Vale a pena largar tudo para mudar o país? (ou "A melhor herança ainda é a educação".)

por Fred Di Giacomo

Nesta segunda-feira (07), centenas de milhares de pessoas tomaram as ruas do Rio de Janeiro apoiando os professores do ensino público que foram espancados pela polícia militar carioca na semana passada. Os professores agredidos protestavam contra o novo plano de carreira que estava sendo votada na Câmara e pediam melhores condições de trabalho. Acho que todo mundo sabe que professor no Brasil ganha muito mal e trabalha sobre péssimas condições, sendo vítima de humilhações, arrastões e violências diárias. Um dos policiais que agrediu os professores comemorou a violência postando sua foto sorridente segurando o cacetete quebrado e com a desrespeitosa legenda: “Foi mal fessor”.

O que essa notícia tem a ver com a felicidade? Bom, eu recebi aqui no Glück alguns comentários perguntando como uma pessoa pobre poderia fazer como nós e “largar tudo em busca da felicidade”. A resposta que sempre ficava na minha cabeça era que a única ferramenta capaz de diminuir a desigualdade e “democratizar a felicidade” é a educação. É difícil, mas uma educação pública de qualidade pode dar a chance para alguém deixar a miséria. Pensando mais profundamente, o filósofo ganhador do prêmio Nobel Bertrand Russel dizia que “a vida virtuosa é aquela inspirada pelo amor e guiada pelo conhecimento”. Ou seja, o conhecimento é ingrediente essencial para que o homem possa alcançar a felicidade.

Vale a pena largar tudo para mudar o país?
Lá atrás, em dois momentos de suas jovens vidas, meus pais resolveram “largar tudo”. Não, eles não tiraram um sabático ou viajaram para outro país – como eu contei para vocês que estou fazendo agora. Primeiro, eles resolveram virar professores de escola pública porque acreditavam que a educação poderia mudar o Brasil. Em 1978, o meu pai estava seguindo os passos do meu avô e cursava Direito. Abandonou o curso e a possibilidade de se tornar advogado, juiz ou promotor e foi fazer História, mesmo sabendo que a vida não ia ser fácil. Na mesma época, minha mãe estava prestando vestibular para fonoaudiologia e resolveu trocar a opção para sociologia. Os dois começaram a trabalhar cedo – ainda no começo da faculdade – e um dos primeiros lugares aonde foram lecionar foi o Jardim Ângela – considerado pela ONU, em 1996, a região mais violenta do mundo. Dando aulas lá, minha mãe ouvia histórias como a de uma menina da quinta séria que não conseguiu dormir porque os gritos de um homem sendo torturado pela polícia eram muito altos. No dia seguinte, a caminho da escola, a menina viu o órgão sexual do homem jogado na rua.

Difícil prestar atenção na aula assim, né?

Quando eu tinha uns três anos, meus pais resolveram mudar de vida de novo. E foram buscar uma existência mais simples, feliz e segura dando aulas numa pequena cidade do interior chamada Penápolis. Na época, Penápolis tinha uma administração modelo e alguns dos melhores índices de saneamento do estado. É lá que eles continuam dando aulas em escola pública e em algumas escolas particulares.

O aeroporto não é a única saída para a felicidade

Outra tirinha do Laerte que consegue girar reflexão com humor

Tirinha do Laerte que consegue girar reflexão com humor

A história dos meus pais ilustra duas ideias que eu gostaria de discutir. A primeira é que nós, do Glück Project, não acreditamos que a única saída para a felicidade é a “saída para o aeroporto de Guarulhos”. Quando eu contei que resolvemos passar um tempo em Berlim depois de pedir demissão, eu estava contando uma história pessoal que exemplifica uma mudança de vida em busca de algo que faça sentido para mim. Isso me parece o mais importante: seja honesto com você mesmo, com seus sonhos e suas ambições. Aceite que não existe regra pronta e solução fácil na busca pela felicidade. E essa é uma das partes divertidas da vida. O caminho que você vai percorrer não está pronto! Não acredito, também, que essa busca é uma exclusividade da geração Y ou da classe média.

Permitam-me contar mais uma história familiar para ilustrar esse ponto: meu avô, Josemir, nasceu na Bahia há 85 anos. Ele trabalhou como porteiro, vaqueiro e foi jogador de futebol amador. Trabalhava para pagar seus estudos e chegou a dar aulas de latim antes mesmo de ter feito uma faculdade. Veio para São Paulo de carona num avião dos Correios. Ele não era da classe média e nasceu muitos anos antes de qualquer pessoa da geração Y. Trabalhou bastante e, com a ajuda da minha avó, pagou uma faculdade de Direito. Sofria preconceito por ser um dos poucos nordestinos da PUC. Se aposentou como fiscal de renda e cumpriu o objetivo do que, para ele, era felicidade: ganhar dinheiro para ter uma vida confortável. A educação foi ferramenta fundamental na sua jornada.

Eu, meu pai e meu avô temos histórias e passados diferentes. Cada um buscou a felicidade que acreditou ser ideal e possível. Seja uma viagem-reportagem de investigação, seja a dedicação para mudar o país ou o esforço para ganhar dinheiro e ter uma vida decente. No entanto, todos têm em comum esse “esforço” para escapar do destino pré-fabricado que lhe apresentaram e buscar algo único e sincero que possa levar à felicidade. Têm também a educação como alavanca para perseguir esses sonhos. Discuti um pouco dessas diferentes visões num conto do meu primeiro livro chamado “Joguei meu iPhone nas águas do rio Tietê”.

Qual a herança que você vai deixar para os seus filhos?

Tirinha do Laerte

Tirinha do Laerte

O outro ponto que quero abordar é o mais importante. Gostaria de discutir – e reforçar – o clichê que reza que “a principal herança que os pais podem deixar para os filhos é a educação.” Não só os pais, mas o “país”. Acredito, sinceramente, que – para que todos os brasileiros possam alcançar a felicidade plena e a vida “inspirada pelo amor e guiada pelo conhecimento” – nós precisaremos levar a educação como prioridade da nação. E, obviamente, remunerar professores de uma forma decente. Quando assisti ao filme “A Dama de Ferro”, sobre os feitos (e a velhice gagá) da ex-primeira-ministra da Grã-Bretanha, Margaret Thatcher, o ponto que me tocou foi a relação de Thatcher com o pai, um pequeno comerciante e político conservador inglês que a incentivou a:

1)Estudar
2) Não seguir o lugar-comum
3) Fazer a diferença no mundo.

Confesso, o senhor idealista me lembrou meus pais. E, que fique claro, meus velhos estão longe de serem pequenos comerciantes conservadores. Talvez, eles achem Thatcher a encarnação do demônio, mas são mais parecidos com o pai da “Dama de Ferro” do que podem imaginar. Como o velho comerciante inglês do filme, meus pais não me deixaram rios de dinheiro de herança e nem me bombardearam com milhares de cursos extra-curriculares na adolescência, mas me deram duas ferramentas essenciais: amor por aprender e pensamento crítico-criativo. Pais de esquerda ou de direita, a melhor herança que vocês podem dar para o seus filhos é essa.

Gente ética, que pensa “fora da caixinha”, que tem raciocínio lógico e que quer fazer o mundo rodar do melhor jeito possível parece ser recurso escasso nesse país onde sobram ódio à diferença e amor por soluções fáceis e faltam reflexão e curiosidade.

Se eu consegui passar perto disso em alguns momentos da vida, devo muito ao que aqueles dois professores dos cafundós de Penápolis me deram do melhor jeito que sabem fazer as coisas: ensinando.

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Eu nos tempos da primeira série na escola estadual "Augusto Pereira de Moraes"

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