Uma pausa para um pouquinho de pessimismo.

Postado em 3 de junho de 2015

por Fred Di Giacomo

Meus amigos, vocês me permitem uma pequena pausa para um desabafo de 5 minutos pessimistas? Prometo que depois voltamos à nossa programação normal com foco em ideias mais felizes.
***

Quando me mudei para Alemanha, em 2013, o fiz com uma pulguinha atrás da orelha. Aquela era a melhor hora para sair do Brasil? O país passava por um momento tão interessante e efervescente, um momento em que tanto as previsões otimistas, quanto as pessimistas diziam ser importantíssimo para o país. Arrumei minhas malas e parti para Berlim, dois meses depois das chamadas “Jornadas de Junho” – as manifestações que pararam o país. Me parecia uma época de esperança: ainda vivíamos os resquícios do crescimento econômico, o gigante tinha acordado, ia ter Copa e depois ainda ia ter Olimpíadas. Na minha viagem, todos os estrangeiros estavam curiosos e empolgados com o crescimento do Brasil. “O que vocês estão fazendo aqui? Este ano tem Copa no Brasil”, diziam.  Eu me sentia quase culpado de não estar na minha terra natal. Não era a hora de fazer a diferença? De arregaçar as mangas e melhorar meu país? Esse foi um dos incômodos que me fez querer voltar. Eu me sentia quase em dívida com meus pais, meus amigos e meus irmãos.

Imagina passar a Copa com um monte de alemão fanático pirando com o 7x1 sobre o Brasil?

Imagina passar a Copa com um monte de alemão fanático pirando com o 7×1 sobre o Brasil?

E existia um otimismo com aquelas manifestações recentes. Parecia que elas complementavam uma série gigante de boas notícias que já durava vinte anos: Plano Real, tetracampeonato, estabilização econômica, Central do Brasil ganhador do Festival de Berlim e Fernanda Montenegro indicada ao Oscar, Gisele Bündchen arrasando nas passarelas, a dívida com o FMI finalmente paga, Havaianas consolidadas como chinelos mais vendidos no mundo, Brasil pentacampeão, crescimento econômico, Cidade de Deus indicado a quatro Oscars, Bolsa Família tirando milhões da miséria, Seu Jorge astro internacional, Pro Uni incluindo milhares de pessoas na faculdade, aumento da imigração para o Brasil, Ciência Sem Fronteira, Copa, Olimpíadas… Não tinha como o Brasil dar errado.

Mas deu.

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Por que tudo estava tão caro no Brasil? De repente começaram a falar em bolha imobiliária, volta da inflação, desaceleração da economia e desemprego. Unidas, as pessoas estavam nas ruas e estavam insatisfeitas. Elas não queriam mais a Copa, que parecia um sonho. Elas queriam mais educação, saúde e segurança. Elas não estavam mais felizes só em poder comprar como no primeiro mundo. Elas queriam viver como no primeiro mundo. Muita gente saiu do Brasil pela primeira vez e voltou se sentindo trouxa. “Pô, me diziam que o legal era ter carro, geladeira e televisão gigante, mas lá fora os caras andam de metrô e leem livros”. Pior, não era só em Miami ou Paris que a coisa parecia melhor. Se você esticasse até Buenos Aires em crise, ficava embasbacado com a quantidade de sebos, livrarias e linhas de metrô. Se fosse pra Santiago, no Chile, percebia que uma capital sul-americana podia ser muito mais segura que o Rio ou São Paulo.

E aí começaram a estourar escândalos de corrupção em todos os noticiários. Pior que eram escândalos que envolviam o partido em que muitos de nós acreditamos. O partido que tinha nos prometido esperança. E nesse momento os protestos deixaram de ser um “grito de união” e passaram a ser um grito de separação: petistas vs tucanos, esquerda vs direita,  nordeste vs sudeste, brancos vs negros… As pessoas trocavam agressões nas ruas e nas redes sociais. Botavam a culpa no outro, sempre no outro, esse bicho-papão que assombra adultos racionais por todos os cantos.

E com desemprego, desânimo e inflação; a violência começou a aumentar aos pouquinhos. Os índices de roubos e assassinatos começaram a assustar de novo até em estados que tinham “vencido a violência”, como São Paulo e Rio. A polícia brasileira matou como nunca – inocentes e culpados. Os bandidos não se fizeram de rogados, voltaram às manchetes em crimes sem sentido. Passaram a esfaquear antes e roubar depois. Eu, mesmo, que nunca tive muitos problemas com violência em São Paulo, vi – em duas semanas – um colega de trabalho ser esfaqueado por um assaltante e um cunhado ter sua pequena lojinha caseira assaltada por 3 bandidos armados. No trabalho – que já sofria com a crise do jornalismo – a crise econômica chegou dando chute em cachorro morto. Se estava ruim sem crise, com crise lá se foram centenas de colegas e amigos demitidos por corte de custos. Revistas e jornais fecharam. Sites e emissoras de televisão cortaram. Centenas de colegas talentosos nas ruas me lembravam “O Teatro dos Vampiros”, trilha sonora dos anos Collor:

“Vamos sair, mas não temos mais dinheiro
Os meus amigos todos estão procurando emprego
Voltamos a viver como há dez anos atrás
E a cada hora que passa
Envelhecemos dez semanas”

Tudo isso era previsto pelos pessimistas, mas foi tão rápido, que pareceu fantasia: lembro de ler as notícias sobre o Brasil em 2014 e invejar a farra dos meus amigos na Copa, invejar os amigos que reinventavam São Paulo com suas ciclovias e ocupações urbanas, invejar as pessoas que estavam fazendo do nossos país o país do presente e não mais aquele eterno país do futuro. Parecia que cada dia uma nova linha de metrô era anunciada em São Paulo, como uma nova semente de esperança que era plantada num país que não tinha como dar errado.

Lembro de conversar com um italiano desanimado com a crise do seu país que me disse: “aproveitem este momento do seu país, que ele é único. A Itália hoje é um fantasma do passado, um país em crise. Vocês têm toda uma história ainda para inventar”.

 

brasil-crise-malvados

Acho que o momento conspira para o desânimo. Talvez toda a crise passe como uma marolinha ou talvez ela seja necessária para construir um país diferente. Talvez agora seja a hora de não deixar o pessimismo entrar pela porta e se tornar um mimimi insuperável. Mas não consigo me livrar da sensação de que aquele “grande momento” que eu parecia assistir de fora passou rápido demais.

***
Será que eram só 15 minutinhos de sucesso e eu nem vi passar?

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