Viajo porque gosto, volto porque te amo

Postado em 9 de junho de 2014

Desde que o ser humano é humano, ele viaja. Saímos ainda hominídeos da África para viver nas geleiras dos polos e na inospitez das florestas tropicais. Topamos enfrentar a distância, os caminhos tortuosos, a saudade e os banheiros de aspecto duvidoso para conhecer os confins do mundo. Eu mesma só estou aqui porque em algum momento do passado minha avó, aos dezoito anos, decidiu deixar a aldeia de 300 pessoas em que vivia no interior de Portugal para morar no Brasil. O mesmo fez meu avô aos quinze, quando deixou Berlim, e meu outro avô, aos vinte, quando se despediu do Porto. Se todos eles tivessem preferido ficar em casa assistindo TV, jamais poderiam ter se conhecido, procriado entre si e, dezenas de anos depois, me gerado. Devo minha vida ao espírito viajante dos meus avós (e um tanto à pobreza de Portugal e ao Holocausto – mas isso é outra história).

Quando tento explicar por que gosto de viajar é difícil não cair nos clichês. “Conhecer o mundo amplia horizontes. Tira você da zona de conforto. Deixa você mais tolerante.” Parece que apenas ao ver como vivem as pessoas em lugares distantes, você consegue se botar também na pele delas – algo que não acontece quando assistimos o noticiário, por exemplo. (Embora livros sobre países exóticos possam ter o mesmo efeito.) Gosto principalmente da sensação de gratidão que sinto quando viajo. Acontece quando você vai por exemplo para um lugar mais pobre do que o seu de origem: ao ver como as pessoas de lá vivem, é impossível não se sentir agradecido por tudo que você tem – principalmente por coisas simples como água corrente ou um travesseiro macio. Claro que, morando no Brasil, você também pode sentir gratidão por sua vida privilegiada ao visitar bairros dentro da sua própria cidade, mas o impacto não será o mesmo, porque você ainda estará perto da sua vida de sempre, e sabe que vai acabar dormindo na sua cama. Grande mudanças vêm com grandes distâncias. Estar longe de casa torna você mais aberto ao que pode acontecer – tudo é novidade, tudo é visto com olhos de criança: inclusive os dramas alheios. Mas a gratidão também pode surgir quando você vai para um lugar mais rico/arrumado/bonito que o seu. Fico imensamente agradecida ao ver uma paisagem linda que nunca tinha visto antes, apenas por ter a oportunidade de estar lá vendo-a. No meu dia-a-dia, raramente agradeço pelas coisas boas que estão ao meu redor. De férias, me sinto constantemente sortuda. Às vezes, é preciso trombar com o mundo maravilhoso para senti-lo maravilhoso também na volta.

(A distância, aliás, também se manifesta nos inesperados rompantes de nacionalismo que surgem quando você não está no Brasil. Uma viagem transforma você misteriosamente na ufanista que você nunca soube que era: “no Brasil, a carne é muito boa”, “no Brasil, as praias são mais bonitas” e “no Brasil, as pessoas são mais simpáticas” são frases que se esgueiram até a sua boca inexplicavelmente. Deve ser por que é verdade.)

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O que dá valor à viagem é o medo”, disse Camus. Estar em terras distantes é bastante amedrontador também. A impressão é que estamos o tempo inteiro a um segundo de cometer um faux pas terrível, uma grosseria indefensável, um crime sem fiança. Como não conhecemos nada nem ninguém, testemunhamos quase que uma conversão religiosa: começamos a sorrir mais na expectativa de que alguém nos ajude, nos tornamos mais gentis, usamos mais “obrigadas” e “com licença” (que provavelmente serão as únicas palavras que aprenderemos na nova língua). Como você vai depender da gentileza dos outros para comer e se locomover, o melhor de si vem a tona e, mesmo que seja por alguns dias, você se torna uma pessoa melhor. (Até, é claro, que você volta para casa e já no balcão da lanchonete da rodoviária se esquece de toda a delicadeza que havia acumulado nos últimos dias e briga com a pessoa do lado pelo último pão de queijo.)

Outra transformação comum em viagens, e que também surge do anonimato momentâneo, é aquela vontade incontrolável de cometer as loucuras as quais você nunca se atreveu antes. Por isso, há tantos casos de bebedeiras malucas, amigos inesquecíveis, noite passadas ao relento em terras longíquas. “Mas você só passou dois dias longe, como conseguiu se apaixonar perdidamente?” A resposta, para variar, está na distância. Se você não se jogou para a vida longe de casa, a dois quarteirões da sua cama é que não vai jogar. Como disse o inglês Oliver Cromwell, “um homem nunca vai tão longe quanto quando não sabe para onde está indo”. (Todas essas aspas, estou tirando deste texto, que vale a leitura.)

Mas o grande bônus da viagem vem com outro distanciamento, o psicológico. Viajar transforma você em uma pessoa que consegue enxergar a si mesmo pelos olhos de um estranho. Todas aquelas angústias que atormentam nossas rotinas desaparecem e você reconhece a solução que estava bem na sua frente, do mesmo jeito que você vê a situação dramática de um amigo com mais leveza. E isso é bom. Foi num desses momentos de teletransporte que um dia pensei que seria bom passar um tempo fora do Brasil para ver como seria a vida num outro continente. E foi em outro desses momentos, dez dias atrás e há nove meses longe do Brasil, que me bateu a maior saudade de casa que já senti. Eu, que estava triste em deixar Berlim, não vejo a hora de botar o pé na minha terra natal. E fico feliz em contar que, a partir de agosto, o Glück segue existindo a partir de São Paulo.

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As fotos deste post são do fotógrafo inglês Tom Robinson, que viajou o mundo registrando seus pés, os de sua mulher – e depois de sua filhinha também.

 

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