“Trabalhos sem amor, trabalhos tediosos (…) — essa é uma das mais dolorosas misérias da condição humana”, Wislawa Szymborska

por Wislawa Szymborska, tradução Carlos Alberto Bárbaro

Dizem que a primeira frase de qualquer discurso é sempre a mais difícil. Bem, agora ela já ficou para trás. Embora algo me diga que as frases por vir — a terceira, a sexta, a décima e assim sucessivamente, até a última linha — serão tão difíceis quanto, já que é suposto que eu tenha que falar sobre poesia. Falei muito pouco sobre o assunto, quase nada, na verdade. E sempre que isso aconteceu, eu tinha a ligeira impressão de que não sabia do que falava. Por isso, meu discurso será bem curto. Toda imperfeição é mais fácil de tolerar se servida em pequenas doses.

Os poetas contemporâneos são sempre céticos e desconfiados, até mesmo, ou talvez especialmente, sobre si próprios. Eles só admitem ser poetas de modo relutante, como se estivessem um pouco envergonhados por o ser. Nesta nossa época ruidosa, porém, é bem mais fácil admitir seus defeitos, principalmente se numa roupagem interessante, que reconhecer os próprios méritos, visto estes estarem profundamente ocultos, tanto que nem nós mesmo acreditamos neles… Ao preencher formulários ou ao conversar com estranhos, isto é, quando não conseguem evitar de dizer no que trabalham, os poetas preferem utilizar o genérico “escritor”, ou substituir “poeta” pelo nome de qualquer trabalho que tenham além de escrever. Burocratas e passageiros de ônibus reagem com um misto de incredulidade e pânico ao descobrirem que estão frente a um poeta. Imagino que os filósofos se deparem com reações similares. Se bem que talvez estejam em uma situação melhor, dado que na maior parte do tempo podem dourar sua vocação com algum tipo de galardão acadêmico. Professor de filosofia — isso sim soa bem mais respeitável.

Mas não existem professores de poesia, porque isso implicaria, afinal, que a poesia é uma ocupação que requer estudo especializado, avaliações frequentes, artigos teóricos acompanhados de bibliografia e notas de rodapé e, por fim, diplomas cerimoniosamente concedidos. O que, por sua vez, significaria que não basta preencher páginas mesmo com poemas dos mais requintados para se tornar um poeta. O elemento crucial seria alguma folha de papel trazendo um selo oficial qualquer. Lembremos que o orgulho da poesia russa, que viria ele mesmo a ser premiado com um Nobel, Joseph Brodsky, foi certa vez sentenciado a um exílio em seu próprio país com base exatamente nessas convenções. Chamaram-no de “parasita” por ele não dispor de um documento oficial que lhe assegurasse o direito de ser poeta…

Muitos anos atrás, tive a honra e o prazer de conhecer Brodsky pessoalmente. E notei que, de todos os poetas que eu já havia conhecido, ele era o único que gostava de se apresentar como um. Ele pronunciava a palavra sem constrangimento algum.

Na verdade, era exatamente o oposto, ele a pronunciava com liberdade desafiadora. Julguei que era assim por ele se lembrar sempre das humilhações brutais que havia sofrido em sua juventude.

Em países mais afortunados, onde a dignidade humana não é roubada tão prontamente, os poetas aspiram, claro, ser publicados, lidos e compreendidos, mas não se esforçam muito, se é que se esforçam, para se situarem acima do rebanho e do cotidiano esmagador. E no entanto, não faz muito tempo, nas primeiras décadas do século passado, os poetas buscavam chocar com suas roupas extravagantes e seu comportamento excêntrico. Embora fosse tudo meramente para consumo do público. Porque sempre chega o momento em que os poetas têm que cerrar as portas atrás de si, despir-se dos seus mantos, ornamentos e outras parafernálias poéticas para confrontar — silenciosamente, aguardando pacientemente seus verdadeiros eus — a ainda branca folha de papel. Porque é isso, no final, que conta de verdade.

Não é por acaso que se produzem aos montes biografias filmadas de grandes cientistas e artistas. Os diretores mais ambiciosos buscam reproduzir de modo convincente o processo criativo que levou a descobertas científicas importantes ou ao surgimento de uma obra-prima. E é possível descrever alguns tipos de trabalho científico com relativo sucesso. Laboratórios, instrumentos diversos, maquinário elaborado, trazidos à vida; esse tipo de cenário pode manter o interesse do público por algum tempo. E aqueles momentos de incerteza — será que o experimento, repetido pela milésima vez com algum tipo de variação microscópica, vai finalmente alcançar o resultado desejado? — podem ser bem dramáticos. Filmes sobre pintores podem ser espetaculares, na medida em que buscam recriar cada passo da evolução de um quadro célebre, da primeira linha do esboço até a pincelada final. A música preenche todos os espaços em filmes sobre compositores: os primeiros compassos da melodia que ecoa nos ouvidos do músico finalmente emergem como um trabalho maduro em forma sinfônica. Claro que tudo isso é bem ingênuo e não explica o estranho estado mental conhecido popularmente como inspiração, mas pelo menos há ali algo para olhar e ouvir.

Poetas, no entanto, são os piores. O trabalho deles, indiscutivelmente, não tem como ser fotogênico. Alguém sentado a uma mesa ou deitado em um sofá, olhando imóvel para o teto ou uma parede. Vez ou outra essa pessoa escreve sete linhas apenas para riscar uma delas quinze minutos depois, e depois outra hora se passa, durante a qual nada acontece… Quem aguentaria assistir a esse tipo de coisa?

Eu falei de inspiração. Os poetas contemporâneos dão respostas evasivas quando perguntados sobre o que é isso, e se existe de fato. Não é que nunca tenham experimentado a graça desse impulso interior. É que não é fácil explicar a alguém algo que você próprio não entende.

Quando me perguntam sobre o assunto, eu também tergiverso. Mas respondo o seguinte: inspiração não é privilégio exclusivo de poetas ou artistas em geral. Existe, existiu e sempre vai existir certo grupo de pessoas a quem a inspiração visita. Esse grupo é composto de todos os que escolheram atender à sua vocação e fazer seu trabalho com amor e imaginação. E ele pode incluir médicos, professores, jardineiros — e eu poderia enumerar aqui centenas de outras profissões. O trabalho dessas pessoas se torna uma aventura contínua enquanto elas conseguirem continuar a descobrir novos desafios nele. Dificuldades e contratempos não sufocam sua curiosidade. Um enxame de novos questionamentos surge para cada novo problema que elas resolvem. Seja o que for a inspiração, o certo é que ela surge de um contínuo “não sei”.

Não existem muitas pessoas assim. A maior parte dos habitantes da Terra trabalha para viver. E trabalha porque têm que trabalhar. Eles não escolheram um ou outro trabalho por paixão; as circunstâncias de suas vidas é que escolheram por eles. Trabalhos sem amor, trabalhos tediosos, trabalhos valorizados somente porque outros não conseguem sequer aquilo, por menos apreciados e tediosos — essa é uma das mais dolorosas misérias da condição humana. E não há nenhum sinal de que os séculos por vir produzirão qualquer mudança para melhor, até onde se pode vislumbrar.

E é por isso que, embora eu possa negar aos poetas seu monopólio sobre a inspiração, ainda assim eu os situo no seleto grupo dos prediletos da Fortuna.

A esta altura, porém, algumas dúvidas podem ser levantadas pelo meu público. Todo tipo de torturadores, ditadores, fanáticos e demagogos que buscam o poder fazendo uso de alguns poucos bordões gritados a plenos pulmões também gostam do seu trabalho, e também desempenham seus afazeres com inventivo fervor. Sim, claro, mas eles “sabem”. Eles sabem, e seja lá o que saibam, é o que lhes basta para o agora e para todo o sempre. Eles não querem descobrir mais nada sobre nada mais, dado que isso pode diminuir a força de seus argumentos. E qualquer conhecimento que não levante novas questões morre rapidamente, porque não sucede em manter a temperatura necessária para preservar a vida. Nos mais extremos dos casos, aqueles bem conhecidos da história antiga e moderna, esse tipo de conhecimento se constitui de fato em uma ameaça letal à sociedade.

E é por isso que eu prezo tanto aquela pequena expressão, “não sei”. Ela é curta, mas tem asas enormes. Ela amplia nossas vidas para incluir nela nossos espaços interiores, mas também os exteriores, em que está suspensa a nossa pequena Terra. Se Isaac Newton não tivesse jamais dito para si um “não sei”, as maçãs em seu pequeno pomar poderiam ter caído ao solo como granizo, e na melhor das hipóteses ele teria parado para apanhar algumas delas e devorá-las com prazer. Se minha compatriota Marie Sklodowska-Curie jamais tivesse dito para si própria seu “não sei”, por certo ela acabaria lecionando química em alguma escola privada para moças de boas famílias, e terminaria seus dias desempenhando essa, de todo modo, perfeitamente respeitável profissão. Mas ela continuou dizendo “não sei” e estas palavras a levaram, não apenas uma, mas duas vezes, a Estocolmo, onde espíritos incansáveis e questionadores são de quando em quando premiados com o Nobel.

Os poetas, se autênticos, também devem seguir repetindo “não sei”. Cada poema assinala um esforço para responder a essa afirmação, mas tão logo a linha final seja deitada à página, o poeta começa a hesitar, começa a perceber que essa resposta particular era puro disfarce, que seria totalmente inadequado trajar. Assim, os poetas seguem tentando, e cedo ou tarde os resultados consecutivos de seu desagrado consigo mesmos são organizados em uma pasta gigante por historiadores literários, passando a ser chamados sua “obra”…

Amiúde sonho com situações que não podem, de modo algum, se tornar realidade. Imagino audaciosamente, por exemplo, que me é dada a oportunidade de conversar com o Eclesiastes, o autor daquele comovente lamento sobre a vaidade de todos os esforços humanos. Eu me curvaria profundamente diante dele, porque ele é, acima de tudo, um dos maiores poetas, pelo menos para mim. Feito isto, eu tomaria sua mão. “‘Não há nada de novo sob o sol’, foi isso o que escrevestes, Eclesiastes. Mas vós mesmo nascestes novo sob o sol. E o poema que criastes também é novo sob o sol, considerando que aqueles que viveram antes de vós não puderam ler esse poema. E esse cipreste sob o qual estais sentado não esteve ali crescendo desde a aurora dos tempos. Ele veio a ser graças a um outro cipreste semelhante a esse vosso, mas não exatamente o mesmo. E, Eclesiastes, eu também gostaria de vos perguntar em que coisa nova sob o sol estais trabalhando agora? Um acréscimo de última hora aos pensamentos que já expressou? Ou talvez estejais tentado a contraditar alguns deles agora? Em uma obra anterior, mencionastes o êxtase — então, e daí se ele for fugaz? Talvez vosso novo-poema-sob-o-sol seja sobre o êxtase? Já fizestes anotações sobre ele, e rascunhos? Eu duvido que irás escrever ‘Eu já escrevi tudo, não tenho mais nada a acrescentar.’ Não há poeta no mundo que possa dizer isto, ao menos um grande poeta como vós.”

O mundo — não importa o que pensemos quando aterrorizados pela sua vastidão e nossa própria impotência, ou amargurados pela sua indiferença ao sofrimento individual, das pessoas, dos animais e, talvez, mesmo das plantas, porque como podemos estar tão certos que as plantas não sintam dor; pensemos o que possamos pensar de suas extensões, atingidas pelos raios das estrelas rodeadas por planetas que apenas começamos a descobrir, alguns deles já mortos?, ainda mortos?, não sabemos; o que quer que possamos pensar desse imensurável teatro para o qual temos ingressos reservados, mas ingressos cuja validade é comicamente curta, limitada como o é por duas datas arbitrárias; não importa o que possamos pensar sobre este mundo — é assombroso.

Mas “assombroso” é um epíteto que embute uma armadilha lógica. Somos assombrados, afinal, por coisas que se desviam de alguma norma bem conhecida e universalmente aceita, de uma obviedade com a qual crescemos acostumados. O ponto agora é: esse mundo óbvio não existe. Nosso assombro existe por si só e não é baseado em comparação com outra coisa.

Claro, no discurso cotidiano, em que não paramos para considerar toda palavra dita, todos fazemos uso de frases como “o mundo normal”, “a vida normal”, “o curso normal dos eventos”… Mas na linguagem da poesia, em que toda palavra tem seu peso, nada é corriqueiro ou normal. Nem uma simples pedra e nem uma simples nuvem acima dela. Nem um único dia e nem uma única noite que a ele se segue. E acima de tudo, nem uma única existência, nem a existência de qualquer pessoa nesse mundo.

Ao que parece, os poetas sempre terão um trabalho duro à frente.

“O poeta e o mundo”, o texto acima, é o discurso que a escritora polonesa Wislawa Szymborska realizou quando ganhou o Prêmio Nobel de Literatura, em 1996. Wislawa morreu em fevereiro de 2012. 

Veja também:
-Como não se arrepender no final da vida
– Para ser feliz, pense na morte
Como os livros podem salvar sua vida