Seja gentil, seja humilde, seja paciente

Postado em 14 de abril de 2014

Por Karin Hueck

Uma das minhas atividades favoritas de quando era pequena era tentar entender porque eu era eu e não, digamos, o padeiro da esquina. Ficava muito tempo tentando me colocar dentro da cabeça dos outros. Eu nutria esperanças de que, a certa altura da vida, (talvez quando completasse dezoito anos?), todo mundo pudesse trocar de lugar com alguém e começasse a enxergar o mundo a partir do ponto de vista de outra pessoa. Era como se uma existência não me bastasse. Por que só posso saber o que eu penso? Por que não consigo adivinhar o que minha amiga está pensando? Como seria o mundo visto a partir do cachorro do vizinho? Dizem que é isso que nos diferencia dos outros animais, essa capacidade de pensar sobre a nossa existência, de entender que vemos o mundo a partir de um ponto só – as nossas cabeças – e a tentativa de se colocar no lugar do outro, mesmo que seja para perceber que é impossível. Essa é uma das definições de consciência. Digamos que passei muito tempo admirada com a pequenez da minha própria consciência e tentando expandi-la. Sem sucesso, é claro.

Como nunca consegui invadir a mente de ninguém, naturalmente comecei a me considerar a pessoa mais importante do mundo. Afinal, eu só conhecia o mundo de dentro da minha cabeça. Eu bem que tentava entender o ponto de vista dos outros, mas eles nunca estavam tão claros quanto os meus, que eu explicava para mim mesma repetidamente, com um raciocínio admirável. Minhas vontades, tão lógicas dentro da minha própria cabeça, pareciam mais importantes do que as dos outros. O mesmo acontecia com meus desejos, minhas preocupações, meus erros. “Eu, eu, eu”. Quando você só tem acesso a uma consciência, a sua própria, levar em consideração a opinião e o desejo dos outros é um exercício diário. Acho que muita gente não tem paciência para isso. Acho também que muitos problemas do mundo começam aí.

Pois eis que outro dia eu estava em país distante. Um do outro lado do mundo, com uma cultura bem diferente da nossa, onde quase todos os habitantes têm olhos puxados. E eu estava sentada no meio fio de uma rua bem movimentada, com uma cerveja quente na mão, no meio de dezenas de pessoas igualmente sentadas no chão equilibrando suas cervejas quentes. Um rapazinho magrelo de vinte e poucos anos, estudante de relações públicas, puxou assunto. Ele tinha o cabelo cortado no modelo tigela e estava empolgado em treinar seu inglês com estrangeiros. Queria saber de onde eu era e que língua falava. Quando respondi que falava português, sua amiga, uma menina bonita com a blusa amarrada num nó, disse que nunca tinha ouvido falar nessa língua. O rapaz sorriu e disse que não adivinharia que eu era brasileira. Se tivesse que chutar, chutaria que eu era australiana. Olhei para umas verdadeiras australianas que estavam ao meu redor, umas meninas bem altas, bem loiras e bem vermelhas queimadas do sol, e ri. Eu não parecia nem um pouco com elas. E então ele falou aquela frase que geralmente é usada em situações reversas: “vocês brancos são todos iguais”. Olhei ao redor, para os asiáticos que eu achava parecidos à minha volta, e entendi. Para ele, eu era apenas mais uma ocidental. Era mais uma dessas turistas que vêm de longe e acham graça na cerveja quente servida na sarjeta. Para ele, tanto fazia que eu estava há dez dias com a barriga irritada por causa da comida exótica; tanto fazia que eu estava sem emprego tentando descobrir de onde tirar dinheiro nos próximos meses; tanto fazia que eu aos seis anos de idade tenha caído de bicicleta, batido minha cabeça e ficado com amnésia; tanto fazia qualquer coisa sobre mim que eu achasse relevante. Para ele, eu não era nem um pouco especial – ao contrário do que a experiência dentro da minha cabeça teimava em insistir. Fiquei pequena.

eu

Quando deixamos de nos sentir especiais, algo milagroso acontece: todo mundo vira especial. A nossa importância desaparece porque percebemos que dentro da mente de qualquer pessoa há um universo tão rico quanto o nosso. Dentro das cabeças alheias existem mundos e desejos e vontades tão legítimos quanto os meus – que fazem aquelas pessoas acreditarem ser tão especiais quanto eu. E com razão: cada um dos sete bilhões de humanos que queimam oxigênio e liberam gás carbônico é importante. De repente, tive a impressão de que as coisas que aconteciam ao meu redor não diziam respeito a mim, ao contrário do que a minha consciência indicava.

Lembrei então de uma palestra que vi uma vez no youtube do escritor americano David Foster Wallace. É um discurso que ele deu a uns formandos do Kenyon College e na qual ele tentava dar dicas de como ser uma pessoa melhor. Ele batia nessa tecla: o mundo não é sobre você, as pessoas não estão contra você, você não é tão especial. Se um carro fechou o seu caminho no trânsito, se a pipoca no cinema acabou bem na sua vez, se o desconhecido derramou café com leite na sua blusa branca – não foi sobre você. Em nenhum momento essa gente pensou em você. São apenas pessoas tentando levar suas vidas da maneira menos complicada e dolorosa possível, querendo chegar em casa e encontrar as pessoas que amam, tentando pagar as contas atrasadas no caminho. Mais do que isso, são pessoas cheias de problemas e inseguranças também – talvez estejam com um amigo doente, talvez tenham acabado de terminar um namoro. E que misteriosamente não saíram de casa com o intuito de tornar a sua vida um inferno.

A lição que Wallace deu é muito importante, e terrivelmente difícil de seguir: o próprio escritor se matou em 2008, aos 46 anos, depois de lutar contra a depressão por décadas. Mas para mim é uma das mensagens mais bonitas que alguém pode ouvir – e recomendo que todo mundo leia o texto na íntegra. Depois da fala de Wallace e do encontro com o vietnamita de cabelo tigela, algo em mim mudou. Voltei a tentar hackear as cabeças alheias. Lembro que não sou especial porque todo mundo é especial. Tenho certeza de que é o caminho para algum dia ficar mais gentil, mais humilde, mais bondosa.

As ilustrações exclusivas deste post foram feitos pela Renata Miwa, designer e ilustradora.

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