Sim

Postado em 13 de maio de 2014

Por Karin Hueck

A história que mais gosto de contar na vida é a de como John Lennon e Yoko Ono se conheceram. Não me lembro mais onde li – provavelmente nesta biografia do beatle – mas era mais ou menos assim. Certa vez, John resolveu visitar uma exposição com as obras de Yoko, que ainda não era muito conhecida. Entrou e não gostou de nada do que viu – achou que o lugar estava cheio de arte sem sentido. Mas aí viu de longe uma instalação, formada por uma escada que levava a um quadro pendurado do teto. Lá em cima estava amarrada uma lupa. Lennon então subiu os degraus, pegou a lupa e tentou enxergar a única palavra escrita no quadro.

“Sim”.

Quando viu aquilo, ficou profundamente tocado. Ficou carregado de esperança com a mensagem positiva. E, nesse momento, John Lennon começou a se apaixonar por Yoko Ono. O que aconteceu depois todo mundo conhece.

Como disse outra artista citada à exaustão, tudo sempre começa com um sim. (“Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve.”, Clarice Lispector, A Hora da Estrela.) A gente às vezes se esquece da força dessa palavra. Para que as coisas aconteçam, para que o primeiro hominídeo tenha saído da África, para que os espanhóis tenham se aventurado em caravelas no mar e “descoberto” a América, para que os americanos tenham pisado suas botas metálicas na lua, alguém teve de falar “sim”. Ele está na origem de tudo. Mas não é preciso ir tão longe. A vantagem do sim sobre o não aparece em coisas mais banais também. Coisas como a nossa criatividade.

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Há uns anos, psicólogos tentam decifrar o que torna uma pessoa criativa. Vários fatores influenciam: inteligência e capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo, por exemplo. Mas o mais decisivo parece ser o que os cientistas chamaram de ser aberto para novas experiências. Entre essas experiências, vale qualquer coisa: viajar, trocar de emprego, fazer um caminho novo para casa, cozinhar algo diferente na janta, aprender japonês, tocar bongô. Quem gosta de usar a vida como um grande laboratório experimental, consegue criar coisas incríveis a partir dela também. A lógica é simples: quanto mais elementos esquisitos e diferentes você colocar na sua cabeça, mais a sua cachola vai chacoalhar tudo – e botar coisas inovadoras para fora. Isso é criatividade.

Essa divisão entre pessoas que procuram novas experiêncas e as que preferem ficar com o conhecido dita diversos aspectos da personalidade de alguém. A tendência artística é um deles. Quem é mais aberto tem também mais facilidade em se colocar no lugar do outro. Em outras palavras, é mais sensível. E, bingo, sensibilidade é boa para as artes. Curiosamente, o mesmo traço de personalidade serve também para prever as escolhas políticas de uma pessoa. Se você é alguém que prefere fazer tudo sempre do mesmo jeito, provavelmente vai também votar em partidos mais conservadores. Se gosta de experimentar novidades, não vai ter resistência em aceitar coisas que há alguns anos ninguém discutia, como o casamento gay ou a legalização da maconha. O novo não assusta. Na verdade, como diria certo personagem de famosa sitcom, o novo é sempre melhor. E é daí que vem a importância do “sim”. A novidade vem com ele. Quem não tem medo do diferente – ou seja, quem é mais criativo – não tem medo do sim. Agarra-o com todas as forças. Lennon tá aí para provar.

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Mesmo que você não esteja interessado em buscar uma carreira artística ou não queira saber de política, dizer “sim” pode ser bom. Pode evitar que você chegue ao fim da vida com arrependimentos, porque fez escolhas conscientes. E ninguém quer se arrepender ao final da vida, certo? Assim, da próxima vez em que seu amigo chamar você para conhecer o novo restaurante coreano que abriu do outro lado da cidade, não tema pelos ingredientes que você não conhece. Se você resolver abrir um livro, não opte pelo quinto volume do Game of Thrones. Se for ao cinema, não compre o bilhete para a refilmagem do Homem Aranha. Se jogue na escuridão, abrace o misterioso, procure o seu “sim” com a lupa no alto da escada. Eu também tento fazer isso. No último ano e meio, além de pedir demissão e mudar de país, comecei a tocar flauta, aprendi a fazer pavê, montei móveis, estudei caligrafia e escrevi um livro de gastronomia. Nem tudo foi para frente, mas foi numa dessas tentativas que tomei a decisão mais acertada da minha vida – uma que eu, mulher tão “moderna e emancipada”, não achei que fosse topar. Há quase dois anos, num exercício íntimo de criatividade, disse the ultimate sim, e nunca fui mais feliz.

(E, para não esquecer, outro “sim” famoso da literatura.)

As fotos são do Bob Gruen.
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