Uma semana de fracassos que a gente esconde no Facebook

por Fred Di Giacomo

“Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, (…),
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,”
Fernando Pessoa, “Poema em Linha Reta”

Dia desses eu postei no meu Facebook que estava feliz pelo sucesso de alguns amigos. Disse que, ao contrário do que todo mundo queria provar, minha geração não era composta de um bando de Lucys que vive com inveja da grama do vizinho e fica deprimida quando descobre não ser especial. Alguns amigos discordaram da minha afirmação. Diego, Victor e Marcelo ponderaram que a gente vive, sim, altas expectativas e que vende uma imagem de sucesso nas redes sociais que não é realista e que deixa nossos amigos inseguros (e muitas vezes invejosos). Como só compartilhamos promoções, viagens, comidas gostosas e momentos de harmonia; nossas vidas parecem perfeitas e empolgantes. Quase como se existisse um mundo paralelo no Face onde tudo é legal e possível. Onde ninguém “toma porrada” ou “tem preguiça de tomar banho”. Um mundo diferente do “de verdade”- aquele onde a gente paga as contas, fica nas filas, toma fora do (a) namorado (a) e é demitido. Eu, como bom representante da minha geração que acha que tudo sabe, discordei.

Mas eles estavam certos.

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Terça-feira, 11 de fevereiro, 2014
Meus pais foram embora de Berlim e eu já estou com saudades. Viver em outro país faz a gente perceber como família e amigos são importantes para a felicidade. Aliás, os blogs sobre viagem e “largar tudo para ser feliz” falam pouco sobre o lado ruim de morar fora; das saudades intensas da família, do desafio de aprender uma língua nova, da dificuldade de fazer amigos, dos percalços para encontrar um emprego e da estranha sensação de começar do zero.

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Meus pais #sdds

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Assumir que  se está errado parece aterrorizante. Ouvir o outro discordando da gente e não julgá-lo um: ignorante (“ele fala isso por que não tem informação suficiente”); idiota (“ele tem informação suficiente, mas não consegue interpretá-la”) ou mal-intencionado (“ele tem informação suficiente, consegue interpretá-la, mas é do “time do mal” “) já é um grande passo. A “errologista” Kathryn Schulz tem uma palestra muito legal sobre o erro  e sobre a prisão em que podem se transformar as nossa certezas absolutas e definitivas. (Ou como simplificou o cantor que todos pedem pra tocar:  a prisão de  “ter aquela velha opinião formada sobre tudo.”)

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Eu não precisei pensar muito para enxergar que meus amigos estavam certos e que, sim, nós editamos o que vamos mostrar no Instagram, no Facebook e no Twitter; o que acaba tornando a vida de todo mundo uma campanha de margarina feliz. Editando a realidade, transformamos nossas vidas em filmes com personagens, reviravoltas e, quase sempre, finais felizes. O problema é pararmos, assim, de conviver com os fracassos e defeitos (nossos e o alheios). Pior, com milhares de amigos virtuais e muito tempo gasto com a internet, temos cada vez menos tempo para aquele amigo do peito e do bar com quem a gente se abre e para quem desabafamos os fracassos. Parece que os fracassos viraram pecados que podemos confessar no máximo a um psicólogo ou a um padre. Além de isso gerar grande angústia, quando fracassamos, isso causa inveja e falta de empatia em nossos amigos, família e colegas. Parece que somos todos “grandes vitoriosos” cujas fotos de conquista no Facebook servem para humilhar os demais “seres normais”.  Mas não existe esse mundo perfeito na vida real, todos temos vidas cheias de momentos tédio e fracasso. Existir (e ser humano) implica em lutar contra uma série de adversidades e desafios; implica enfrentar doenças, tragédias e frustrações. Alguns desses problemas são coisas banais, chatices do dia-a-dia. Outros são adversidades reais e inesperadas.

Por exemplo: eu compartilhei no Facebook a felicidade de realizar um grande sonho de infância ao publicar meu primeiro livro. É verdade esse era um sonho de infância. Um deles. Quando pequeno, eu sonhava, por exemplo, em ganhar a vida como ator. Meus amigos queriam ser jogadores de futebol. Ninguém realizou esses “sonhos”. Com 15 anos eu montei uma banda e sonhava ser “rockstar”. Toco até hoje, mas não enxergo nenhuma possibilidade de ganhar qualquer dinheiro com a música. Na verdade, escolhi uma faculdade (jornalismo) que pudesse dar vazão a algumas das minhas ambições artísticas, mas que garantisse um salário fixo e uma vida mais estável. Apostei no meu “melhor talento” que era escrever. Já adulto, quando comecei a terapia, lembro de ter uma pequena crise porque queria fazer muitas coisas na vida, mas nenhuma parecia encaminhada. Naquela época tive que escolher um deles para investir. Dois anos depois eu publicava meu livro, mas uma série de outros sonhos ficava para “mais tarde”. Inclusive um romance engavetado que chamava justamente “Memórias de um Perdedor”. Como eu escrevi antes, às vezes temos que aceitar jogar com as cartas que temos. O próprio fato de ter publicado dois livros pode parecer aos amigos que me deixou “bem de vida” ou que me permite sobreviver à base de contos e poesias. Nada! Os livros são uma grande realização pessoal, mas me renderam, juntos, pouco mais do que um salário mínimo. Assim como hoje todos sabem que eu moro em Berlim, mas poucos que passei metade da minha vida num bairro humilde de uma cidade pequena no interior. Ou que, hoje, eu posso divulgar um saboroso prato no Instagram, mas nunca escrevi que, quando era adolescente, saía no final de semana com dinheiro contado para dividir um cachorro-quente com meu irmão. Sim, seguimos o lema do ex-ministro Rubens Ricupero que foi flagrado dizendo que  “o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde”. E o mundo quer ver “as pingas que a gente toma, mas não os tombos que leva”. E, por isso mesmo, tenho certeza que o meu texto sobre apostar em seus sonhos vai ter muito mais audiência do que esse sobre encarar seus fracassos.

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Quarta-feira, 12 de fevereiro, 2014
Hoje tenho uma lista emocionante de tarefas pela frente: limpar a casa, fazer supermercado, chamar o chaveiro, trocar o pneu da bicicleta, escrever os textos atrasados para o Glück e  procurar mais trabalhos para pagar as contas.

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MiMiMI

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Quando percebi que meus amigos estavam certos em suas críticas, resolvi fazer no Glück um “anti-Facebook” para compartilhar meu lado “perdedor” com vocês e mostrar que a vida (mesmo que você “estude a felicidade, more em outro país ou tenha pedido demissão do  seu emprego”) está cheia de momentos tediosos, ruins ou pouco glamourosos. Minha intenção aqui não é ficar no mimimi, é brincar com a ideia de um “Facebook da vida sincera”. Obviamente, esses fatos se somam como uma coleção de “rich people problems” que a internet adora sacanear. Sim, acho minha vida ótima e eu só tenho que agradecer, mas ela é ótima APESAR das coisas chatas. Quando a gente começa a contar os fracassos e falar deles, a coisa fica até engraçada. E rindo das chatices a gente as exorciza e pode comemorar as coisas boas.

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Quinta-feira, 13 de fevereiro, 2014

Como se comunicar com um barbeiro/cabelereiro em outro país? Paguei mais caro no meu corte do que pagava no Brasil e sai de lá com o cabelo do Zacarias. Ele ainda passou uma navalha “reutilizada” no meu pescoço. Hipocondríacos diriam que eu posso ter contraído uma DST. 

(Eu sou hipocondríaco.)
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Não quero aqui criar um ode ao fracasso e as dificuldades da vida, mas segundo a psicóloga Sonia Flores, o fracasso é muitas vezes um componente do sucesso que a gente costuma esconder nas nossas histórias de vitória (esconder pelo menos de nossas publicações nas redes sociais). Aprendemos através de tentativa e erro, desde pequenos quando somos alfabetizados e damos nossos primeiros passos. Muitos empresários e CEOs concordam com a máxima de que o erro pode ser um grande professor, se você souber a hora certa de reconhecê-lo e de procurar uma nova solução para seu problema. Errar é uma forma de descobrir novas possibilidades e de construir algo novo. O importante é perceber os “momentos de fracasso” como oportunidades de aprendizagem e não como algo que vai transformar sua vida em uma grande e infinita queda. Nada no mundo é tão irreversível assim. (Fora a morte, claro :-P)

E a sua vida? Você consegue aceitar seus fracassos e frustrações? Ou esconde eles de você mesmo e dos outros? Compartilhe com a gente o seus fracassos! Pode usar a hashtag #fracassododia. É divertido e terapêutico, he, he, he.

Domingo, 16 de fevereiro 2014
Passei o domingão sem sair de casa (apesar do sol lá fora) para economizar dinheiro e terminar os textos e apresentações de trabalho. Esse negócio de despedir o patrão é legal, mas a grana é bem menos certa. Um dia aparece um frila que resolve o mês, no outro mês você fica vendo navios. Sem ir ao supermercado, fiz um macarrão “com o que tinha” para o almoço. O prato ficou daqueles que ninguém fotografa para o Instagram. No final da noite um pouco de romantismo: eu e a Karin discutimos por causa de um trabalho.
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Leia também:
– Aceitar é preciso!
– Pra ser feliz, pense na morte.
-A felicidade do trabalho manual

Pra terminar, um ode do Los Hermanos aos perdedores