sentido
4)Prazer
5) Aptidão

Um bom trabalho deve unir um propósito, o estado de flow e liberdade.”,  explica Roman. Quando trabalhei na Editora Abril, por exemplo, fui motivado por motores diversos: dinheiro no começo, status quando passei a ser promovido e aptidão quando descobri que era bom no que fazia. No entanto, quando saí de lá e passei a ser frila, arrumei um trabalho que me preenchia de sentido e prazer, mesmo me pagando quase 7 vezes menos do que eu ganhava antes: passei a dar aula de jornalismo para jovens da periferia de São Paulo. As horas que passei na Énois me levaram ao flow e me faziam voltar para casa radiante, sentindo que meu trabalho fazia sentido e ajudava, de uma pequena maneira, a deixar o mundo melhor. Tenho amigos que trabalharam como executivos de grandes empresas e amigos que faziam trabalho braçal em frigoríficos no interior de São Paulo, apesar de muitas diferenças, os dois grupos concordam quando reclamam da falta de sentido em seus empregos. Essa insatisfação parece global (pelo menos no mundo ocidental): 60% dos trabalhadores da Europa escolheriam outra carreira, se pudessem começar de novo.

Não trabalhe com o que ama, mas trabalhe pouco.
Existe uma corrente de pensamento – que talvez tenha começado lá no século XIX com o livro “Direito à Preguiça”, de Paul Lafargue – que acredita que a crença na virtude do trabalho é danosa. Lafargue defendia que deveríamos trabalhar três horas por dia. O ganhador do Prêmio Nobel Bertrand Russel dizia que essa carga horária deveria ser de no máximo quatro horas, e as pessoas deveriam passar o tempo restante dedicando–se aos seus prazeres; sendo artistas ou cientistas. Russel e Lafargue pensavam que a tecnologia era um recurso capaz de libertar a humanidade do trabalho braçal desnecessário e que jornadas mais curtas distribuiriam melhor as vagas, eliminando o desemprego.

Como vocês acompanharam através deste texto, por muito tempo meu conceito de felicidade foi bastante “hedonista” ligada ao trabalho ou à saída do trabalho, a viagens e a projetos. É claro que muitas dessas alegrias eu dividi com a Karin, minha companheira, mas em 2015 nossas metas se tornaram mais coletivas com a perspectiva de nos tornarmos um trio: Karin estava grávida do Benjamin, que nasceu em janeiro de 2016. A paternidade traz felicidade, mas também muitas responsabilidades, desapego e noites mal dormidas. As mães têm que encarar mudanças no corpo, nos hormônios e na mente. São comuns casos de depressão pós-parto ou baby blues. O trabalho se concentrado apenas no casal pode ser extenuante.

O nascimento do Benjamin nos tornou muito mais próximos das nossas famílias. Meu irmão teve um filho alguns meses antes de mim e isso nos aproximou ainda mais. A Karin e a mãe dela que se viam pouco, passaram a interagir mais de duas vezes por semana. Nós precisávamos de todo apoio e ajuda para criar o Benjamin e ele precisava muito da gente. Essa rede de proteção, carinho e ajuda nos permitiu a manter a sanidade mental e nos fez experimentar um tipo de felicidade com a qual ainda não havíamos flertado. Isso não parece surpreender os cientistas envolvidas nas pesquisas sobre felicidade, segundo um dos maiores estudos já realizados, o Grant Study, coordenado pela Universidade Harvard, nos EUA, a família e os amigos são um ingrediente fundamental para uma vida plena. George Vaillant, coordenador da pesquisa há 42 anos, afirma: “a única coisa que realmente importa são suas relações com as outras pessoas. Desde que nascemos, somos neurologicamente preparados para valorizar o afeto sobre todas as coisas. Fama, sexo e grandes banquetes passam; no fim das contas, ninguém consegue abraçar dinheiro. Exercícios, peso saudável e educação cuidam da saúde. Mas são os laços de afeto e amizade que asseguram a alegria”.

Demonstrar gratidão deixa as pessoas mais felizes
Antes de terminar nosso post,  vale assistir novamente um trechinho desse vídeo que postamos há algum tempo. Gostaram? Pra quem se empolgou com o poder da gratidão, vou recomendar um exercício simples e que funciona: anote cinco coisas pelas quais você é grato semanalmente. Demonstrar gratidão não é apenas um conselho que nossas mães gostavam de repetir ao nos pedir para agradecer quando alguém nos fazia um favor ou nos dava um presente, é também algo que a ciência indica como um método eficiente de nos deixar mais felizes. A gratidão é um jeito de as pessoas apreciarem o que elas têm, no lugar de ficarem sempre procurando por algo novo na esperança de serem mais felizes ou de pensar que não poderão ficar satisfeitas até terem satisfeito seus desejos físicos e materiais. Gratidão ajuda as pessoas a focarem no que tem, em vez do que lhes falta.

Dois psicólogos – Dr. Robert A. Emmons, da Universidade da Califórnia, e o Dr. Michael E. McCullough, da Universidade de Miami – pesquisaram muito sobre a gratidão. Eles dividiram um grupo de participantes em 3 times: um deveria escrever algumas frases toda semana sobre o que os tinha deixado gratos. Um segundo grupo deveria escrever sobre suas irritações e tristezas e um terceiro sobre evento que os haviam afetado, sem uma ênfase em ser positivo ou negativo. Depois de 10 semanas, quem escreveu sobre gratidão, estava mais otimista sobre suas vidas e também havia feito mais exercícios e visitado menos os médicos. (Legal, né? Por isso, eu gostaria de aproveitar esse post final do Glück para agradecer a todos os leitores do nosso site, especialmente aos assinantes que pagaram mensalmente para que nossos textos continuassem sendo produzidos com regularidade. Também sou muito grato às dezenas de colaboradores que escreveram textos e criaram ilustrações para o Glück.)

E pra acabar, lembre-se: “a felicidade faz parte do caminho”

 Ok, chegamos aonde estávamos no começo dessa série de posts: a felicidade é o caminho. O que isso significa?

Como eu disse lá atrás, ninguém é feliz “e ponto”. Uma vida feliz é construída cotidianamente através do autoconhecimento, de memórias felizes, da prática da gratidão e da busca por sentido nas nossas atividades. Muitas vezes eu atingi um estado maravilhoso de felicidade na minha vida e, algum tempo depois, me senti triste novamente. Coisas doloridas acontecem nas nossas vidas. Isso é inegociável. A forma como vamos lidar com essa dor é que é opcional. Além disso, você evolui e muda com o tempo

É muito provável que as metas que você traçou há dez anos já não façam mais sentido para você agora. E traçar novas metas para a vida faz com que ela mantenha sua graça. Aprender, evoluir, mudar são coisas boas. Por isso, a felicidade – como reza o velho clichê – está muito mais no que experimentamos ao subir uma montanha do que ao chegar ao seu pico.

PS: Foi muito bom tocar esse projeto junto com a Karin e o Elton (nosso webmaster) nos últimos 3 anos e 5 meses. O Glück vai continuar no ar como uma grande investigação sobre felicidade com começo, meio e fim. Um “livro-reportagem multimídia” cheio de entrevistas, vídeos, pesquisas e reflexões que – espero – continuarão ajudando leitores ao longo dos anos. Foi muito legal receber a cacetada de comentários, mensagens e emails que rolaram principalmente no primeiro ano. Agradeço muito a todas portas (inclusive profissionais) que esse blog abriu. De repente, quem sabe, não pinta um update ou uma vontade de retomar o projeto?
Elton, Pri Bellini, Renata Miwa, Daniel Apolinario, Otavio Cohen, Vanessa Kinoshita, Laura Salaberry, Alexandre Versignassi, Aline Jorge, Eduardo Carli de Moraes, Renata Lacerda, André Toso, Ale Kalko, Mari Coan, Gustavo Ribeiro, Laura Rittmeister, obrigado por fazerem o Glück com a gente!
Martin Hueck, Alê Ribeiro, Tatiane de Assis, Tiago van Deursen, Cícero Silva, obrigado por serem nossos assinantes fiéis até o momento em que o site já era pouquíssimo atualizado. Gratidão eterna pela confiança! E também a Rafael Buzon, Gilberto Batista, Fabio Araujo, Maria Auler, Renata Correa Job, Viviane da Costa Fernandes, Caroline Padilha, Karina C. Betonini, Caroline F. Silveira, Silva C. Strass, Pablo Sanchez, lilia Terezinha Iasi Moura, Gabriel Soares, Caio Turbiani, Welinton da Silva Silva, Paula Gonçalves, Tomás Rodrigues, Marcelo Araus, Ismael Silva, Daniel Motta, Mauricio Vianna, Karla Damiani, Laura Folgueira, Carlos Eduardo Freitas, Paulo Queiroz, Daniela Dias Ferreira, Carolina Luz Oliveira, Aline Maia, William Pereira, Carlos Eduardo De Freitas, Bruna Mancuso, Alcione Pereira Silva, Carlo Giovani, Amauri Melo Junior, Pamela Cabral da Silva, Daniel Padilha, Karla Damiani, Andre Mourão, Renata Guimarães, Aguinaldo Roca, Natalia Cardoso D’Amato, Rafa Prada, Carolina Junqueira dos Santos, Julia Azevedo Santos, Maryana Campello, Kimberly da Costa, Noel Diego Bastos dos Santos, Júnia Penido Monteiro, Ha Thi Thuy Van e todos gluckers espalhados por aí 😀


Para encerrar o Glück, postamos nosso “Réquiem para uma investigação sobre a felicidade” em três posts de despedida. Este é o terceiro deles. Todas as colagens são do designer e parceiro Daniel Apolinario. <3

-> Leia a primeira parte deste texto
-> Leia a segunda parte deste texto

A felicidade é possível.