Todo mundo precisa de ajuda

Por Karin Hueck

Nenhum animal vem ao mundo tão indefeso quanto o ser humano. Nascemos imaturos depois de nove meses de gestação, com o cérebro ainda em desenvolvimento. O resultado é um bebê que não sabe fazer nada. Todas as outras espécies são mais espertinhas. Se você já espiou algum canal de vida animal, reparou que qualquer bicho – do jacarezinho, ao hipopótamo, ao bebê girafa – nasce mais pronto do que nós. Peguemos o exemplo do bebê girafa. Depois de despencar de uma altura de quase dois metros ao nascer, ele fica uns minutinhos deitados no chão ainda enrolado na placenta. Mas não tem sossego pra ele. Rapidamente, a mãe começa a lambê-lo, a erguê-lo com com a cabeça, como se dissesse: “chega disso, vai viver”. E lentamente o bebê girafa começa a se equilibrar sobre as pernas bambas. Leva uns quatro ou cinco tombos de cabeça, balança mas não cai, e sai andando já na primeira hora de vida. Nós somos um pouco mais demorados do que isso. Um bebê humano precisa ser alimentado, lavado, aquecido, estimulado e cuidado por anos e anos antes que consiga viver independente. Demora meses para que tenhamos dentes. Um ano para que andemos. Dois para que consigamos formular uma ideia. Meses para que paremos de colocar qualquer coisa possivelmente venenosa nas nossas bocas que possa nos matar a qualquer momento. E, até lá, precisamos de ajuda. Muita ajuda.

A história de qualquer pessoa é a história da ajuda que ela recebeu. Eu recebi muita ajuda na vida. Primeiro, pelos meus pais, que não só me agasalharam e alimentaram quando nasci, mas que também tiveram a paciência de me educar e ensinar tudo o que um humano funcional precisa saber. Aprendi a comer sozinha, a me vestir, a aplicar corretamente o “obrigada” e o “por favor” em uma conversa e, a certa altura, até a usar o papel higiênico com proficiência. Aprendi a andar, a pedalar uma bicicleta, a jogar amarelinha – aprendi até mesmo a falar alemão quando ainda era pequenininha. Posso dizer que levei muitos empurrõezinhos que foram decisivos para toda a minha vida já nos primeiros anos de existência.

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A ajuda foi financeira também. Como é de se esperar, vim ao mundo sem um centavo sequer. E tive tudo pago pela minha família: as fraldas, que ainda eram de pano na década de oitenta, as frutas e legumes para a papinha, a roupinha que me tornava um bebê cuticuti. Como é sabido, ter um filho é um negócio caro demais, e continuei recebendo dinheiro do meus pais para as mais inúmeras atividades: comprar um tênis novo quando o velho ficou apertado, pagar o ingresso do cinema na adolescência, entrar nas aulas de natação e inglês. E teve, claro, o dinheiro da mensalidade do colégio, um desses bons de São Paulo. Tive muita sorte de nascer em uma família que pôde pagar tudo isso para mim. Recebi muita ajuda para virar o ser humano que sou hoje – muito mais que o bebê girafa teve, coitado, que ficou só com umas lambidas e um empurrão.

Não existe demérito nenhum em receber ajuda dos outros. Na minha vida, ela veio de todas as partes. Amigos me ergueram depois de um coração partido. Professores me mostraram como o mundo funciona. Colegas de trabalho me indicaram para vagas ou projetos para tirar um dinheiro a mais no fim do mês. E com todo mundo ao meu redor acontecia a mesma coisa. Pessoas se apaixonaram, casaram, viajaram o mundo, arranjaram empregos – sempre com a mãozinha de alguém. Alguns amigos já realizaram o sonho da casa própria, mas não conheço quem tenha juntado a grana sozinho; alguém sempre deu uma forcinha. A vida é um imenso toma lá dá cá, e faz sentido. Nenhum homem é uma ilha, diz o clichê. A vida já é suficientemente dura e longa para que passemos por ela sozinhos.

Acho que é por isso que os países que mais ajudam seus cidadão são também os com melhores níveis de qualidade de vida. Os mais famosos são os nórdicos. Na Finlândia, todas as mães – ricas ou pobres – ganham um kit para bebês recêm-nascidos, que inclui fraldas, meias, roupas, um bercinho e toda sorte de apetrechos necessários para um bebê sobreviver às primeiras semanas. Na Suécia, a licença maternidade é de 480 dias – que podem ser distribuídos entre a mãe e o pai, dando aos homens também a chance de ver seus rebentos se desenvolverem no começo da vida. Na Dinamarca, qualquer remédio para jovens de até 18 anos pode ser retirado de graça na farmácia. Aqui na Alemanha há o seguro desemprego, o famoso Hartz IV, que paga até 1400 reais durante um tempo indeterminado para quem não consegue encontrar um emprego que lhe agrade. Nesses estados de bem estar social, a ajuda vem também do governo. O estado entende que um empurrão ou dois vão fazer a população chegar mais longe. Sabem que nem todas as pessoas têm a sorte de nascer em famílias que podem pagar as infinitas contas da vida, como eu tive.

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No Brasil, a ajuda tem aumentado nos últimos anos. Há sinais dela em toda parte: no financiamento para a compra de casas que ficou mais fácil, nas bolsas de estudo, como o Ciência sem Fronteiras ou o ProUni, nas campanhas de vacina sazonais que sempre tomo nos postos de saúde. Mas há também a ajuda em forma de dinheiro imediato, que cai todo mês na conta de 13,8 milhões de casas no Brasil. Em média, são 152 reais distribuídos no Bolsa Família, um programa inventado por um matemático que se considera de direita. Para mim, que recebi tanta coisa na vida, 152 reais para uma família inteira me parece bem pouco – mas os beneficiados juram que faz diferença. Como precisei de bem mais do que isso para ser a pessoa que sou hoje, acho bom que alguém esteja cuidando de quem tem menos. Foi a transferência de dinheiro (e a melhora na educação) que permitiu que o número de pessoas que vivem na pobreza extrema caísse de 17% da população para 8%. “Pobreza extrema” é um conceito até doído de entender: são pessoas que não ganham dinheiro o suficiente para ingerir as calorias diárias que um ser humano precisa para sobreviver. Nesse caso, ajuda significou sobrevivência mesmo. A outra grande mãozinha que o governo deu nos últimos anos foram as cotas para entrar nas universidades públicas. Metade das vagas agora vai para estudantes dos colégios públicos, com preferência para alunos negros, pardos ou indígenas. Pode parecer estranho distribuir ajuda de acordo com a cor da pele, mas faz sentido para mim. Se lembrarmos da nossa história, só existem negros e pardos no Brasil por causa da escravidão, uma atividade tenebrosa, que deixou seus descendentes nas camadas mais frágeis da população. Eles são os mais pobres, os menos educados, os mais assassinados. Pela lógica, precisam de mais ajuda do que eu, por exemplo. Esse tipo de recompensa por causa de um erro histórico acontece também em outros países. Nos Estados Unidos, outro país escravocrata, cotas existem desde a década de 1970. A Alemanha vive se desculpando pelo nazismo também. Toda vez que algum governante alemão vai a Israel, pede perdão pelos crimes que o povo daqui fez contra os de lá – mas não fica só na retórica. Desde 1952, o governo alemão recompensa judeus pelos bens que lhe foram roubados e pelas vidas tomadas pelos nazistas. A ajuda veio do arrependimento. No Brasil, estão fazendo o mesmo agora: se não dá para reembolsar o prejuízo das pessoas tiradas à força da África, dá para pelo menos garantir o acesso de seus descendentes ao ensino. É uma ajuda que eu, branca, não preciso: meus antepassados vieram livres para o Brasil.

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Quem critica essas medidas do governo – dizendo que estão criando pessoas que vão se acomodar com o dinheiro fácil, ou argumentando que estudantes sem qualificação estão entrando nas faculdades – acho que não se lembra de todas as ajudas que recebeu ao longo da vida. Sinceramente, não sei o que seria de mim sem todas as coisas, todo o apoio, todo o ensino que me deram. Acho que ninguém se dá realmente bem sem a ajuda de muita gente ao redor – seja dos pais, da comunidade em que vive, ou do estado. Por definição, a vida já é dura o suficiente: cheia de frustrações, separações, tombos, despedidas. Todo mundo precisa de ajuda porque é difícil demais se erguer sozinho. Que o diga o bebê girafa.

 

A foto da girafa é da Reuters, do elefante é da Solent News, e a do pinguim é do acervo da National Geographic.

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