Silêncio, por favor

Postado em 28 de abril de 2014

Oi, meu nome é Karin. Se você me conhece ou já conversou comigo, talvez tenha reparado que faço caras estranhas enquanto você fala. Talvez eu cubra a minha boca. Talvez eu olhe para o lado. Mas prometo que não estou entediada – eu apenas fico confusa com pessoas. Honestamente, às vezes, elas me assustam um pouco. Assim como um terço da população mundial, não me dou muito bem em situações sociais. Sou uma introvertida.

Já faz um tempo que está na moda ressaltar o poder dos introvertidos em campanhas de “empoderamento”. Aparentemente, somos uma espécie peculiar: pensamos antes de falar. Preferimos livros a pessoas. Não ligamos muito para poder e status. E, num estudo presumidamente conduzido por introvertidos, somos também a maioria entre os superdotados. O fato é que gostamos mais do mundo que existe dentro das nossas cabeças do que todo esse barulho aí fora. De acordo com especialistas, introvertidos desabrocham quando falam de ideias e sentimentos, mas esmorecem quando precisam contar aquela história incrível que aconteceu na semana passada quando saiu para encontrar os amigos. Quer saber qual era? Melhor perguntar para um extrovertido.

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A diferença básica entre introvertidos e extrovertidos é como eles se relacionam com pessoas. Extrovertidos aumentam sua energia com a presença de outros e murcham quando estão sozinhos. Introvertidos gastam toda sua energia perto de estranhos e precisam a certa altura voltar para casa e ficar quietos para recarregar. Na prática, tudo isso quer dizer que nós vamos sempre ser aquelas pessoas que chutam seus companheiros debaixo da mesa do bar para indicar: “vamos embora, pelamordedeus”. Isso não é misantropia. Não é antipatia. É introversão.

Para a minha grande tristeza, o mundo ainda é dos extrovertidos. Das pessoas que se dão bem em dinâmicas de grupo respondendo que tipo de carro seriam se tivessem de escolher um tipo de carro para ser em uma dinâmica de grupo. Das pessoas que gostam de conhecer gente nova. Das pessoas que comemoram cada trabalho em grupo, cada chance de falar em público, cada momento em que brilham na ponta da mesa falando mais alto do que todo mundo. Esse tipo, aliás, é incompreensível para mim. Entendo pessoas com hábitos diferentes dos meus. Se alguém disser que não gosta de chocolate, eu vou compreender. Se alguém contar que traiu o namorado num momento de solidão, eu não vou julgar. Se alguém confessar que apenas finge empurrar o vidro numa porta giratória deixando os outros fazerem o trabalho duro, deixai vir a mim esse folgado – eu faço o mesmo, aliás. Mas não entendo o extrovertido na ponta da mesa. Os outros também querem falar, poxa.

O problema nesses casos está na psicologia humana. Nós, seres sociais, temos uma forte Tendência de Ouvir o Barulhento. Gostamos de quem fala bem e consegue expressar suas ideias com clareza. Isso faz com que também comecemos a concordar com o que ele fala. Geralmente, se tem alguém defendendo ideias esdrúxulas e batendo na mesa que gays escolhem ser gays ou que faz mal comer manga com leite, o grupo todo vai concordar. Nós, pequenos e cochichantes introvertidos, não temos nem chance de apontar os erros. O que me conforta nessas situações, é a frase que a pesquisadora de introvertidos Susan Cain (sim, isso existe), que escreveu um livro sobre o assunto, gosta de repetir sobre essas pessoas barulhentas. “Grupos seguem as opiniões das pessoas mais dominantes e carismáticas, embora não exista nenhuma correlação entre ser a pessoa que fala melhor e ser a pessoa que pensa melhor. Nenhuma. Você pode estar seguindo a pessoa com as melhores ideias, mas também pode ser que não. E você vai deixar isso para o acaso?” Eu prefiro não deixar.

Queria, enfim, fazer um pedido para os extrovertidos: faça um quietinho feliz. Repare no seu interlocutor. Se ele aparentar não saber o que fazer com as mãos, compadeça-se: é apenas mais um introvertido sem habilidades sociais. Pare um pouquinho de falar, ouça o que ele tem a dizer. Nem sempre vai sair uma verdade – talvez ele apenas fale uma coisa diferente do que você pensa, somos apenas pessoas. No peito dos desajustados também bate um coração.

(E estou pedindo por escrito, porque se fosse pra falar, bem, aí não sairia nada.)

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Esta ilustração acima é exclusiva do Glück, feita pela Fe Ribeiro. As imagens no alto desse post são da  barceloneta Luci Gutiérrez.

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